terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Começou a caça às bruxas?

Nunca tive grandes dúvidas sobre as motivações de Carlos Alexandre e Rosário Teixeira, quando decretaram a prisão preventiva de Sócrates: humilhá-lo e exibi-lo à opinião pública como trofeú que avalizasse o bom funcionamento da justiça.   (Ainda estou para perceber  se em matéria de troféus  foram Carlos Alexandre e Rosário Teixeira a aprender com Maria Luís Albuquerque e Passos Coelho, ou o contrário, mas isso agora pouco importa). 
Por outro lado, a credibilidade da ministra estava de rastos depois do Citius e da reforma(?) da justiça. A contestação dos advogados,  funcionários judiciais, procuradores e alguns juizes   à  actuação  de Paula Teixeira da Cruz não parava de aumentar, mas a promessa de um aumento dos salários dos juízes  merecia uma recompensa. Afinal não tinha sido a ministra a dizer que a impunidade tinha acabado? Carlos Alexandre estava disposto a demonstrá-lo e, sem qualquer relutância, terá escrito que se a prisão preventiva pecava, era por defeito. ( Não explicitou o juiz qual a medida que considerava justa, mas isso agora também não interessa nada)
Quando a advogada de Carlos Santos Silva escreveu um artigo demolidor no Boletim da Ordem dos Advogados, em que põe a nu as irregularidades e  arbitrariedades na detenção de Sócrates ( recordo que esteve 5 dias sem direito a tomar banho ou mudar de roupa) não merecendo qualquer reacção dos visados, tornou-se para mim ainda mais claro que havia outros objectivos na prisão de Sócrates. Responder ao artigo poderia levantar ondas e isso não convinha minimamente aos interesses da acusação.
Mas se dúvidas ainda me restassem, a entrevista de Maria José Morgado dissipou-as. Toda a gente percebeu que as fugas de informação são selectivas, canalizadas sempre para os mesmos meios de comunicação social que sempre se destacaram na propaganda contra Sócrates e tendo como objectivo criar a ideia, junto da opinião pública, de que Sócrates é culpado. No entanto, Maria José Morgado conseguiu dizer, com aquele ar sonso que todos lhe conhecemos, que as fugas de informação favorecem sempre a defesa. Não se tratou de corporativismo. Foi lata e falta de vergonha!
Hoje, logo pela manhã, ainda antes de ser comunicada a decisão de Carlos Alexandre aos advogados de defesa, já o Pasquim da Manha noticiava que Sócrates ia ficar mais três meses na cadeia.
 Pela tarde, ficamos a saber que a decisão sobre o recurso apresentado pela defesa de Sócrates foi adiada. Numa decisão que não é inédita, mas muito rara ( segundo afirma a defesa) o Tribunal da Relação pediu um parecer ao Ministério Público, o que permitirá adiar pelo menos por mais 20 dias a decisão.
Finalmente, dando por verdadeira uma notícia publicada no Jornal de Notícias, a investigação do processo Marquês está a ser alargada a outros membros do governo de Sócrates. Chegado a este ponto começo a interrogar-me, de forma ainda mais fundamentada, se  a prisão de Sócrates não é de mais amplo espectro e pretende, além de incriminar o ex-primeiro ministro, minara credibilidade do Partido Socialista, apresentando-o à opinião pública como um viveiro de corruptos. Em ano de eleições, com o PSD e o CDS em risco de serem varridos do poder, a perseguição da justiça ao Partido Socialista é uma dádiva inesperada. Assim como um penalty inventado pelo árbitro para favorecer a equipa do seu coração...
É óbvio que os juízes devem estar gratos a este governo que lhes aumentou os salários, quando todos os portugueses sofem cortes nos seus rendimentos, mas não acredito que  seja suficiente para que, em forma de agradecimento, seja desencadeada uma caça às bruxas, visando o PS. Outras intenções haverá certamente. Talvez um dia as consigamos descortinar.
Sócrates pode vir a ser julgado e justamente condenado pelos crimes de que é acusado. Não é isso que está em causa. O que é aterrador  é assistir passivamente à sistemática violação das regras da democracia, enquanto os agentes da justiça usufruem da impunidade dos seus actos, porque ninguém fiscaliza o seu "modus operandi".

Ainda bem que privatizaram os CTT!


Quando cheguei a casa,  tinha na caixa de correio um aviso dos CTT para levantar uma encomenda.  Pelo remetente, percebi logo que se tratava da minha carta de condução, cuja chegada aguardava desde Julho.  
Digamos que oito meses para renovar uma carta de condução é pouco apropriado a um país cujo governo garante estar a modernizar-se e a servir  os seus cidadãos de forma mais eficiente, mas adiante…
No dia seguinte preparei-me para ir buscar a carta de condução. Iria ter oportunidade de conhecer as novas instalações dos CTT, que agora ficam a escassos metros de minha casa, mas onde nunca tinha entrado.
Felizmente reparei a tempo que o postal mencionava o facto de o posto encerrar das 12 às 14 e as entregas só serem feitas até às 17 horas. Fiz as contas. Horário de funcionamento de 6 horas diárias ( 9 às 17 horas, com duas horas de pausa para almoço) e pensei com os meus botões “estes novos donos dos CTT são uns porreiraços. Aqui está um horário que me convinha”.
Apontei para chegar lá em cima das duas da tarde, para evitar filas, mas acabei por chegar dez minutos antes. Não havia  ninguém na fila de espera, como era normal no anterior posto. Estranhei. Talvez fosse o meu dia de sorte.  Dispus-me a esperar mas como o meu estômago, que nos últimos tempos  tem andado muito rezingão, começou   a reclamar pela ração almoçarenga, decidi ir a um restaurante onde amesendo para jantar com frequência e fica a escassos metros.
Espantado por me ver à hora do almoço, o empregado perguntou o que me levava até lá.
Expliquei-lhe que ia aos CTT em demanda da minha carta de condução mas, como ainda estava encerrado, optara por almoçar primeiro.
Vamos lá ver se hoje abre”- avisou-me o empregado
Como?  Não está aberto todos os dias? No postal que me enviaram diz que funcionam todos os dias úteis! Onde é que se viu um posto de correios abrir só alguns dias por semana?”
É o que lhe digo. Este posto só tem uma funcionária  e quando ela está doente, ou tem algum problema para resolver, fecha. Aquilo ali também tem pouco movimento. Só lá entregam cartas. Para volumes tem de ir a outro posto (noutra freguesia)!”.
Incrédulo com o que acabara de ouvir, almocei tranquilamente.  Terminado o repasto, dirigi-me ao posto dos CTT. Felizmente estava aberto e a funcionária era bastante simpática. Lá me deu o envelope com a carta de condução.
Pelos vistos tive mesmo sorte. Uns dias  depois, passei por lá e pude constatar que estava encerrado. Aviso com os motivos  do encerramento, nem vê-lo. 
Porreiro, pá! Agora, ir aos correios é uma espécie de lotaria. Pode estar aberto, mas também pode não estar. Isto dá uma certa animação à coisa e tenho de agradecer ao coelho por ter privatizado os CTT. É que quando era uma empresa pública tínhamos a certeza que os postos estavam abertos todos os dias e era uma pasmaceira. 

Será o governo cumpridor a pagar esta dívida?

Apesar de andar por aí alguma comunicação social a dar a volta ao texto, enganando os leitores com pequenos subterfúgios linguísticos, a verdade é que já vários Tribunais obrigaram o Estado a readmitir funcionários públicos que  foram enviados para a requalificação ( leia-se: despedimento sem direito a subsídio de desemprego) .
Agora só falta saber se o governo reintegra esses funcionários, lhes dá trabalho e, mais importante ainda… se lhes paga!