segunda-feira, 16 de março de 2015

Cavaco, o pescador




É conhecida a tendência que os pescadores têm para exagerar os feitos das suas pescarias. Pescam um robalito de 200 gramas e logo contam aos amigos que pescaram uma pescada de 10 quilos, que alimentou a família durante uma semana.
Esta manhã, em Paris, Cavaco foi assolado pela síndrome do pescador. Na reunião da OCDE, perante uma vasta plateia, não se coibiu de garantir que, em 2015, Portugal vai crescer 2%.
É certo que quase todas as instituições nacionais e internacionais têm revisto em alta as suas previsões, o que em ano eleitoral dá um jeito do caraças ao governo e desmobiliza quaisquer veleidades de Syrizas ou Podemos que pensassem "investir" em Portugal, para aumentar a pressão sobre a Europa. Mas apesar de ninguém arriscar um aumento superior a 1,5%, Cavaco elevou a fasquia e mostrou-se muito satisfeito com o facto de o crescimento ser fruto da baixa do preço do petróleo e do euro. Para ele, isto deve ser crescimento sustentado.
É bom não esquecer que ainda em 2014, depois de algumas instituições terem chegado a apontar um crescimento de 1,2%, no último trimestre a tendência foi para rever novamente em baixa, tendo o ano terminado com um crescimento de 0,9%.
Este ano, muito provavelmente, irá acontecer o mesmo, mas como as eleições se realizam em Outubro, é preciso criar condições para que a actual coligação consiga alcançar a maioria absoluta. Depois, se as previsões não se confirmarem, há sempre explicações escavacadas para justificarem o falhanço.
Cavaco empenha-se nessa aposta, porque tem um interesse particular em que isso aconteça. Não havendo maioria, terá entre mãos um imbróglio que ele próprio criou ao proteger o seu partido e afrontar sistematicamente o PS. 
Uma vitória dos socialistas deixá-lo-ia em muito maus lençóis e obrigá-lo-ia a engolir um governo com quem manifestamente não quer conviver nos últimos seis meses do seu mandato ou, pior ainda, a prolongar o mandato do actual governo por ser impossível formar uma maioria à esquerda. 
Manter em funções um governo rejeitado pela maioria dos portugueses, até ser substituído em Belém, parece próprio de um regime ditatorial, mas Cavaco está-se nas tintas para as críticas que possam advir de uma decisão contrária ao voto popular. Ele encontra sempre explicações na defesa do interesse nacional. Que ao longo dos 20 anos em que exerceu cargos políticos, confundiu sempre com os seus mesquinhos interesses pessoais.

Uma mulher de visão



Faz hoje 22 anos que morreu Natália Correia.  Um bom pretexto para recordar as previsões que ela fez sobre Portugal e a Europa e que vêm reproduzidas no livro “O Botequim da Liberdade”  de Fernando Dacosta, cuja leitura volto  a recomendar ( Ed Casa das Letras 2013)

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".
"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr (...) votos neste reaccionário centrão".
"Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"
"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, o Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres". 

Muito mais fácil do que acertar no Euromilhões

Era prever que o Habeas Corpus apresentado pela defesa de José Sócrates seria recusado.
Até porque no sábado, o sempre bem informado Marques Mendes já adiantara na SIC qual seria o resultado.

Canta Brasil

A contestação a Dilma tem pouco a ver com o caso Petrobrás e muito com a mal digerida derrota da direita que, com o apoio da comunicação social engajada,  está a aproveitar o caso para tentar recuperar os privilégios e reconstruir o Brasil feudal e esclavagista que durante décadas dominou com mão de ferro e num constante atropelo aos direitos humanos.
Mas o que se está a passar no Brasil- que em caso de eleições muito provavelmente votará à direita- é a demonstração daquilo que há muito sabemos. As pessoas quando vivem com dificuldades e não têm trabalho, votam à esquerda mas como todos sabemos e a História ensina, muitos dos que saem da miséria e arranjam emprego, pela mão de esquerda, acabam por se tornar convictamente de direita. 
Lula foi eleito com o apoio esmagador dos "pés descalço", dos brasileiros sem tecto, sem renda e sem esperança. Lançou uma série de programas de apoio às famílias e restituiu a esperança a muitos milhões de brasileiros. 
Dilma não conseguiu ser tão popular e eficaz no combate à pobreza quanto Lula, nem tem o apoio generalizado da comunicação social. Os ex-famintos e desempregados não lhe perdoam e entregam-se nas mãos da direita que os há-de reconduzir ao lugar de onde Lula os tirou.

Monstro ou louco?

Só uma pessoa com graves distúrbios mentais vai a uma creche anunciar a publicação de uma lista de abusadores de crianças. Passos Coelho foi.