sexta-feira, 15 de maio de 2015

As razões de um silêncio


Lamento muito dizê-lo,  mas  não foram  as cenas de violência  na escola da Figueira da Foz que mais me chocaram.
Vivo junto de três escolas. Duas são públicas e uma privada. Tenho vistas privilegiadas para os recreios e o que lá vejo, às vezes,  são  cenas de pugilato. Muito mais soft do que as do vídeo, mas que não diferem muito de outras cenas do meu tempo de estudante.  O que as distingue substancialmente das do meu tempo é o comportamento da assistência.  Ao contrário do que acontecia nos idos de 50 e 60, ninguém tenta separar os envolvidos na contenda, quando  esta resvala para a violência. Agora, o  comportamento comum é assistir, tomar partido por um dos lutadores e  incitar à destruição do adversário. 
É certo que  a violência gratuita exibida no vídeo é chocante e ver um miúdo ser agredido por um grupo de miúdas, sem esboçar qualquer reacção revolta mas, quando vi o vídeo, lembrei-me de imediato desta cena que, além de ser de extrema violência, denota a degradação a que chegou a escola. 
Daqui a umas semanas já ninguém falará no vídeo, como ninguém fala do que aconteceu naquela escola da Amadora, em que uma professora foi barbaramente agredida e insultada por uma aluna.  Hoje, quem quer saber o que aconteceu à professora, ou se importa com as sequelas que ainda hoje sentirá? Como também ninguém fala do caso Carolina Michaelis, em 2008, nem  da miúda  agredida por outras duas  numa outra escola.
A violência nas escolas tornou-se  banal, mas ninguém faz nada para a combater. Não me espantarei, por isso, quando um miúdo for esmurrado até à morte no recreio de uma escola, perante a passividade  dos alunos. O miúdo de 14 anos   esmurrado  até à morte por outro de 17, em Salvaterra de Magos, é apenas mais um episódio que em breve será encerrado no sótão da nossa indignação. É mais um degrau na escalada da delinquência juvenil  que o efeito do tempo apagará. Até que haja uma cena “à americana”, protagonizada por um puto inspirado pelo massacre de Columbia, não prevejo que alguém se preocupe em tomar medidas sérias que ponham um travão nesta escalada. O gajo que está à frente do ministério da educação é um imbecil apenas preocupado com modelos pedagógicos anacrónicos e a sustentabilidade económica. As escolas estão à míngua de recursos financeiros e humanos,  porque este ministro não percebe a importância do pessoal auxiliar na estabilidade da vida das escolas. Admite-se a imbecilidade de um ministro. Não se admite é que se comporte como um criminoso. Diga-se, em abono da verdade, que as culpas não têm cor partidária. Já em 2008, o caso Carolina Michaelis agitou muita gente e as reacções do governo de então- que na altura critiquei duramente.- não diferiram muito das do actual,
Dito isto,  regresso ao ponto de partida deste post. O que mais me chocou no vídeo da Figueira da Foz não foi a violência gratuita. Foi saber que o vídeo tem um ano e que a cena  foi silenciada pela mãe da vítima. Isso, para mim, é que é verdadeiramente revoltante e revelador da podridão social a que chegamos. Mais do que saber as razões que levaram as garotas àquela cena de violência, queria perceber os motivos que levaram a mãe do miúdo a obrigá-lo ao silêncio. Isso é que para mim é verdadeiramente importante porque, quanto ao resto, não espero nada mais do que a inércia de um ministro e de um governo, para quem as pessoas devem ser subjugadas aos ditames da economia de mercado.  
Ah, é verdade... já me esquecia de lembrara que o que se passou na Figueira da Foz não foi bullying. Mas sobre isso escreverei mais tarde...


3 comentários:

  1. Tens razão. Inventam cada nome! "Bullying?

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  2. Tens razão. Inventam cada nome! "Bullying?

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  3. De um modo geral concordo consigo.
    Quanto a mim a grande mudança passa por mudar a idade da responsabilidade penal. Parece-me que quem tem menos de 16 anos já sabe muito bem distinguir o bem do mal, o que é certo e errado, o que magoa e não magoa e o que é crime e não é crime. Em Inglaterra a idade pela qual alguém pode ser responsabilizado penalmente é aos 7 anos. Se calhar se seguíssemos esse exemplo não havia tantos crimes cometidos por menores.
    Por fim pego numa frase sua:

    «O gajo que está à frente do ministério da educação..»

    Infelizmente isto já não são casos que só caibam na alçada do Ministério da Educação, são antes da responsabilidade do Ministério da Administração Interna. Isto já não são casos de mera falta de educação e de valores, são antes casos de polícia.

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