sexta-feira, 12 de junho de 2015

Estamos entendidos?

Faz hoje 30 anos que entrámos para Europa e creio que vale a pena perguntar se valeu a pena. 
É certo que a UE, hoje,  esqueceu as raízes democráticas em que assentou a sua criação e aceita mais facilmente governos com laivos de fascismo (como na Hungria), do que governos que defendam os seus povos ( como na Grécia);
Não se pode negar que a Europa é hoje governada por um grupo de imbecis burocratas que se estão marimbando para os povos que governam, porque teceram entre eles uma cadeia de troca de favores que lhes garante a manutenção no poder;
As ligações estabelecidas entre as famiglia europeias, os negócios obscuros que fazem entre si e a falta de transparência nas decisões  estão a contribuir para  que alastre a ideia de que a corrupção é generalizada;
As crises dos países do sul parecem ter sido provocadas deliberadamente e depois  amplificadas, com o intuito de enriquecer os países do norte;
Cavou-se um fosso entre países do norte e do sul que nada tem a ver com assimetrias, mas com ideologias. Perigosas para toda a Europa e susceptíveis de  por em causa a estabilidade e a paz que caracterizaram os últimos 50 anos. A Alemanha, cega pelo seu ódio à Rússia, meteu a Europa numa encrenca  chamada Ucrânia e não sabe como sair dela.
No entanto, como português, tenho de reconhecer que a Europa nos trouxe vantagens.
Se  hoje estamos  muito melhor do que há 30 anos, isso deve-se em grande parte à nossa entrada  para o clube dos ricos. É certo que eles nos tratam mal, nos desprezam e nos apontam como calaceiros, indisciplinados e gastadores, mas foram eles que nos disponibilizaram  dinheiro para construir a maior parte das infra-estruturas de que hoje dispomos. 
Temos de reconhecer que, muitas vezes, gastamos mal os fundos comunitários. (Pedro Passos Coelho é um bom exemplo desse desperdício. Delapidou verbas do FSE que ninguém sabe onde foram parar, mas ninguém quer saber e a imprensa  não mexe uma palha para investigar o assunto. Se fosse Sócrates...)  
Também não podemos esquecer que foi a nossa entrada na UE que determinou o fim da nossa agricultura e da frota pesqueira, mas  isso foi mais  culpa de Cavaco que, com a sua visão de economista sobredotado, pensou que seria boa ideia trocar a a agricultura e a pesca por jeeps e casas com piscina . 
Mas até quando terão os portugueses de pagar por esses pecados de Cavaco and friends? Porque não  são responsabilizados aqueles que andaram a desviar fundos europeus? Até quando terão de ser  os cidadãos, iludidos pelo canto de sereia do crédito barato promovido pelos bancos, a pagar os erros de quem se locupletou com verbas comunitárias?

Dito isto, devo deixar claro que não compreendo aqueles que defendem a saída de Portugal da UE.  Eu não quero esta Europa, mas também não quero sair dela. Por isso, o meu voto será sempre naqueles que me prometem lutar por  uma mudança da Europa e não em quem quer que saiamos dela, ou nela continuemos como até agora. Os problemas não se resolvem com deserção. Resolvem-se com argumentos e luta.
Como está a fazer o Syriza. E, contrariando o pensamento geral, devo dizer que estou profundamente convicto que a pertinácia de Tsipras irá obrigar a Alemanha a ceder, porque Merkel já terá percebido que a saída da Grécia da zona euro pode ser um enorme berbicacho. 
Finalmente, é bom lembrar que os governos europeus foram eleitos pelo povo e se hoje  o oprimem, é porque o povo deixa. Ora porque não vai votar, ora porque vota sucessivamente naqueles partidos que governam sempre contra os seus interesses. Uma espécie de síndrome de Estocolmo generalizado...
Os gregos já perceberam isso. Enquanto os povos do sul da Europa não seguirem o seu exemplo, elegendo governos que lutem contra a manutenção deste sistema que os escraviza, não poderão queixar-se. No fundo, a decisão é nossa. Será o caminho que escolhermos, por via eleitoral, que irá determinar o nosso futuro. Não nos queixemos se ficarmos em casa, porque alegadamente "os partidos são todos iguais" ou " estamos fartos de política". Se queremos ter uma Europa melhor, não podemos ceder ao medo nem à cobardia. 


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