domingo, 7 de fevereiro de 2016

Bibó Porto (62): Amadeo Souza Cardoso passou por aqui




No número 145 da Rua de Santa Catarina, mesmo ao lado do Grande Hotel do Porto que por aqui passou no último domingo, abriu em 1883 a Camisaria Confiança. Este modesto estabelecimento viria a tornar-se um requintado ponto de encontro dos portuenses e um nome indissociável da história da cidade..  
Nos anos 60 do século passado era vulgar marcar encontro à porta da "Confiança" , ponto de partida para um périplo pela Baixa da cidade do Porto. À época, já  a  "Confiança" era um nome intimamente ligado à história da cidade. Mas não nos adiantemos...
Quando abriu a Camisaria Confiança, o industrial António Cunha e Silva não pretendia apenas vender camisas. Conhecedor do ramo, era seu objectivo criar uma indústria capaz de abastecer o mercado nacional e estrangeiro, especialmente o Brasil, mas também com um olho nas "colónias".
Foi assim que, adquirindo terrenos anexos ( entre os quais o edifício do Teatro Santa Catarina) o empresário  ampliou as instalações e abriu, em 1894, a Fábrica Confiança.  Equipada com mais de uma centena de máquinas, a Fábrica dava emprego a mais de mil mulheres.
A sua dimensão e o movimento por ela gerado, despertou a atenção de Aurélio Paz dos Reis. Em 1896, este comerciante  realizou e produziu o primeiro filme português. Intitulado " A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança", este pequeno documentário de apenas 1minuto   ( veja aqui) era uma réplica do filme dos irmãos Lumière e viria a ser exibido pela primeira vez  no dia 12 de Novembro  de 1896 no Teatro do Príncipe Real, actualmente denominado Teatro Sá da Bandeira.
No início do século XX a Camisaria e Fábrica Confiança já tinham cimentado o seu nome a nível internacional e, em 1907, abriu uma sucursal em Lisboa, na esquina da Rua Augusta com a Rua da Betesga.  Foi também no início do século ( 1903) que trabalhou na Camisaria Confiança durante algum tempo, como caixeiro, um amarantino que viria a tornar-se num dos mais famosos pintores portugueses: Amadeo de Souza Cardoso.
Foi ainda nas instalações da Fábrica Confiança que funcionou durante muitos anos o Teatro Experimental do Porto.
A Camisaria Confiança foi acompanhando a evolução dos tempos e, nos anos 60, era um estabelecimento multifacetado, onde as noivas compravam o enxoval  e, posteriormente, as roupas para os filhos porque na "Confiança", de roupa branca se vestiam desde os avós até aos bebés.
Era, então, ponto de encontro obrigatório, conhecido como o "El Corte Inglês" tripeiro. Além das secções do espaço comercial,  despontava no primeiro andar um salão de chá de grande qualidade que se tornou moda e rivalizou com  conceituadas casas de chá  da baixa como a Arcádia, Ateneia, Costa Moreira ou Confeitaria do Bolhão.
Não assisti ao desaparecimento da Camisaria Confiança nem consegui, nas minhas pesquisas, determinar a data exacta do seu encerramento. De momento, também não sei que estabelecimento está ali instalado. Se alguém me puder ajudar nestas tarefas, agradeço.

15 comentários:

  1. Lembro-me bem da "Confiança" e de lá ter feito muitas compras de vestuário e, ultimamente, tecidos a metro também.
    Quantas vezes lá entrava só para ver em que 'paravam as modas' e não comprava nada. Tive imensa pena de ver essa Casa fechar.

    Após largo tempo encerrada, abriram, aí, as Galerias da Benetton.

    Mas, já não era - nem nunca mais foi - a mesma coisa...:(

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    1. Encontrei este site onde o Carlos pode obter informações preciosas, acerca do «Porto Antigo», mas não encontrei, nem me recordo, da data em que a "Confiança" encerrou ao público.

      http://www.portoantigo.org/search?updated-max=2008-07-23T09:04:00%2B01:00&max-results=15&start=45&by-date=false

      .

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    2. Obrigado, Janita. Eu conheço o blog e fui consultá-lo para ver se tinha a resposta mas, nesta matéria, não me ajudou. Um excelente blog de qualquer modo. Como o Restos de Colecção, mais abrangente e muito, muito interessante.

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    3. A propósito de blogues excelentes, Carlos, tenho visitado o blogue da Helena Araǘjo, 2 Dedos de Conversa, e numa das suas últimas postas ela pergunta e muito bem:

      Como não gostar deste país?

      Refere-se à minha querida ALEMANHA!!!

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  2. Talvez este ano volte a visitar o Porto... :)

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  3. Lembro-me muito bem desta casa , cujo último dono era amigo de meu pai .Como estudei 2 anos no Porto , 62 /64 , quando o meu pai ia até à civilização , lembro-me do dito senhor dizer " quando passo o Marão , entro na zona da porcaria "...Faz favor de ver , até parecia que era tudo igual e ele lá sabia de onde tinha saído....Nunca foi da minha simpatia , era vaidoso , mas a casa tinha artigos muito bons.
    M.A.A.

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  4. EXCELENTE CRÓNICA.

    Não me lembro da "Confiança", mas eu nunca gostei de ir às compras.

    Lembro-me sim, do Teatro Experimental do Porto, mas com instalações num outro sítio.

    PORTO, HELAU!

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    1. Tenho que voltar aqui, Carlos, porque umas das grandes surpresas ao ler esta crónica, foi que um dos meus mais amados pintores portugueses: Amadeo de Souza Cardoso, tenha trabalhado na Camisaria Confiança durante algum tempo, como caixeiro.

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  5. Nós éramos tão famosos nos tecidos e nas confecções. Tudo perdemos. Ainda há pouco tempo ao dar umas voltas aqui nas minhas recordações ainda encontrei por abrir vários lenços de algibeira da marca Poker, e em cada embalagem vinha uma carta. Lembram-se?...

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  6. ~~~
    ~ Muito interessante, Carlos.

    ~ Semelhante desaparecimento

    tiveram os armazéns do Chiado e Grandella,

    agora, espaços completamente desvirtuados.

    ~~~ Abraço amigo. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. É verdade, Majo, mas os armazéns do Chiado desapareceram de forma trágica e nunca passaram por uma transformação tão profunda como a "Confiança".
      Abraço

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  7. História, cultura, vida.
    Que grande texto!
    Boa semana.

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  8. Muito curiosa a tua informação sobre o primeiro trabalho de Amadeo Souza-Cardoso! Para além de uma interessante "viagem" pela história da cidade do Porto, vem a propósito a informação, pois acabei de ver no CAM a exposição Ciclo Delaunay, onde estão expostos vários trabalhos de Amadeo, de quem eu tanto gosto!

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