quinta-feira, 5 de maio de 2016

Será um negócio da China?


O post anterior fez-me  recordar este outro, escrito no CR em 2008, após uma romagem de saudade à China, para recordar tempos em que fui muito feliz. A cena passou-se em Cantão, não sei se as adopções ainda se processam assim, mas estou certo que o Pedro Coimbra nos dará informações actualizadas sobre este tema.


Na China há 100 milhões de filhos únicos, devido ao controlo de nascimentos imposto pelo governo desde final dos anos 70, que sanciona os casais com mais de um filho com multas pesadas. A excepção são os gémeos.
Apesar de algumas medidas de controlo serem próprias de barbárie, não cabe aqui tecer críticas à medida adoptada nos anos 70, mas peço aos leitores um momento de reflexão e pensem como seria o planeta sem o controlo de natalidade na China.
A redução da natalidade – agora aceite por muitos casais jovens- trará a breve prazo outro tipo de problemas, como o envelhecimento da população e a desproporção entre os dois sexos. É que é muito comum os pais que têm uma filha darem-na para adopção ( já no tempo em que vivi em Macau ouvia dizer, mas nunca pude confirmar, que muitos matam o primeiro bebé se for menina) a famílias estrangeiras. Dentro de alguns anos, haverá milhões de chineses condenados ao celibato, por não terem mulheres chinesas com quem casar
A política do filho único também fez aumentar o individualismo e o egoísmo, criando uma geração cheia de problemas. Tudo isto está a contribuir para um certo abrandamento na aplicação da lei, mas é ainda cedo para se poderem tirar conclusões.
Cantão é um entreposto chinês para adopção de crianças.
Aumenta de forma acelerada o número de casais europeus , americanos e australianos que aí vão , com o intuito de adoptar crianças chinesas. O processo de adopção é bastante fácil - existem muitas bébés à espera de serem adoptadas- mas obriga a que um casal permaneça um mínimo de duas semanas na cidade. É por isso frequente ver dezenas de casais passeando com bebés chinesas ao colo ou dentro de carrinhos. Os centros comerciais são um dos locais privilegiados por estes casais para passar o tempo. Foi num desses locais que ouvi esta conversa entre duas portuguesas carregadas de sacos e frenéticas na azáfama das compras:
- São tão giros estas bebés chinoquinhas, que parecem mesmo um brinquedo.... Se fosse mais nova ainda convencia o meu marido a levar uma!
-
Cala-te lá, filha! E depois quando ela crescesse? Não a podias abandonar na rua como fazes com os cães...




PS: Para quem duvidar, afianço que há testemunhas desta conversa

5 comentários:

  1. «Dentro de alguns anos, haverá milhões de chineses condenados ao celibato, por não terem mulheres chinesas com quem casar»

    Casar não... todavia, poderão vir a ter filhos... mais, a promoção da MONOPARENTALIDADE - sem beliscar a parentalidade tradicional (e vice versa) - é evolução natural das sociedades tradicionalmente monogâmicas.

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  2. Talvez pior seja os homens estarem a viver como se fossem um casal, quando são apenas dois homens. Outros com taras e depressões tentam arranjar animais para se distraírem e fazer transbordar o pouco de sentimentos que ainda têm em si. Ninguém pensa no futuro por isso é eu o mundo caminha para o abismo. Na China tinham muitos filhos que era para terem mão-de-obra e estrume para adubar os arrozais, que eram a base da sua alimentação. E quando entrou a "civilização" passaram todos a usar óculos, por problemas de visão, e muitos outros problemas
    devidos à falta de vitamina B1 (tiamina). Não é alucinação minha quem o escreveu e estudou e muito sabia, em várias áreas, foi o grande professor e sociólogo - Josué de Castro - em dois dos seus principais livros, que eu consegui arranjar a muito custo: " A Geopolítica da Fome" e a "A Geografia da Fome". https://pt.wikipedia.org/wiki/Josu%C3%A9_de_Castro

    Essa afirmação que o Carlos fez sobre as filhas também já a ouvi dizer muitas vezes. Mas, pior do que isso é que já vi reportagens sobre o assunto, e filmagens (com câmaras ocultas, é evidente) de onde vivem as meninas abandonadas presas em grades de ferro e sem terem sequer um colchão para dormir, mas estão lá até que as resistências acabem.

    Quanto à conversas das tias, não é preciso testemunhas, porque eu já ouvi bem pior do que isso.

    P.S.- Já agora um aviso às solteironas deste país. Se quiserem arranjar um homem, há montes de chineses à espera.

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    1. Acerca do aviso às solteironas:
      Anphy, a China é muito longe; a gente chega lá e não os entende. Além disso, dá para confundir uns com os outros.Agora fiquei a pensar que tenho preconceito contra a raça amarela.

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    2. Na net consegue encontrar. muitos falam inglês. Além disso a linguagem gestual é universal. Não precisam de ir à China porque vinham de lá com uma DPOC.

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  3. Já não se vê tanto esse fenómeno, Carlos.
    Mas ainda existe.
    Em Macau, com a partida de muitos casais portugueses, esse exotismo de adoptar uma criança chinesa já pouco ou nada visível.
    Há o reverso da medalha.
    Os casais inférteis, e estou a recordar dois, que adoptam crianças chinesas e que constituem famílias muito felizes.

    A própria política de filho único, com os resultados desastrosos que provocou, está a ser lentamente alterada.
    Mas vai levar muito tempo a corrigir as borradas que se fizeram ao longo de tantos anos.

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