quinta-feira, 9 de junho de 2016

O que Assis ainda não percebeu


No mesmo dia em que 11 indivíduos, outrora frequentadores de uma “ margem esquerda” se reuniram num jantar para  criticar a liderança de António Costa, Francisco Assis assumiu em várias  entrevistas, as rédeas da contestação ao governo da geringonça.
Se aos 11 eternos vencidos (mas muito convencidos) a História não dedicará nem uma nota de rodapé, já o mesmo não se pode dizer do homem de Amarante. Goste-se ou não, Francisco Assis é um homem corajoso. Tem convicções, pensa pela própria cabeça e, mesmo que as suas ideias estejam erradas, ou contra a maré, lutará por elas com denodo.
Lamento ver Assis posicionar-se de forma tão crítica, mas não me surpreendo. Sempre pugnou por um Bloco Central, que tivesse influência para além da esfera governativa. Foi nesse sistema que nasceu para a política e é com ele que quer sobreviver. Está absolutamente convicto que os problemas do país se resolvem com uma aliança tácita entre PS e PSD, tendo o CDS como muleta e testemunha. A aliança de esquerda parece-lhe por isso contra natura e contrária aos interesses do país e do PS.
Estranhamente, apesar de ser deputado europeu, Assis parece ainda não ter percebido que o mundo mudou e os equilíbrios conseguidos durante décadas à custa de uma aliança entre duas famílias social democratas com muitas semelhanças já não existem. As famílias estão agora desavindas por força de uma luta entre os herdeiros dos construtores dos consensos, que assumiram a liderança.
Acresce que o mundo mudou mesmo muito nas duas últimas décadas. A globalização provocou profundas alterações no mercado de trabalho. Quer ao nível da retribuição, quer na relação de forças entre entidades patronais e sindicatos, quer ainda no conceito social do trabalho, hoje menos dignificado.
A crescente influência dos mercados e do sistema financeiro no nosso quotidiano, as alterações na estrutura familiar com a explosão de famílias monoparentais, ou o envelhecimento da população, geraram, por sua vez, desequilíbrios sociais e uma profunda alteração nos valores a que estávamos habituados.
A sociedade solidária deu origem à já por mim aqui muitas vezes falada sociedade do Eu,Lda onde impera o individualismo e o culto do Eu. As novas tecnologias tornaram as pessoas mais próximas, mas simultaneamente mais distantes e mais voltadas para dentro de si próprias.
A noção de tempo alterou-se radicalmente e, hoje em dia, a unidade é o nanosegundo. Já não se pensa “ não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, mas sim “faz imediatamente, porque se sófizeres já estás a perder quota de mercado”.
Os problemas das sociedades modernas provocaram uma alteração de valores e criaram tensões que se traduzem em extremismos. O Bloco Central ( em Portugal ou na Europa) já não é apenas político. É, essencialmente, um bloco de interesses económicos e financeiros, que se rege por negócios de oportunidade gerados pela alienação do património dos estados, e pela desvalorização do serviço público, em favor de interesses privados, sejam eles de empresas ou organizações poderosas, como a Igreja, ONG e “ entidades assistencialistas da economia social ” que enriquecem com o grande negócio da caridade.
Vivemos num barril de pólvora onde os consensos propostos pelo centro deixaram de ser possíveis. Estamos em tempo de radicalismos, de ideias extremadas que se digladiam. Quem sair vencedor irá impor a sua lei. Neste momento, a direita e extrema direita estão em clara vantagem mas, se a geringonça funcionar e se tornar um caso de sucesso, poderá contribuir para um reequilíbrio da esquerda europeia e talvez para a salvação de uma Europa condenada a implodir se prosseguir as mesmas políticas, onde as leis dos mercados se sobrepõem aos direitos humanos. Foi isso que Assis ainda não percebeu.

6 comentários:

  1. O António Costa tem de ter cuidado com o Marcelo Rebelo de Sousa, porque não o fazer pode ter consequências negativas. Os primeiros sinais de desacordo entre Presidente da República e Primeiro-Ministro são visíveis.

    Francisco Assis e os 10 indivíduos que se reuniram num jantar para criticar a liderança de António Costa, não são o perigo, Carlos. Não são eles que vão deitar ao poço o governo da geringonça.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Desculpe lá Teresa, mas tenho de a esclarecer do seguinte:
      - O Assis não estava no jantar dos 11. Esses pertencem a outro grupo. Que também não é o do jantar falhado de leitões na Mealhada
      - Não se pode falar de primeiros sinais de desacordo entre AC e MRS.
      Para mim foi sempre evidente ( e escrevi-o aqui mais do que uma vez, tendo sido criticado por alguns leitores) que MRS e AC apenas simpatizam em termos pessoais. Politicamente estão distantes, mas PPC conseguiu aproximá-los.
      Os primeiros sinais a que a Teresa se refere são os que a imprensa, sedenta de encontrar desavenças entre MRS e AC, inventa, simula e empola para vender mais jornais. E ainda bem que não há consonância total entre MRS e AC. Para isso chegou o tempo de Cavaco e Coelho.

      Eliminar
    2. Desculpe, Carlos, eu não resistir de deixar aqui a minha "mostarda", embora esteja absolutamente afastada dos acontecimentos políticos em Portugal desde a morte de uma familiar em Março deste ano.
      Ela era uma grande admiradora do António Costa, mas que aceitava, sem gritar, a minha antipatia por ele.

      Carlos, não leio os jornais portugueses. O que escrevi é a minha opinião pessoal.

      "Quase" compreendi que o Francisco de Assis não estava no jantar dos 11 e que esses onze pertencem a um outro grupo.

      Claro que o MRS e o AC simpatizam em termos pessoais, o António foi aluno do Marcelo, no entanto, não confio no vosso Presidente.

      Uma pergunta ainda: Existe em Portugal a extrema direita? Nunca pensei nisso.

      Beijinho da amiga tuga.

      Eliminar
    3. OK Teresa. Só estava a esclarecer que o Assis não pertence aos 11. bastante mais nível. é mais sagaz e, acima de tudo, mais honesto, porque tem convicções

      Eliminar
    4. Esqueci-me de responder à sua pergunta, Teresa. Há duas extremas direitas em Portuga. A que se esconde em partidos, especialmente no CDS e PSD e aquela mais militante e doutrinada que não tem expressão política. Por enquanto...

      Eliminar
  2. Enquanto Francisco Assis mantiver o seu estado de irritação, não consegue perceber o que quer que seja.
    Além de ser teimoso, o homem tem momentos em que a sua diferença para um burro é quase nula.

    ResponderEliminar