sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Não, não acabou!

Abatidos os três cidadãos franceses que não souberam dar valor ao facto de terem nascido num país livre, as notícias sobre os atentados dos últimos dias em Paris vão desaparecer dos telejornais dentro de dias. 
Muitos dos que saíram à rua, deixarão de ser Charlie.  No próximo atentado serão Big Ben, Moulin Rouge, Alexanderplatz ou outra coisa qualquer. Como já foram Torres Gémeas, Atocha ou Metro de Londres
O que restará então na memória destes dias? O mesmo que restou dos atentados anteriores: mais medidas securitárias, menos liberdade, mais xenofobia, mais extrema direita, mais ódio e mais espírito de vingança canalizados para o sentido errado.
Os males da Europa não estão no exterior e não é com medidas xenófobas e de redução das liberdades individuais, nem com gritos de "não temos medo" que se resolvem os problemas.
É dentro da Europa que os cidadãos, sejam franceses, alemães, gregos, ingleses, italianos, espanhóis ou portugueses devem procurar as causas destes actos de barbárie. E encontrar medidas para os evitar, preservando um dos valores fundamentais da civilização ocidental: a democracia
Continuar a tentar explicar apenas com causas externas os problemas que estão a corroer a Europa por dentro, é o mesmo que pensar que um móvel com caruncho pode ser restaurado apenas com uma pintura.
A história ainda não acabou. A avaliar pelo que fui ouvindo ao longo destes dias, penso mesmo que só agora tudo começou.

2015 no País das Maravilhas

Nas mensagens de Ano Novo à Tugalândia, o senhor presidente do conselho e o senhor presidente da república não foram parcos em palavras de esperança anunciadoras de um ano 2015 cheio de venturas.
Ainda Janeiro não chegou a meio e as suas palavras confirmam-se. É certo que as exportações desceram 0,4%, o desemprego aumentou 0,6%, a deflação só ainda não atingiu Portugal, graças à Fiscalidade Verde, há gente a morrer nas urgências dos hospitais, mas  ninguém pode negar a  surpreendente notícia que entusiasma Cavaco e Coelho e os faz antever um futuro melhor em 2015: a Mercedes Benz e a BMW tiveram o seu melhor ano de vendas de sempre, em Portugal.
O nosso futuro está assegurado. Montados nos cavalos da senhora Merkel seremos imparáveis no combate aos infiéis que desdenham os mercados.

E a Europa a vê-los passar...

Mais de 30 países latino-americanos estão hoje reunidos em Pequim, com governantes chineses. 
Mais uma prova do desfasamento da Europa face à realidade geopolítica das duas últimas décadas. Enquanto vai definhando atolada em problemas internos centrados no dinheiro e nos mercados que corroem os seus alicerces democráticos, a Europa deixa-se ultrapassar pela China numa região do globo onde teria mais facilidade de implantação.
Quando vivi na América Latina, nos anos 90, era já percepotível a crescente influência da China e Coreia naquela região. Aliás, foi a circunstância de me ter apercebido disso quando trabalhava em Macau, que me levou até àquelas paragens. 
António Guterres foi dos primeiros líderes europeus a perceber a importância da América Latina e  a promover uma aproximação a países como a Argentina, Uruguai ou Colômbia. A inexistência de uma estratégia europeia nas relações com os países latino americanos permitiu um crescente envolvimento da China e o afastamento progressivo da Europa.
Não surpreende por isso ninguém que Dilma Roussef,  no discurso de tomada de posse,  tenha colocado as relações com a Europa nas últimas prioridades do seu governo. 
Sinceramente, não percebo a surpresa do professor Marcelo. Apesar de ir tantas vezes ao Brasil, deve andar muito distraído. Será com as brasileiras, ou com as fazendas do amigo Ricardo Salgado onde luxuosamente passa as suas férias ( claramente acima das suas possibilidades)?

Nós por cá todos bem