quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Buzinão ( Balada sobre um falhanço)




Quando soube que ontem iria haver um "Buzinão" contra as obras de melhoramento do Eixo Central de Lisboa ( Campo Grande/ Marquês de Pombal)  a minha reacção imediata foi perguntar  por que razão os lisboetas são contra obras que melhoram a qualidade de vida dos seus moradores e ficam indiferentes com obras que destroem o seu património cultural e histórico.
Porque não protestaram, por exemplo, contra a transformação do Saldanha num inferno com paredes de vidro, no tempo do Abacaxi?
Será por  preguiça? Será por burrice?
Preguiça não é certamente,  e a burrice não ataca assim!
É talvez desinteresse cultural.
Mas há pouco, há poucochinho, os lisboetas manifestavam a sua indignação com o encerramento de cinemas, a possibilidade de a Mexicana fechar originava uma petição para elevar a pastelaria a património cultural da cidade e até os frequentadores do Jamaica e do Tokyo (promovidos de casas de putas a discotecas) aspiraram a um lugar no santuário icónico da cidade...
Mas quem protesta assim, buzinando, em esforçada sinfonia, em hora de ponta tardia?
Quem atrasa o regresso a casa, num protesto contra o progresso?
Não é cultura, nem  cidadania e a consciência ambiental não se manifesta assim.
Fui ver.
Era a cretinice. Saloia, mas encadernada em  uniforme urbano. Olho-os a partir da Praça e   meu Deus que aflição! Terei perdido a audição? Passam carros em abundância, mas buzinas só as oiço à distância.
Olho melhor quem passa e vejo através da vidraça,  que quem buzina se escapa rumo ao túnel do Marquês, entre motos e câmaras de Têvês.
Mas afinal quem buzina nem sequer vive em Lisboa! É gente que vai e vem, diariamente, enchendo a cidade durante o dia e deixando-a à noite vazia!
Entra em mim a indignação. Porque protestam as gentes  que nem da cidade são?
Passa também gente sofrida que ignora o buzinão e  ciclistas urbanos que sofrem com tanta poluição.
Esta é  gente de Lisboa, mas afinal não protesta.
Explique-me então, quem souber, tamanha contradição.
Se as obras são para o lisboeta, porque protesta o povão?
Querem que vos confesse uma coisa, do fundo do coração?
Estou farto de labregos que chegaram a Lisboa  de carroça, espalhando bosta pelas ruas.
Foram  viver para fora de portas e, como vingança, vêm cá todos os dias  poluir a cidade montados em máquinas cada vez mais potentes. Para eles, o verde só serve para pasto das vacas que deixaram na terrinha, que visitam ao fim de semana.
Para eles, Lisboa são blocos de cimento, centros comerciais envidraçados e tipo" amaricano", muitas pizzarias, hamburguerias e outras porcarias como bares de gin manias.
Olho para os ciclistas. Joelhos esfolados, calções acolchoados, pezinhos bem doridos,  abençoam as obras e ao Medina se mostram agradecidos.
Foram eles os protagonistas do falhado buzinão. À falta de buzinadelas, foram eles a dar entrevistas à televisão. Com duas pedaladas se esfumou a onda de contestação.
Os lisboetas  e aqueles que cá vivem agradecem. As obras do Eixo Central são uma mais valia para a cidade. Quem faz do carro extensão do corpo é que não gosta de ouvir esta verdade.
Penso  nisto e uma alegria me invade. Fracassou o buzinão, quem ganhou foi a cidade.

8 comentários:

  1. Espero que desta vez não apague o meu comentário. Sou moradora na zona de Picoas. Andamos há mais de 7 anos consecutivos a solicitar à CML o arranjo das ruas secundárias. Onde moramos. Onde habitamos. Onde nos conhecemos. Onde por acaso a CML não quer sabe de nós. Ou mesmo a junta de freguesia de Arroios, que faz ouvidos moucos aos nossos pedidos. Há mais de 7 anos que solicitamos alcatrão como deve ser nas ruas paralelas à Fontes Pereira de Melo. Mas parece que ninguém importante mora por ali.
    As obras fazem falta, sim senhor. E as ruas onde os moradores indicam há mais de 7 anos que as mesmas precisam de arranjo? Ouvidos moucos da CML e junta de freguesia. Não fazem parte da promessa eleitoral. Ou aguardemos que a construção dos prédios para gente com muito dinheiro, seja um incentivo para alcatroarem aqueles arruamentos.
    M. Lopes

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    1. Aqui não se apagam comentários, excepto se forem ordinários ou mal educados. Como não é o caso, embora discorde do que escreve, ele aqui está submetido à opinião dos leitores. Entendidos?

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  2. Totalmente de acordo. Não há, no texto, uma vírgula que me faça hesitar.
    Ao que parece, há lisboetas - ou moradores em Lisboa - que não compreendem o óbvio. Problema deles.

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    1. Exactamente. Problema deles.Com o tempo hão-de habituar-se, Obserrvador

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  3. E quem assim escreve está cheiíssimo de razão! Parabéns!

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