segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tapar o sol com uma peneira?

A COP 21 que hoje se iniciou em Paris, é anunciada como a cimeira da viragem, porque esta é a última oportunidade para salvar o planeta. 
Já ando nisto há 40 anos, já participei em muitas cimeiras como jornalista e activista e estou cansado de ver e ouvir os dirigentes mundiais criarem expectativas que depois não se confirmam. Desde a Cimeira do Rio 92, as expectativas têm aumentado na razão directa das desilusões.  Temo que isso volte a acontecer na cimeira de Paris e o comunicado final nos anuncie falsos acordos, tão ténues como os anteriores, mas dourados com uma mensagem de esperança, para calar a opinião pública, cada vez mais esclarecida e exigente.
O que a partir de hoje e até dia 12 de Dezembro se vai discutir em Paris, não é muito diferente do que se vem debatendo nos últimos 20 anos. A diferença é que há cada vez menos tempo para encontrar soluções que impeçam que até final do século a temperatura suba mais de 2ºC.  
Já escrevi centenas de artigos em jornais generalistas e imprensa especializada e  muitas dezenas de posts neste blog ( ver etiquetas: Ambiente, Brites, o mocho sabichão et alliae), onde equaciono o que está em jogo no tabuleiro do clima. Não vou, por isso, maçar-vos, repetindo-me. Limito-me a explicar as razões do meu cepticismo.
O lema "Pensar globalmente, agir localmente" que marcou os anos seguintes à Cimeira do Rio 1992 necessita de ser reformulado. Hoje em dia, pensamento e acção têm de ser conjugados à escala global, embora sem perder de vista as especificidades locais. Mais de duas décadas depois do Rio de Janeiro, é impossível imaginar soluções que não sejam concertadas entre os grandes poluidores ( os países mais ricos) e os países mais pobres, as principais vítimas das alterações climáticas, como se infere se lembrarmos onde se registaram as piores catástrofes naturais e suas consequências.
Para alterar o panorama negro que se vislumbra num horizonte temporal de apenas duas ou três décadas, é preciso alterar as regras do mercado de carbono, mas também o modelo de desenvolvimento, assente em modelos económicos sustentáveis, onde os combustíveis fósseis sejam substituídos por energias limpas. Para isso é preciso criar, a nível global,  um fundo verde para apoio a economias emergentes que têm alicerçado o seu desenvolvimento na utilização de energias fósseis. Para que se faça uma ideia dos montantes envolvidos na criação desse fundo, direi que apenas a Índia reclama mais de 2 mil milhões de euros para adaptar o seu modelo de produção a energias limpas.
Não menos difícil será implantar, à escala global, um modelo de consumo sustentável, assente no combate ao desperdício e na penalização de hábitos de consumo poluentes. 
As sociedades hodiernas- seja em países ricos ou pobres-  assentam há décadas nos pilares da sociedade de consumo e não será fácil alterar este modelo civilizacional assente no desperdício e na ideia de que os recursos ( naturais) são ilimitados.
As desigualdades criadas pelos modelos de economia liberais acentuaram o fosso entre  os países e não será fácil exigir aos mais pobres que abdiquem do seu modelo de desenvolvimento e imponham aos seus povos limites às suas aspirações.
Se nos lembrarmos que vivemos numa época em que o mundo ocidental está constantemente em busca de novas tecnologias existem, em contraponto,  quase dois biliões de pessoas que não têm acesso às velhas tenologias ( electricidade, água e saneamento básico) percebe-se melhor a razão do meu cepticismo. Pensar que os problemas climáticos se resolvem atirando dinheiro para cima dos problemas, é um erro crasso. Fingir que tudo se pode resolver sem um choque civilizacional e sem grandes cedências dos países mais ricos e mais desenvolvidos aos países mais pobres e em processo de desenvolvimento, será meio caminho para a catástrofe.