quarta-feira, 22 de abril de 2015

Nunca é demais lembrar



Hoje assinala-se o Dia da Terra.Pareceu-me apropriado recordar o momento em que se começou a olhar para a necessidade de preservar o ambiente e como foi evoluindo a abordagem às questões ambientais desde 1961.
Nesse ano, um livro de Rachel Carson (A Primavera Silenciosa) desperta as pessoas para os problemas ambientais, ao chamar a atenção para a existência de um eco-sistema e a necessidade de o preservar, como forma de garantir um ambiente saudável.
Em causa estavam os efeitos devastadores do pesticida DDT, que Carson descreve da seguinte forma:
“Para acabar com os escaravelhos que estavam a destruir os ulmeiros, a Câmara da cidade de East Lansing (Michigan) pulverizou as árvores com DDT e no Outono as folhas caíram e foram devoradas pelos vermes. Ao regressarem, na Primavera, os tordos comeram os vermes e ao fim de uma semana quase todos os tordos da cidade tinham morrido.”
Anos mais tarde foram encontrados vestígios de DDT em baleias criadas ao largo da costa da Gronelândia situada a centenas de quilómetros das áreas agrícolas mais próximas, e concentrações de insecticida nos ursos e pinguins da Antártida, longe de qualquer área sujeita a pulverização com DDT ou qualquer outro insecticida.
Durante a década de 60, são vários os acontecimentos que vão despertar as pessoas para a necessidade de preservar o ambiente e começa a falar-se da possibilidade de ocorrência de catástrofes ecológicas. Em 1966,enquanto no País de Gales cerca de 150 pessoas ( a maioria delas crianças) morrem sepultadas num monte de resíduos de carvão que desaba sobre uma escola, um novo livro ( “Limites para o Crescimento”) vem alertar o mundo para os sinais de degradação ambiental. 
No ano seguinte, um grupo de cientistas apresenta, na Califórnia, um relatório esclarecedor:os aerossóis estão a destruir a camada de ozono e se a sua utilização permanecer ao mesmo ritmo, o número de cancros da pele crescerá exponencialmente. Só nos EUA, os cientistas prevêem mais oito mil casos anuais. Entretanto, alterações de clima e inexplicáveis acontecimentos metereológicos lançam grandes preocupações na comunidade científica.
A causa ambiental ganha novos adeptos e a ONU decide avançar para a realização de uma Conferência Mundial sobre o Ambiente, marcada para 1972 em Estocolmo.A Cimeira- que conta já com a participação do Greenpeace fundado no Canadá em 1971- decorre em plena guerra do Vietname e os EUA são acusados de estar a perpetrar uma destruição ecológica durante o conflito. O debate entre países ricos e pobres, que há-de ser uma constante quando se discutem problemas ecológicos, é iniciado com uma intervenção de Indira Gandhi que pergunta aos delegados dos diversos países:
“Como podemos nós falar, àqueles que vivem em aldeias e bairros de lata, em manter limpos o oceanos, os rios e o ar, quando as suas próprias vidas são contaminadas desde a origem?”
Maurice Strong, - o secretário geral da Conferência- compreende o que está em jogo e responde nestes termos:“ É o cúmulo do descaramento que o mundo desenvolvido manifeste surpresa quando os países em desenvolvimento identificam chaminés fumegantes de fábricas com progresso. Afinal, é isso que nós temos feito desde sempre!”.

As posições de pobres e ricos mantiveram-se inconciliáveis e no final, para além de promessas (que não serão cumpridas) de ajuda dos países ricos aos países pobres, que permitam reduzir as diferenças que os separam, a única medida palpável foi a autorização para que fosse criado um secretariado permanente para estudar os problemas do ambiente, no seio da ONU.
Em 1987, o relatório da Comissão Brundtland veio deixar claro que os entusiasmos criados em Estocolmo tinham sido refreados e nem o acordo assinado por vários países, comprometendo-se a reduzir para metade a emissão de CFC (clorofluorcarbonetos) responsáveis pela destruição da camada de ozono, dá mais confiança aos ambientalistas numa solução do problema.
Indiferentes aos problemas ambientais e gozando, por vezes, da complacência dos governos, as multinacionais vão explorando os recursos dos países do terceiro mundo, especialmente os asiáticos, e sendo responsabilizadas por desastres ecológicos que provocam número indeterminado de vítimas, como o de Seveso (Itália), Bhopal (Índia) ou Exon Valdez (Antártida). O património histórico também está ameaçado e a UNESCO alerta para os perigos que ameaçam a Acrópole. Em Chernobyl (URSS) – mofando de quem assegurava a impossibilidade de um acidente - explode um reactor nuclear que liberta para a atmosfera uma gigantesca nuvem radioactiva que atinge vários países europeus e, na Alemanha, um incêndio numa fábrica de produtos químicos polui gravemente o Reno.
Em 1990, novos acordos para a eliminação , até ao ano 2000, dos produtos mais perigosos para a camada de ozono e a redução das emissões de gases poluentes são alcançados, chegando-se à Cimeira da Terra que se realizou no Rio de Janeiro em 1992, num clima de grande optimismo. Debalde. Durante a Cimeira, as desavenças entre países pobres e ricos acentuam-se e mesmo no seio dos países da UE as fricções são bem visíveis..
O principal êxito da Cimeira foi o seu mediatismo, que trouxe a temática ambiental para a discussão pública e criou uma maior consciencialização das pessoas para o problema.
A partir daí multiplicaram-se as cimeiras sobre alterações climáticas e o ambiente- quase sempre inconclusivas e com acordos meramente circunstanciais- onde a tónica assenta na necessidade de garantir um consumo e desenvolvimento sustentável. Os resultados foram mais positivos na alteração do comportamento dos consumidores- fruto de uma crescente consciencialização- do que nos modos de produção. Empresas de países emergentes como a China, a Rússia ou a Índia, continuam a utilizar maioritariamente os combustíveis fósseis em detrimento de energias mais limpas.
Quarenta e três  anos após a Cimeira de Estocolmo, mais de  50 desde o livro de Rachel Carlson e muitas Cimeiras depois, embora conhecido o diagnóstico e as possíveis medicamentações para a cura do Planeta, os “médicos” continuam a olhar para a doente com ar grave e, com um encolher de ombros, declarar: “a doente está muito mal, mas não vamos fazer nada para a curar, porque não nos entendemos quanto à medicação a ministrar-lhe”.
No próximo Outono, em Paris, realizar-se-á mais uma cimeira sobre o clima, que está a gerar grandes expectativas. O mais provável é que se consigam alguns acordos circunstanciais pouco significativos  e, daqui a um ano, voltemos a assinalar o Dia da Terra com  muita propaganda informativa, muitas celebrações e assinaturas de programas para o crescimento verde, que apenas servirão para consumir papel. Reciclado?


4 comentários:

  1. O google neste dia diz-me que eu sou um estomatópide. https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=Question%C3%A1rio+do+Dia+da+Terra&oi=ddle&ct=earth-day-2015-5638584300208128&hl=pt-PT
    Qualquer acordo não é para cumprir, desde que ele não traga lucro para os mais poderosos. Nos EUA tomaram conta de tudo, com a fabricação dos organismos geneticamente modificados, para aumentar a produção e tem a maior firma, a Monsanto, que vende os insecticidas (Roundup) criados pela mesma, que além de destruir tudo o que é ser vivo à sua volta provoca o cancro e até alergias, pois os tecidos não são mais fabricados com algodão ou seda natural, e espalhou-se pelo mundo aumentando a miséria e fome, quer aos que aderiram ao seu sistema, quer aos que não quiseram e ficaram sem nada, pois as sementes destes produtos não germinam e são ele que têm de vender tudo de novo.

    Não vos ponho vídeos para não se assustarem, mas quem quiser saber ainda mais alguma coisa tem muito para se entreter. Além da evolução histórica que o Carlos fez vejam mais isto:

    http://www.confagri.pt/PoliticaAgricola/Temas/Biotecnologia/Pages/doc1.aspx

    http://pt.slideshare.net/nunocorreia/powerpoint-organismos-transgnicos

    http://web.mit.edu/demoscience/Monsanto/about.html

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  2. Trabalho há 40 anos nesta área e já me habituei há muito a perceber e até prever os embustes que nos são vendidos como medidas ambientais positivas, goldenbee. E também conheço os interesses e os entraves que obstaculizam a tomada de medidas. Já agora, como reagirá se eu lhe disser que a próxima grande bolha que irá rebentar com a economia será a das indústrias verdes?

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  3. Não me admira nada porque eu já estou à espera. Às vezes não tenho imaginação suficiente para prever certas coisas. Não é em Nápoles que, há muito tempo, se matam por causa dos lixo e das reciclagens?! Outras lutas se adivinham. Há sempre maneiras de enganar o Zé, que muitas vezes gosta de ir na conversa. Os outros que se preocupem.

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  4. Ouvir os responsáveis pela área do Ambiente aqui em Macau dizerem que a qualidade do ar que todos respiramos não é boa e que vão estudar medidas para a melhorar dá vontade de os esmurrar na hora!!

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