quinta-feira, 12 de março de 2015

Um murro na mesa

A França   resolveu dar um murro na mesa: não vai cumprir as regras do Tratado de Estabilidade Orçamental, nomeadamente as metas do défice. Ninguém reagiu, nem falou em punições
Marilu e Passos esconderam-se debaixo da mesa?

O Paciente inglês

O governo está sempre a escusar-se na falta de dinheiro para não acudir a coisas essenciais, como obras nas escolas, por exemplo. 
A verdade, porém, é que o dinheiro aparece sempre que é  preciso encher os bolsos de empresas privadas. Mesmo que, para justificar a entrega desse dinheiro,  lhes entreguem tarefas supérfluas e até estúpidas.
Passa pela cabeça de algum tinhoso que professores doutorados e com mestrados concluídos tenham que ser sujeitos a um exame, realizado por uma empresa privada, para avaliar se eles têm capacidade de corrigir testes de alunos do 9º ano? 
E faz sentido que se interrompam as aulas para realizar esses exames?

Os brindes de António Costa

Assisti ao debate de ontem na AR. Muitos esperavam um debate aceso, com perguntas incisivas  da oposição sobre a questão que tem envolvido o incumprimento fiscal e contributivo de Passos Coelho. A ida de António Costa à AR para preparar o debate  aumentou as expectativas de que o PS iria aproveitar para levar Passos Coelho ao tapete.
No final, uma profunda decepção. 
Enquanto nas galerias alguns jovens  invectivavam o pm com gritos de  " Metes nojo",  apenas Catarina Martins e Heloísa Apolónio se esforçavam por manter  vivo o debate. Jerónimo de Sousa esteve sem chama   e Ferro Rodrigues fez uma intervenção quase patética.
Não se pode dizer que  Passos Coelho  tenha conseguido matar o assunto, porque a opinião pública não vai esquecer , mas a oposição - que se limitou a cumprir os serviços mínimos-  ficou muito mal na fotografia.
À noite, em entrevista à RTP,  António Costa acabou por explicar a "desistência" do PS.
Compreendo as razões invocadas e até estaria tentado a aplaudir, porque demonstram que pode haver uma postura ética em política, que rejeite o "vale tudo".  O problema é que Costa incorreu em três erros de avaliação:
- Para ter um comportamento elevado numa disputa eleitoral, é preciso que o adversário jogue com as mesmas regras. Ora nem Passo Coelho, nem Paulo Portas - e muito menos os seus compinchas- pautam o seu comportamento político por  princípios éticos e morais. Quando assim é, está-se mesmo a ver quem sai a perder.
- A mensagem de Costa pode induzir os portugueses a pensar que se o PS não reage é porque tem telhados de vidro. Ideia que aliás alguma comunicação social já está a fazer passar, com algum sucesso.
- O pacto de não agressão proposto pelo líder do PS também não tem em consideração que, para passar a mensagem é preciso jogar com as mesmas armas nos meios de comunicação social. Como é sabido, nas televisões generalistas só há comentadores afectos ao PSD, não podendo assim o PS fazer passar o seu discurso, a não ser pontualmente.
Os simpatizantes e militantes do PS que elegeram António Costa esperavam certamente mais acutilância mas, diga-se em abono da verdade, essa não é a maneira de estar do actual líder socialista. Ele quer - e acredita que pode- vencer os partidos do governo através das ideias apresentadas no seu programa de governo e com uma estratégia "pacifista" onde o ataque pessoal não entra. É louvável e é bonito. Duvido é que seja eficaz. 

Obama no quintal


Dias depois de ter proferido um discurso  em Selma, alertando os americanos que o racismo nos EUA ainda não acabou ( como se nós não soubéssemos),  Obama  aplicou sanções a sete pessoas ligadas ao regime de Maduro e incluiu a Venezuela  na lista dos países que constituem uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.
Entre as alegações  de Obama, justificando o congelamento  dos bens e  contas bancárias dessas pessoas, destaco apenas uma:
“Os dirigentes e outros responsáveis (venezuelanos) que violam os direitos humanos dos cidadãos e estão envolvidos em actos de corrupção, não são bem vindos aos Estados Unidos”.
O critério parece-me muito restrito. Se utilizasse a mesma bitola em relação à Europa, muitos dirigentes políticos da União Europeia teriam os seus bens confiscados e não poderiam pisar território americano, pois as medidas de austeridade impostas aos cidadãos dos países do sul, que conduziram à miséria milhares de famílias, violam claramente os Direitos Humanos, como  a Amnistia Internacional recentemente reafirmou num relatório muito contundente.
As medidas aplicadas aos cidadãos venezuelanos só podem, por isso, ser interpretadas à luz de uma velha tradição americana que vê na  América Latina o quintal dos EUA, onde as autoridades americanas gostam de se divertir.
Anunciada, há semanas, a reaproximação  a Cuba ( embora permaneça o embargo, há sinais de que pode vir a ser levantado a breve prazo), os EUA precisavam de encontrar um novo  alvo para  a sua arrogância.  Maduro era o que estava mais à mão, para apascentar a opinião pública americana.
Seria de rir à gargalhada, se não fosse dramático, o argumento  invocado pelas autoridades americanas  de que é preciso proteger o sistema financeiro dos fluxos  financeiros da corrupção pública na Venezuela.
Não nego que ela exista, mas é notório que também existe na Europa e não vejo Obama minimamente preocupado com isso. Por razões tão óbvias, que me abstenho de escalpelizar.
Quando  Obama anunciou uma reaproximação a Cuba, pensei que finalmente estava a cumprir uma promessa que remonta ao seu primeiro mandato. Enganei-me. Apenas quis mudar de brinquedo. Como era de esperar,   Cuba já veio condenar as sanções anunciadas por Washngton  e, a exemplo do que aconteceu em Dezembro, não tardará que o Mercosul  se pronuncie desfavoravelmente a mais esta ingerência americana. Obama já devia ter percebido que os dirigentes latino-americanos não são cãezinhos amestrados, como os parceiros europeus, sempre prontos a aplaudir quaisquer ameaças provenientes de Washington.
Um dia os EUA vão ficar sem recreio para se divertirem.

Pai, perdoai-lhe, que ele não sabe o que diz