terça-feira, 24 de março de 2015

Na hora do adeus


Herberto Helder (1930-2015)


A última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra [bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse [nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a
[habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

(in A Morte sem Mestre, ed. Porto Editora, 2014)

Em cada esquina um amigo?



Tocaram à campainha. Ainda meio sonolento,   Rodrigo  levantou-se da cama  e espreitou pela janela para ver quem era.  A cara pareceu-lhe familiar, mas não conseguiu identificar de imediato. Vestiu o roupão, desceu as escadas, abriu o postigo e perguntou “quem é?” 
- Sou eu , o Fontes. Já não te lembras de mim?
Mas que raio quer o Fontes a esta hora da manhã?- interrogou-se. Sem esperar pela resposta  abriu a porta e mandou-o entrar.
-Então que te traz por cá? 
-Eh pá, desculpa acordar-te, eu  sei que ainda é muito cedo para ti, mas tenho um negócio  bestial  para te propor.  Tens cinco minutos?
- Senta aí. Tomas um café?
- Não, pá, estou cheio de pressa. Olha, o que te tenho a propor é o seguinte. Tenho umas poupanças e vou aplicá-las num  investimento  que rende 10% ao ano.  Foi um amigo que me propôs e eu lembrei-me de te perguntar se querias alinhar.
Rodrigo  esfregou os olhos. Pensou uma fracção  de segundo
- Tens confiança nesse teu amigo?
- Confiança total. Conheço-o há mais de 40 anos, é um tipo honesto como já não se vê neste país. Podes confiar à vontade.
- Então entro com 10 mil euros
- Só?  Estás reformado,  com os cortes nas pensões ficaste com uma pensão de miséria, esta é uma oportunidade de recuperares o que o governo te anda a roubar.
- És capaz de ter razão. Olha então aplico no negócio do teu amigo 50 mil. Fico apenas com uns dinheiritos para as despesas correntes. Vivo bem com os juros .
- Pois, foi o que eu fiz.   Vou vivendo dos juros e a conta fica para os miúdos, coitados, que com a crise que por aí vai não sei como se vão safar quando terminarem os estudos. Então assina aí. Dá-me o NIB para autorizares a transferência da tua conta. 
- OK.   Se me dizes que o teu amigo é de confiança…
- Podes crer. O Ricardo é um tipo com nome na praça, tem uma empresa sólida como poucas e sempre cumpriu os seus compromissos.   Parece que até vai ser condecorado pelo PR, que também o tem em muito boa conta e o considera um empresário de sucesso. Não há que desconfiar. Bem, vou indo, porque tenho de entregar a papelada toda até ao final da manhã. Depois digo-te qualquer coisa.



Três meses depois...

Rodrigo acabou de jantar e está sentado  diante do televisor . Toca o telemóvel. É o Fontes.
- Olá Rodrigo! Tenho uma notícia chata para te dar. 
-…
- Estás-me a ouvir?
- Sim, diz lá…
- O teu dinheiro foi pelo cano. A empresa do meu amigo faliu. Estava cheio de dívidas e não aguentou. Ainda pediu ajuda ao governo, mas eles mandaram-no dar uma volta.
Por momentos, Rodrigo ficou sem fala.  Tentou recuperar a calma e finalmente disse:
- Isto na vai ficar assim.
Dias depois Rodrigo meteu um processo contra o Fontes e o amigo. No dia do julgamento, o juiz sentenciou:
- O senhor Rodrigo poderá recuperar 30 a 40 % do seu investimento, se o aplicar numa empresa do irmão do amigo do senhor Fontes, mas não poderá mexer no dinheiro, pelo menos durante um ano.

Substituam o Fontes pelo gestor de conta do BES ( um amigo para todas as ocasiões), o juiz por Carlos Costa e o Rodrigo por um investidor enganado e  têm  um  cenário possível para o que se está a passar  no caso BES.
Como é possível o governador do Banco de Portugal, entidade reguladora em quem é suposto os consumidores depositarem confiança na defesa dos seus direitos, fazer  esta proposta indecorosa a pessoas que foram enganadas  por um trafulha  que, ainda por cima, contou com o aval do PR?
Apesar de hoje Carlos Costa ter dito que "não havia nada para ninguém", não acredit. Estamos em ano de eleições e, mais cedo ou mais tarde, os lesados verão o dinheiro de volta. O mais próximo possível das eleições, para que os portugueses não tenham tempo de  se aperceberem que serão eles a  pagar as trafulhices do BES e a indemnizar aqueles que foram enganados com papel comercial, produto de risco que lhes foi "vendido" como investimento seguro.


Come e Cala

Ainda sou do tempo em que os  depósitos  à ordem nos bancos eram considerados um empréstimo  e,  por isso, o banco remunerava-os pagando juros. Baixos, é certo, mas cumpriam os mínimos de valorização do empréstimo.
Com o decorrer dos  anos esse pequeno juro passou a ser parcialmente comido pela cobrança de uma taxa de manutenção da conta.
Os governos pouco ou nada fizeram para garantir que as taxas  sobre os depósitos à ordem se mantivessem a um nível razoável. Pelo contrário, fecharam os olhos e  permitiram que  fossem crescendo de forma lenta.
Agora, perdida a vergonha e com o freio nos dentes, os bancos aumentaram desmesuradamente essas taxas ( nalguns casos os aumentos chegam a 200%) o que em muitos casos significa que o dinheiro depositado à ordem  deixou de ser considerado um empréstimo, para passar a ser visto  como um  serviço que os bancos prestam aos depositantes. 
Em termos práticos, os  depósitos à ordem  passam a ser extorquidos  aos depositantes, graças a taxas  e taxinhas. Apesar de serem verdadeiros roubos,  em nada preocupam  Pires de Lima. O ministro da economia  limita-se a manifestar  incómodo com a taxa de 1 € que António Costa quer cobrar aos turistas que cheguem a Lisboa, prática já seguida em muitas cidades do mundo e cuja justiça já aqui defendi. 
O governo está, pois, mais preocupado com os turistas do que com os portugueses e a sua reacção ao aumento das taxas sobre depósitos  reduziu-se a um mero encolher de ombros, sinónimo da expressão “ é o mercado a funcionar”.
Já fomos obrigados a pagar as vigarices de Oliveira e Costa no BPN  e os lucros das acções do dr. Cavaco. Vamos ser obrigados a pagar as vigarices de Ricardo Salgado no BES e, se algum outro banco falir, continuará a ser o tuga a receber a conta e a nota de encargos. Nem o governo reage, nem a justiça actua, apesar de as vigarices serem visíveis e confirmadas por auditorias independentes.  O tuga  "Come  e Cala". 
Um dia destes talvez acorde e dê uns coices mas, se esse dia chegar, será demasiado tarde. As  contas estarão no zero,  os cofres dos bancos vazios e banqueiros e os governantes responsáveis por este regabofe  estarão a gozar a reforma com o guito que avisadamente depositaram em off shores, a conselho dos banqueiros. Livre de impostos e a coberto de quaisquer  incómodos.

Post com dedicatória

Este post é especialmente dedicado àqueles idiotas que, sob anonimato, enchem as caixas de comentários a dizer que sou socrático.
Nunca aqui defendi a inocência de Sócrates. Insurgi-me, sim, contra a forma kafkiana como o processo tem decorrido desde a detenção do ex-primeiro ministro. Em causa está a liberdade de cada um de nós e o perigo de neste país o comportamento dos agentes da justiça não pode ser escrutinado.
Não quero viver num país onde os banqueiros não são presos, apesar de se acumularem provas dos seus crimes,  mas um ex-político pode ser preso para investigar eventuais crimes, porque um qualquer procurador ou juiz tem contas a ajustar ou não simpatiza com a cor política do visado.
O que este homem assumidamente de direita aqui escreve, em nada difere do que tenho aqui escrito. A justiça não está acima de qualquer suspeita e, por estes dias, as suspeitas de arbitrariedade são imensas. Ora leiam, s.f.f.