terça-feira, 2 de agosto de 2016

Quem te manda a ti, sapateiro...

Ontem tive de ir a Lisboa a uma consulta ao hospital. Como me esqueci de levar um livro para aliviar o tempo de espera e a consulta estava demorada, comprei um jornal. Optei pelo DN, cujo conteúdo me pareceu mais apelativo. 
Logo na página 2, ao ler um artigo sobre momentos quentes de meses de Agosto passados, tive de dar azo à minha indignação. É que, a propósito do "Verão quente" de 1975, o jornalista escreve:
" A 18 ( nde: de Agosto) num discurso em Almada que ficou tristemente célebre, Vasco Gonçalves fez a apologia (...)".
Não sei se o autor do texto se esqueceu que é jornalista, se pensava estar a escrever num blog e não no jornal, ou esqueceu um princípio básico do jornalismo: numa notícia o jornalista não dá opinião, nem faz juízos de valor. Limita-se a relatar factos.
A que propósito, com que legitimidade, João Ferreira classifica o discurso de Vasco Gonçalves de tristemente célebre? Pode ser essa a sua opinião e tem todo o direito de a exprimir nas redes sociais ou no seu círculo de amigos, mas não a pode expressar numa noticia de jornal. Isso fica reservado aos comentadores e aos artigos de opinião.
Infelizmente, este é apenas um dos muitos exemplos do jornalismo tendencioso e tendencialmente manipulador que se vai fazendo em Portugal e um pouco por todo o mundo. 
Não conheço João Ferreira, não sei a sua idade, nem tampouco se assistiu ao discurso de Vasco Gonçalves mas se ouviu e tem opinião, deve guardá-la para si, para a família e amigos. Se não assistiu ao discurso e  se limitou a reproduzir o que  leu ou ouviu a outros, então devia ter esclarecido os leitores desse facto. O que nenhum jornalista pode fazer é vender opinião como se fosse notícia. Infelizmente, porém, essa regra parece cada vez mais esquecida e nem os editores são capazes de a lembrar aos jornalistas.

8 comentários:

  1. João Ferreira foi já director do magazine Focus até Junho de 2005, tendo desempenhado antes cargos de chefia no 24horas (como chefe de redacção e director interino) e no Tal & Qual (director).
    Tinha, por isso, obrigação de ter outra postura jornalística.
    Parte da atitude que o Carlos aqui relata a propósito do discurso de Vasco Gonçalves, deve-se ao facto de ser um anti comunista primário. Mas lá está, ele tem que saber distinguir as ideias pessoais das profissionais. Para João Ferreira, ética é um palavrão estranho.
    Será que ainda se consegue ler um jornal que nos ofereça credibilidade?

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  2. Um dos conteúdos programáticos previstos na disciplina de Português do Ensino Secundário é a comunicação social: editorial,crónica, reportagem, notícia, etc e são dadas e discutidas todas as características, formais e de conteúdo, de cada uma das tipologias.
    Muitos jovens achavam que era natural que o jornalista usasse uma linguagem judicativa,ou seja,parece que interiorizaram esta forma de jornalismo. Outro aspeto que se verifica, e resultante do anterior, é o uso abusivo, excessivo, de estrangeirismos, de uma linguagem subjetiva,pejada de expressões inadequadas a uma notícia que se deseja que abranja o maior número possível de leitores.
    Há muita promiscuidade nos textos jornalísticos e acho que já muitos jornalistas que se dão muita importância! Quero eu lá saber da opinião dele sobre o assunto?

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  3. Não sei que raço de formação dão a estes jornalistas "de aviário", mas todos se arrogam o direito de opinar em vez de informarem que é essa a sua função.

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  4. Ah, meu caro
    esse caso não é raro
    e que compra o DN por ser mais apelativo
    merece tal castigo

    Há muito que abandonei o DN
    não porque haja muito melhor, mas por raiva
    Palavra!

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    1. Referia-me exclusivamente ao dia de ontem, Rogério. Deixei de ler jornais portugueses há um mês, mas de vez em quando há que fazer uma excepção. Senão, onde vou ler notícias sobre o país?

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  5. Fazedores de opinião.
    Muito diferentes de jornalistas, Carlos

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Se é o João Ferreira que eu penso e com esse nome e carteira profissional só há esse,é bem antigo e é de fugir de tão reaccionário que é. até costuma comentar muito nas tvs. E o Carlos conhece com certeza, pode é não estar a associar o nome à pessoa, que até já tem umas boas "entradas".
    Mas porque falou em quente e como hoje é o dia mundial do...aqui vai: Quero o mesmo

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