segunda-feira, 18 de maio de 2015

O ilusionista de Trapalhândia


Nas comemorações do 30º aniversário*

Capítulo 1- A caminho do Oeste

Poucos anos antes do tempo em que decorre esta blogonovela, ocorrera uma revolução florida em Trapalhândia. Os militares derrubaram uma ditadura bolorenta e o povo saiu à rua para festejar. Durou pouco tempo a euforia. Uma década depois, o país estava num beco sem saída, porque os amigos que o governavam em coligação entraram em conflito e tiveram de chamar o FMI para resolver o problema.
Por essa data, em Trapalhândia, as pessoas não iam "Por este Rio acima" , como cantava o Fausto. Preocupadas com salários em atraso, as greves dos transportes e a inflação a atingir os 30 por cento, corriam a depositar as suas poupanças nas mãos de D. Branca, ou coleccionavam rótulos de Cola Cao, para concorrerem ao "1, 2, 3", concurso televisivo que oferecia televisores a cores e outros prémios nunca sonhados.
Quando,em 1984, D. Branca- a Banqueira do Povo- foi presa e os tugas perceberam que o Cola Cao não lhes resolvia os problemas, entraram em depressão. Nessa altura, em Fatimah- capital espiritual de Trapalhândia- um padre de nome Krohn tentou assassinar o Papa. Os tugas correram para os televisores para saber as notícias. Depressa, porém, se desinteressaram e as suas atenções voltaram-se para a primeira telenovela produzida no pais ("Vila Faia") e para o primeiro herói Pimba do país. Chamava-se Tony Silva, tinha humor e muito "kitsch", mas não os dotes necessários para formar um governo que resolvesse os problemas do país.
Estavam as coisas neste ponto, quando um senhor esguio e macilento, "mísero" professor, decidiu comprar um carro novo. Não me perguntem como é que um " mísero" professor, no meio da crise, conseguiu arranjar dinheiro para comprar um carro novo, porque isso agora não interessa nada. O importante são os factos e a eles me vou cingir.
Num belo fim de semana, precisando de fazer a rodagem ( naquela época os carros ainda tinham de fazer rodagem) o professor virou-se para a mulher e perguntou:
-Ó Maria! Está um dia tão lindo, que tal se fossemos comer uma caldeirada à beira mar?
-E onde queres ir? À Erisurfeira ou ao Grito?
- Ó Maria! Eu disse-te que queria fazer rodagem ao carro, não te convidei para dar uma voltinha saloia… vamos à Palmeira da Foz…gostas tanto daquilo! Não achas boa ideia?
A anuência da cara metade foi imediata e, invertendo a marcha de D. Afonso Henriques (rei fundador de Trapalhândia, depois de dura luta contra os mouros) rumaram os dois a Norte.
A caldeirada foi saboreada num restaurante da marginal de Palmeira da Foz, regada com um vinho branco, em dose moderada.
No fim do repasto, o senhor esguio respirou fundo, após o último gole de café, e inquiriu:
- Sabes o que me apetecia agora, Maria?
- Ó homem! O anúncio da Ferrero Rocher só vai para o ar daqui a uns anos e, além disso, essa deixa do “ Ambrósio, apetece-me algo” é minha, não é tua.
- Não brinques, Maria, mas estou mesmo com vontade de…
- Deixa-te dessas coisas, filho. Deve ser do ar do mar. Olha, porque é que não vais ali ao quarto de banho e passas um bocadinho de água na cara para aliviar os ardores?
- Não, Maria, nada disso… o que me apetecia mesmo era fazer um discurso.
- Ah, bom…E para quem é que tu vais discursar homem? Não te ponhas agora aí armado em Padre António Vieira a discursar aos peixinhos… já estás a entrar na idade de te deixares desses disparates. Valha-me Deus, p´ró que t’avia de dar! Ainda ontem querias ser ilusionista. Hoje queres fazer discursos? Vê lá se te decides, que eu não aguento isto...
- Olha, eu não te disse nada antes de virmos, mas sei que estão ali uns senhores enfiados numa sala…
- Com um dia lindo como este? Devem ser parvos!
- Calma Maria… aqueles senhores estão metidos numa grande embrulhada e estão à procura de um futuro para o país. Penso que os posso ajudar mas, se eles não quiserem, pelo menos vou lá, faço o meu discurso e depois venho-me embora mais aliviado e de consciência tranquila.
-Tá bem, filho, vai lá, mas não contes comigo para te acompanhar. Fico aqui a apanhar este "solinho". Olha, não te demores muito, porque quando anoitecer arrefece e eu não me quero constipar. 
Já a noite tinha caído, quando o professor esguio regressou ao restaurante, onde deparou com a mulher embrulhada numa manta gentilmente cedida pela proprietária. Vinha acompanhado de um grupo de homens sorridentes trauteando uma música que lhe era familiar, mas cujo título não lhe ocorria.Quando se aproximaram, os homens curvaram-se respeitosamente e entoaram em coro:
- Parabéns, minha senhora! O País finalmente vai mudar!
Maria olhou para o grupo estarrecida. Afinal, o seu homem tinha-lhe dito que ia discursar e aparecia-lhe agora acompanhado de um grupo folclórico de homens exibindo uns autocolantes laranja na lapela? Ia formular uma pergunta que certamente deixaria todos embaraçados quando o marido, antecipando-se a qualquer eventualidade, se voltou para os acompanhantes e disse:
- Muito obrigado a todos. Agradecia que me deixassem agora sozinho com a minha mulher, para eu lhe explicar tudo. Encontramo-nos amanhã em Ulisseia.

(continua)

*AVISO AOS LEITORES: Escrevi esta blogonovela em 2011. Assinalando-se hoje os 30 anos da entronização de Cavaco na Figueira da Foz, decidi recuperar alguns episódios para lhe prestar a devida homenagem.
E vale a pena nunca esquecer - porque não é ficção - que Cavaco Silva chegou ao poder através de uma fraude. Apresentou a candidatura com assinaturas forjadas por Alberto João Jardim. "O que torto nasce, tarde ou nunca se endireita"...

4 comentários:

  1. Não se endireita... Os galhos cada vez estão mais tortos e apodrecidos. Vamos ver quando caem?

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  2. Escrevi hoje acerca dele e da surpresa (será??) com o distanciamento dos jovens face à política.
    Como se ele não tivesse nada a ver com isso....

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