quinta-feira, 11 de junho de 2015

Vale uma aposta?

A prisão de Sócrates coincidiu com a realização do congresso do PS. A proposta de prisão domicliária com anilha coincidiu com a convenção. Como não há duas sem três, aposto que a terceira coincidência irá ocorrer quando for formulada a acusação. Será em plena campanha eleitoral. Pouco interessa se as acusações têm fundamento ou não. O importante é que haja muito ruído à volta. 
Haverá sempre alguém a garantir que foi apenas mais uma coincidência, que o tempo da justiça não é o tempo da política, blá, blá, blá.
E haverá sempre alguns a acreditar.

Falemos então de mitos urbanos ( e de quem os alimenta)

Aqui, em terras rurais do Alto Douro  confinando com Trás os Montes, chegou-me a notícia, via FB, de que sua excelência o pm considera um mito urbano  o seu convite aos portugueses para emigrarem.
Eu não sei bem o que é um mito urbano mas, a avaliar pelo que li, todas as mentiras de Passos Coelho durante a campanha eleitoral de 2011 e as que proferiu ao longo dos últimos quatro anos devem ser passíveis de igual denominação.
Parece-me, porém, oportuno, acrescentar alguns outros exemplos de mitos urbanos
1- A honestidade de Passos Coelho
Um homem honesto  não se furta a pagar as prestações da segurança social, não ludibria o fisco, nem mente à AR, dizendo que  exercia funções de deputado em  regime de exclusividade.
2- A coragem  de Passos Coelho
Passos Coelho começou a pré-campanha eleitoral a negar que alguma vez tivesse convidado os portugueses a emigrar. E também já garantiu que nunca prometeu não cortar salários nem pensões, apesar de serem públicas essas suas promessas.
Um tipo corajoso assume as suas declarações. Aquele que as nega é apenas um cobarde
3- O rigor das contas de Passos Coelho
Se fosse rigoroso nas contas, sabia explicar a razão de ter de cortar 600 milhões de euros nas pensões e assumiria essa responsabilidade no programa de governo, em vez de omitir as soluções.
4- O rigor de Passos Coelho  na aplicação das verbas europeias
Como é que pode um homem que delapidou verbas do Fundo Social Europeu, em cursos para profissionais que não existiam pode ser rigoroso?

5- A Passos Coelho  e a moralização  da  AP
Dois em cada três dirigentes da AP nomeados por este governo pertencem ao PSD e ao CDS

No entanto, estes mitos urbanos sobre Passos Coelho têm sido alimentados ao longo dos anos  quer por bloggers  afectos  ao coelhismo, quer por comentadores do PSD/CDS  com presença diária nos três canais informativos, quer  ainda por uma imprensa ansiosa em receber a devida recompensa por não confrontar  o pm com as suas mentiras e, em alguns casos, até por as alimentar para que se tornem verdade junto da opinião pública.

Dito isto, vou gozar as últimas horas neste espaço rural onde mito urbano significa falta de honra, de vergonha e de carácter.

Nunca pensei dizer isto

Portanto, estamos assim:
Ricardo Salgado pode ser extraditado para a Suíça, ainda antes de ser julgado em Portugal, onde nunca foi sequer detido, apesar das provas já evidentes de falcatruas.
José Sócrates está preso há seis meses, sem nunca lhe ter sido formulada acusação, enquanto um procurador se esforça por encontrar provas de indícios e os jornais vão recebendo informação de fontes judiciais sobre o processo, que o incriminam na praça pública.
Ainda  há em Portugal quem esteja à espera de provas que demonstrem a iniquidade de tratamento perante a justiça e o abuso de poder que representa a prisão de Sócrates? Talvez os gambuzinos...
Repito pela enésima vez:num país (ainda que pretensamente) democrático como o nosso, é inadmissível prender alguém enquanto se procuram provas para o acusar. Isso, qualquer aluno do primeiro ano de Direito sabe. 
Para que não restassem dúvidas, Rosário Teixeira e Carlos Alexandre fizeram questão de ser claros: a noção de justiça que os alimenta é a vingança e o medo de não conseguirem provar as acusações. 
Ler na Sábado novos elementos do processo, com transcrições dos interrogatórios ao pormenor, dois dias depois de Carlos Alexandre e  Rosário Teixeira terem sido obrigados a engolir a recusa de Sócrates em ir para casa com anilha, foi certamente uma coincidência.
Até por isso (nunca pensei dizer isto de um ex-pm que sempre critiquei pela sua arrogância) a decisão de Sócrates em optar por permanecer na prisão,deixa claras as motivações de quem o prendeu há seis meses sem ter quaisquer provas.
As declarações do desembargador Rui Rangel  e de Paulo Sá Cunha ( que não me consta terem sido alguma vez apoiantes de Sócrates) sobre a decisão de manter Sócrates em prisão preventiva são bem elucidativas. Procurador e juiz estão a denegrir a justiça. 
Talvez o medo de virem a ser ridicularizados os tenha levado a agir assim, mas a vingança não pode ser, nunca, um meio de exercer justiça.
Sócrates até pode vir a ser julgado e condenado mas, para qualquer democrata, Rosário Teixeira e Carlos Alexandre ficarão sempre sob suspeita de terem agido de má fé e desrespeitado a decisão do Tribunal da Relação, que considerou não haver perigo de fuga.

Parece que é bruxo!

Cavaco disse em Lamego que há razões para os portugueses confiarem no futuro. Concordo em absoluto. Só de pensar que nos vamos ver livres dele dentro de poucos meses, é razão para respirar de alívio!
Mas se o homem é bruxo e soube interpretar o sentir de uma grande parte dos portugueses, não tinha necessidade de plagiar o discurso de Tomás em 1971!