sexta-feira, 15 de maio de 2015

Um hino à hipocrisia

Desde que Passos  Coelho aceitou usar a doença da mulher como trunfo eleitoral, pensei que não seria possível um homem descer a um nível mais baixo e mais reles. Mas Passos não pára de me surpreender. 
A entrevista  ao Sol é um hino à hipocrisia. Começa por dizer que o passado não se pode apagar, mas da sua biografia não consta nada sobre o seu passado.  Não me refiro à sua vida pessoal , mas sim à sua vida pública. Que envolve Tecnoformas,  declarações falsas à AR, irregularidades fiscais, “esquecimentos”  no cumprimento de obrigações com a Segurança Social, promessas eleitorais não cumpridas e uma parafernália de situações no mínimo escabrosas e pouco claras.
Tudo isso parece ter sido esquecido. Quer na entrevista, quer   na biografia da jornalista, assessora do PSD ( cujo nome me recuso a pronunciar), que fez o trabalhinho  sujo de limpar episódios que mancham a vida do primeiro ministro. Biografia que Passos diz não ter lido, mas curiosamente comenta durante a entrevista. Para dizer o quê? Que tudo o que lá está escrito é verdade! 
Um momento patético , mas também a prova de que o jornalismo engagé cresce como  erva daninha no seio das redacções de alguns pasquins que se comportam como o detergente que lava mais branco.

A sondagem do Expresso



Sempre desconfiei de sondagens e, por isso, raras vezes as comento. Apenas quando há alguns factos relevantes, como é o caso da sondagem hoje publicada pelo Expresso.
Se bem me lembro, esta é a que revela maior distância entre o PS e os partidos da coligação mas  reitero a minha convicção de que haverá muitas surpresas em Outubro, nomeadamente na votação  nos pequenos partidos,  por isso, não me merece grande crédito.
Verdadeiramente relevante, nesta sondagem, é  constatar que a popularidade de Paulo Portas aumentou. Como é que um tipo constantemente humilhado, que se põe de cócoras perante quem o humilha, quase  suplicando  para ser mais vergastado, consegue aumentar a sua popularidade? Será a compaixão do tuga em relação aos fracos que justifica o resultado?
Nada surpreendente é o aumento da popularidade - apesar de tudo muito negativa- de Passos Coelho. Ele é o videirinho típico  que reúne num só corpo todas as características do tuga.
Tal como aconteceu em Itália com Berlusconni, os tugas revêem-se no espírito empreendedor do vendedor de banha da cobra que Passos Coelho incarna. O merceeiro rasca que recebe os clientes cheio de mesuras e sorrisos, mas o engana despudoradamente no momento de pesar o fiambre.  
Muitos tugas gostariam de o imitar. Outros tantos são réplicas perfeitas do chefe. 

As razões de um silêncio


Lamento muito dizê-lo,  mas  não foram  as cenas de violência  na escola da Figueira da Foz que mais me chocaram.
Vivo junto de três escolas. Duas são públicas e uma privada. Tenho vistas privilegiadas para os recreios e o que lá vejo, às vezes,  são  cenas de pugilato. Muito mais soft do que as do vídeo, mas que não diferem muito de outras cenas do meu tempo de estudante.  O que as distingue substancialmente das do meu tempo é o comportamento da assistência.  Ao contrário do que acontecia nos idos de 50 e 60, ninguém tenta separar os envolvidos na contenda, quando  esta resvala para a violência. Agora, o  comportamento comum é assistir, tomar partido por um dos lutadores e  incitar à destruição do adversário. 
É certo que  a violência gratuita exibida no vídeo é chocante e ver um miúdo ser agredido por um grupo de miúdas, sem esboçar qualquer reacção revolta mas, quando vi o vídeo, lembrei-me de imediato desta cena que, além de ser de extrema violência, denota a degradação a que chegou a escola. 
Daqui a umas semanas já ninguém falará no vídeo, como ninguém fala do que aconteceu naquela escola da Amadora, em que uma professora foi barbaramente agredida e insultada por uma aluna.  Hoje, quem quer saber o que aconteceu à professora, ou se importa com as sequelas que ainda hoje sentirá? Como também ninguém fala do caso Carolina Michaelis, em 2008, nem  da miúda  agredida por outras duas  numa outra escola.
A violência nas escolas tornou-se  banal, mas ninguém faz nada para a combater. Não me espantarei, por isso, quando um miúdo for esmurrado até à morte no recreio de uma escola, perante a passividade  dos alunos. O miúdo de 14 anos   esmurrado  até à morte por outro de 17, em Salvaterra de Magos, é apenas mais um episódio que em breve será encerrado no sótão da nossa indignação. É mais um degrau na escalada da delinquência juvenil  que o efeito do tempo apagará. Até que haja uma cena “à americana”, protagonizada por um puto inspirado pelo massacre de Columbia, não prevejo que alguém se preocupe em tomar medidas sérias que ponham um travão nesta escalada. O gajo que está à frente do ministério da educação é um imbecil apenas preocupado com modelos pedagógicos anacrónicos e a sustentabilidade económica. As escolas estão à míngua de recursos financeiros e humanos,  porque este ministro não percebe a importância do pessoal auxiliar na estabilidade da vida das escolas. Admite-se a imbecilidade de um ministro. Não se admite é que se comporte como um criminoso. Diga-se, em abono da verdade, que as culpas não têm cor partidária. Já em 2008, o caso Carolina Michaelis agitou muita gente e as reacções do governo de então- que na altura critiquei duramente.- não diferiram muito das do actual,
Dito isto,  regresso ao ponto de partida deste post. O que mais me chocou no vídeo da Figueira da Foz não foi a violência gratuita. Foi saber que o vídeo tem um ano e que a cena  foi silenciada pela mãe da vítima. Isso, para mim, é que é verdadeiramente revoltante e revelador da podridão social a que chegamos. Mais do que saber as razões que levaram as garotas àquela cena de violência, queria perceber os motivos que levaram a mãe do miúdo a obrigá-lo ao silêncio. Isso é que para mim é verdadeiramente importante porque, quanto ao resto, não espero nada mais do que a inércia de um ministro e de um governo, para quem as pessoas devem ser subjugadas aos ditames da economia de mercado.  
Ah, é verdade... já me esquecia de lembrara que o que se passou na Figueira da Foz não foi bullying. Mas sobre isso escreverei mais tarde...