quarta-feira, 4 de maio de 2016

Esplanadas

Quando, ainda miúdo, comecei a viajar com os meus pais para Espanha, uma das coisas que mais me agradava e contava repetidamente aos meus colegas e amigos eram as noites na esplanada a comer um gelado ou beber uma coca-cola.
Desde miúdo habituado às noites frias de Miramar que exigiam sempre um agasalho a lembrar o Inverno, acreditava que Espanha era um país tão privilegiado pelo clima, que os espanhóis até se podiam dar ao luxo de ir à esplanada à noite.
Já adolescente, viajando pelo norte da Europa, percebi que também em países frios e com clima bem mais agreste do que o nosso, havia esplanadas onde as pessoas gostavam de se reunir ao final da tarde e pela noite dentro.
Foi então que me comecei a interrogar sobre a razão de um país com um clima ameno e convidativo para noites ao ar livre, especialmente nas noites de Verão, mas também em muitos períodos da Primavera e Outono ter tão poucas esplanadas em funcionamento durante todo o ano ( a excepção era o Algarve, mas mesmo aí as esplanadas começaram a multiplicar-se em função da procura turística).
Nos últimos anos, Portugal conheceu uma explosão de esplanadas a tempo inteiro.  Vieram animar as noites ao ar livre de cidades muito procuradas pelo turismo, como Lisboa e Porto, mas também de cidades do interior com turismo escasso, como Castelo Branco,  Viseu, Guimarães ou Braga , ao longo de todo o ano
Creio que o aumento exponencial do número de esplanadas não se ficou a dever às alterações climáticas, nem a exigências do turismo. Foi,  essencialmente, a Lei anti-tabágica que "obrigou" os empresários da restauração a criar espaços onde os clientes possam fumar e refeiçoar sem problemas.
Primeiro timidamente, depois - à medida que a crise se acentuava e obrigava a puxar pela imaginação- com o crescimento do turismo, os empresários da restauração perceberam, ainda que tardiamente, que as esplanadas eram um investimento lucrativo.
Um pouco por todo o país,as esplanadas multiplicaram-se como cogumelos e hoje em dia, não há café nem boteco, nos locais mais recônditos de Lisboa, que não tenha uma pequena esplanada.  
As cidades ganharam mais vida, as ruas animaram-se e os espaços interiores ficaram mais respiráveis.
Como tudo na vida, há aspectos positivos e negativos nesta explosão das esplanadas. Especialmente em algumas zonas das cidades de Lisboa e Porto, onde  as "movidas" nocturnas se tornaram um incómodo para os moradores, muito por força do "botellon" importado de Espanha, começaram a surgir  reclamações. Primeiro motivadas pelo excesso do ruído, depois pelos desacatos, consequência de excessos etílicos, não raras vezes activados por outras substâncias.
A exemplo do que aconteceu já em Paris e em várias cidades espanholas, cujas autarquias se viram obrigadas a tomar medidas que conciliem a liberdade de as pessoas se divertirem com o direito ao descanso, Porto e Lisboa vêm desde há algum tempo a enfrentar idênticos problemas.
Já em 2011- muito antes de se presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira reclamava regras para a "movida do Porto" e, em Lisboa, António Costa tomava medidas para tentar minimizar os efeitos do ruído em zonas como o Bairro Alto e Santos.
É imperioso respeitar o direito dos moradores ao descanso, pelo que concordo com  a obrigatoriedade de encerrar estabelecimentos de diversão mais cedo, para evitar as cenas degradantes  oferecidas por adolescentes bêbados e agressivos, a quem trabalha e se levanta cedo.
Não me parece  desajustado, por isso, que a câmara de Lisboa obrigue as esplanadas a fechar   mais cedo mas, obrigar o encerramento generalizado  às 24 horas, parece-me manifestamente exagerado.
Em algumas zonas da cidade essa medida é injustificável e vai prejudicar o negócio da restauração.
O mesmo se diga, já agora, quanto às "Lojas de Conveniência" obrigadas a encerrar às 22 horas. Não me parece que isso resolva o problema do " excesso de ruído nocturno". Apenas obrigará muitos jovens a adquirir as bebidas mais cedo.

2 comentários:

  1. E se calhar ficam a beber nas ruas deixando copos e garrafas espalhados nos vãos de escada e parapeitos de janelas...
    Passear de manhã bem cedo pelo centro de Cascais é o cenário que encontro aos Domingos de manhã!
    Bjs

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  2. Algo que aqui em Macau assusta a Administração.
    Esplanadas?
    Que disparate, está muito calor! :(

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