segunda-feira, 20 de junho de 2016

Vamos falar claro?


Anda por aí um grupo de carpideiras  indignadas com as  pessoas  que reagiram com veemência, nas redes sociais e no site do Público, a uma notícia assinada por Clara Viana  sobre a manif em defesa da escola pública. Dizia-se na notícia que estavam duas mil pessoas quando a manif começou.

Não sei qual o momento em que a Clara Viana escreveu, mas não foi  no início da manif, certamente, porque nessa altura já havia muitos milhares de pessoas no Marquês. A indignação de leitores e manifestantes poderá ter sido, por vezes, exagerada, mas as desculpas que hoje começaram por aí a circular são uma tontice. Não as cito aqui, porque muita gente já as terá lido e também não dou cobertura a argumentos que invocam questões técnicas para justificar uma notícia falsa.

E não o faço apenas  pela pobreza dos argumentos, mas também porque as falsidades da notícia não se limitam ao número manifestantes presentes, mas também a factos que na realidade não ocorreram, como a presença de Jerónimo de Sousa e Catarina Martins no palco dos oradores.

Corporativamente, a defesa de Clara Viana pelos seus pares, é compreensível e aceitável. Como jornalista, também já saí muitas vezes em defesa dos meus pares.  Tive, porém, sempre a sensatez de não insultar quem os criticou, como fez Ana Sá Lopes ao apelidar os críticos de bêbados.
Não pode, por outro lado,  Clara Viana nem  qualquer jornalista esquecer que mais do que a fidelidade a quem lhe paga, tem uma obrigação de fidelidade aos leitores. E isso passa, inequivocamente, por ser honesto e verdadeiro nas notícias que dá.

Ora acontece que o Público também mentiu quando noticiou a manif das canárias das escolas privadas. Dessa vez ampliou os números. Ontem, encolheu-os. Ou seja, o Publico calcula o número de pessoas em função dos interesses que quer servir. Como o árbitro que só vê os penalties que favorecem a equipa do seu coração. O jornalismo não é opinião. Nem notícias fabricadas à mesa de um café da Av. de Roma O jornalismo faz-se com  factos. E os factos  relatados pela Clara Viana  não jogam lá muito bem com a realidade. Nem com a verdade. E nem sequer o calor serve de desculpa para tanta mentira.


Dizem as defensoras de Clara Viana que a culpa das falsidades da notícia não é da jornalista.  A culpa será de  outrem no jornal (que não identificam) e de um pormenor tecnológico duvidoso. Admito que seja verdade mas, nesse  caso, ela sabe como se pode defender. E era bom que o fizesse, em nome dos leitores que apreciam o seu trabalho. Quanto ao Público, já não precisa de fazer nada para ser um jornal credível. Há muito perdeu a oportunidade de mostrar que aquele episódio da Av de Roma foi meramente acidental. Pelo contrário, todos os dias temos provas de que o jornalismo por ali está circunscrito a um reduzidíssimo número de profissionais.
Deixem-se de tretas: a acérrima defesa de Clara Viana pelas suas amigas visa, acima de tudo, lançar uma cortina de fumo que desvalorize a manif de sábado e desvie as atenções da manipulação orquestrada por alguma comunicação social que apoia descaradamente as escolas privadas.
Seria bom que soubéssemos quais os interesses que movem alguns dos detentores de órgãos de comunicação social mas, como já aprendemos com os Panama Papers, quando saltam para a ribalta notícias sobre o envolvimento de jornalistas e detentores de órgãos de comunicação social, as notícias esfumam-se, a investigação suspende-se  e não se fala mais nisso.
Em tempo: o pedido de demissão de Clara Viana feito pela deputada Gabriela Canavilhas ( o exemplo das ameaças de Relvas a jornalistas deixou frutos) é descabelado e inadmissível, mas não se empole a disparatada reacção de uma deputada, para escamotear a manipulação noticiosa prosseguida pelo “Público”.

6 comentários:

  1. Ora,...
    ...aquilo já devia estar escrito e, mais pormenor, menos pormenor, iria bater certo na generalidade... (houve, de facto, uma manifestação)!
    Além disso, só se preocupam com pormenores os espíritos menores...

    hehehe

    :)

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  2. Exactamente, Carlos. A falar claro é que a gente se entende.

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  3. Venho em defesa de Clara Viana. A moça frequentou o ensino privado e não aprendeu a contar.
    Vá lá, vamos condescender com a senhora. Tanto mais, ao serviço do mais sério, honrado e mais sei lá o quê jornal (eu disse jornal?) Público!!!

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  4. ~~~
    Muito bem, Carlos, embora compreenda igualmente muito bem
    a indignação de Gabriela Canavilhas.
    É urgente erguer a voz contra a manipulação abjeta e o que
    ela profere, ouve-se.
    ~~~Bj~~~~~~~

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  5. Este nosso "jornalismo" está a descer a níveis intoleráveis. Uma vergonha! Já não vejo telejornais e quase já nem o DN leio! A bem da minha serenidade.

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