quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Juntos somos mais fortes ( podia ser uma telenovela...)





Era uma vez um país que partiu à descoberta do mundo, se cobriu de ouro e de glória, mas rapidamente desbaratou todo o seu património.
Foi invadido por uns vizinhos manhosos que durante 60 anos o trataram como uma província menor.
Um dia, alguns homens desse país decidiram por fim à humilhação e expulsar os invasores. Outros,  colaboracionistas, escondiam-se em armários.
Três séculos e meio depois, esse país foi admitido na corte dos ricos, mas sempre olhado como o parente pobre que todos os nobres da Europa olhavam com desdém.
O país aceitou voltar a perder a sua independência, em troca do dinheiro que diariamente lhe enviavam da capital da Europa e com o qual se embelezava e modernizava, ao mesmo tempo que destruía a sua riqueza produtiva.
Os povos de outros países começaram a olhar para esse país com lascívia e, todos os dias, aterravam nos seus aeroportos milhares de pessoas que queriam apreciar a sua beleza de perto.
Tudo parecia correr bem até ao dia em que uns amigos do PR desse país fizeram um grande desfalque num banco e o povo foi obrigado a pagar a dívida. Como já se tinha  endividado para comprar automóveis, telemóveis muitos outros bens de consumo supérfluos e para gozar férias nas Caraíbas, o povo desse país já não tinha dinheiro e, de baraço ao pescoço, entregou-se aos agiotas.
 A partir daí, o orgulho nacional foi posto em causa  pela Corte dos ricos que decidiram partilhar entre si o espólio sobrante.
Primeiro obrigaram o povo  a passar fome e a pagar juros exorbitantes para ter acesso à comida.
O povo aguentou estoicamente, sem um protesto.
Depois ameaçaram castigá-lo porque, alegadamente, estava a viver acima das suas possibilidades.
O povo ficou indiferente.
Finalmente obrigaram-no a vender todos os seus haveres, para que o povo ficasse eternamente dependente da vontade dos nobres.
Com a anuência de uns quantos traidores, descendentes dos que entregaram o país a Espanha em 1580, todos os recursos do país foram vendidos aos agiotas, que continuaram a cobrar juros cada vez mais altos.
Até que um dia, esses traidores foram corridos por uma parte do povo que se revoltou. Mas o país continuou dependente dos agiotas que, irados com a expulsão dos seus amigos que governavam o protetorado em seu nome, ameaçaram com sanções os libertadores do povo.
Foi então que um grupo de 23 portugueses, comandados pelo general Santos, decidiram vingar a humilhação do país. Como muitos outros de outras gerações, rumaram a França para participar num torneio entre países europeus, onde o país vencedor costuma conseguir lavar a sua honra
As primeiras intervenções correram mal e os seus concidadãos mostraram  insatisfação e descrença. Lentamente, porém, as coisas foram melhorando e os adversários começaram a olhar para este país com algum medo e desconfiança.  Na tentativa de desmoralizar o pequeno exército, chamaram-lhe nojento.
A esse insulto o povo reagiu mal e pediu aos soldados  que mostrassem à Europa que era possível ser o melhor de todos.
No último encontro do torneio, o exército desse país ia defrontar o exército anfitrião e, mais uma vez, as coisas começaram a correr mal. Aquele por muitos considerado o melhor soldado do mundo  lesionou-se à primeira investida do inimigo e o ânimo do povo esmoreceu.  Os rapazes, porém, estavam dispostos a vingar a honra do país humilhado. Foram aguentando as investidas do inimigo como puderam e, a determinada altura, quando as forças pareciam quase exauridas e prestes a ser golpeados pelo inimigo, o comandante Santos decidiu lançar para o campo de batalha aquele que muitos consideravam o pior soldado do nosso exército.  Os apupos não tardaram a ouvir-se mas, num golpe de génio, o pior soldado do mundo desferiu o golpe fatal no inimigo, obrigando-o a destroçar em debandada.
Foi então que o povo transformou o pior soldado do mundo em herói nacional.
Faz hoje exactamente um mês.
Isto podia ser uma telenovela de terceira categoria, mas é apenas um post parolo  que serve para mostrar como o povo é volúvel e  reage com mais firmeza quando ferem o seu orgulho desportivo, do que a sua identidade nacional, ou o escravizam em nome de uma entidade que ninguém conhece a que chamam mercado. 
Juntos e despertos seríamos mais fortes... mas optámos por ser fracos e subservientes.

18 comentários:

  1. Não começou o seu inteligente e até humorístico texto com D. Afonso Henriques a bater na mãe, o k não corresponde à verdade, segundo documentos da época, mas dentro de uma casa, de um castelo, as paredes são cegas, surdas e mudas, como todos sabemos. A História não é, nunca foi e nunca será uma ciência exata.

    Só nos unimos, estamos de acordo e a vibrar (devo excluir-me do grupo), qdo se trata de futebol. É uma tristeza, mas é tb uma verdade. Enfim, parolices e formas tacanhas deste reino.

    Beijos e continuação de boa semana, Carlos!

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  2. Ora aí está uma verdade de todo o tamanho. Se o povo se unisse para tudo como para o futebol, provavelmente não estávamos como estamos.

    Abraço

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    1. Tive a alegria de ver os portugueses unidos, uma vez na vida.Naquele memorável 1 de Maio. Hoje em dia, penso que foi um mero acaso e a maioria estava lá so porque precisava de festejar qualquer coisa, mas nao sabia bem o que. Um dia irrepetivel, infelizmente.Abraco.

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  3. Sem o brilho nem a sapiência e muito menos esse dom de colocar nas palavras o sentido certo, embora esfumado nas entrelinhas, já eu aludi a essa força de querer, que nos tornaria unos e fortes. Assim a nossa identidade nacional falasse tão alto quanto o nosso brio desportivo.
    Bela crónica, Carlos!

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    1. Obrigado pelas suas palavras, embora pense que as nao mereço, Janita

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  4. Pois eu achei um piadão ao seu post "parolo", se bem que o fundo da questão não seja para rir. ;)

    Falta-nos aquele espírito de "unidos venceremos" que em tempos tivemos... e que era bom que voltasse!

    Beijocas

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  5. É uma novela bem contada e com mais sumo do que muitas.
    A primeira desgraça ocorreu quando um menino birrento e atrasado mental, chamado Sebastião, resolveu ir brincar às guerras para o Norte de África deixando (como de costume, só que ostensivamente), a governança entregue a um cardeal, sem descendência e assim com a canalhice no meio caímos nas mãos dos vizinhos.
    O segundo e triste episódio deu-se quando um anormal, que pensava que sabia muito de finanças e de economia, em vez de continuar como os governos anteriores, que iam amortizando as desgraças com o crescimento da inflação, esse sacana resolveu valorizar o escudo e assim entrámos num clube como se fossemos ricos e com um escudo considerado, por ele, forte, que se tornou no vírus de que nunca mais nos livrámos. Da história recente todos se lembram mas parece que muita gente ainda não entendeu que estamos sem salvação.
    Como é triste a nossa história, Carlos!

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    1. A primeira desgraça aconteceu quando o Afonso se meteu onde nao era chamado e decidiu andar a pancada com os Mouros...

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    2. Carlos, eu apenas peguei quando começou a falar de desgraças.
      Essa do Afonso bater na mãe também é uma história mal contada. Ele era um deficiente que a mãe abandonou e que foi criado por Dom Egas Moniz, que o ensinou a montar, já que ele nem quase andar podia e nem conseguiu ter filhos. A nossa história, tão antiga, é mesmo uma desgraça...

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    3. Eu também nao me referia a essa cena, mas sim ao facto de ele ter " querido" a independência do Condado.

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  6. ~~~
    «Pode-se enganar a todos por algum tempo,
    pode-se enganar alguns por todo o tempo,
    mas não se pode enganar a todos por todo o tempo.»
    Frase atribuída a Abraham Lincoln...
    Beijinho.
    ~~~~

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    1. Vv. neste caso, nao me parece que seja uma questão de engano,Majo.Beijinho

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  7. A minha alma alemã quando se trata de futebol transforma-se numa alma bem portuguesa, que não tolera a nenhum alemão que diga mal da seleção nacional e do nosso "menino de ouro", por isso, fui obrigada a ver os jogos sózinha.

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    1. Ou seja, tipicamente portuguesa, mesmo praguejando em alemão:-)

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  8. Ema, e quando blasfemava em que língua é que o fazia? Uma alma lusa e portista só podia usar uma linguagem...

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