quinta-feira, 12 de março de 2015

Obama no quintal


Dias depois de ter proferido um discurso  em Selma, alertando os americanos que o racismo nos EUA ainda não acabou ( como se nós não soubéssemos),  Obama  aplicou sanções a sete pessoas ligadas ao regime de Maduro e incluiu a Venezuela  na lista dos países que constituem uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.
Entre as alegações  de Obama, justificando o congelamento  dos bens e  contas bancárias dessas pessoas, destaco apenas uma:
“Os dirigentes e outros responsáveis (venezuelanos) que violam os direitos humanos dos cidadãos e estão envolvidos em actos de corrupção, não são bem vindos aos Estados Unidos”.
O critério parece-me muito restrito. Se utilizasse a mesma bitola em relação à Europa, muitos dirigentes políticos da União Europeia teriam os seus bens confiscados e não poderiam pisar território americano, pois as medidas de austeridade impostas aos cidadãos dos países do sul, que conduziram à miséria milhares de famílias, violam claramente os Direitos Humanos, como  a Amnistia Internacional recentemente reafirmou num relatório muito contundente.
As medidas aplicadas aos cidadãos venezuelanos só podem, por isso, ser interpretadas à luz de uma velha tradição americana que vê na  América Latina o quintal dos EUA, onde as autoridades americanas gostam de se divertir.
Anunciada, há semanas, a reaproximação  a Cuba ( embora permaneça o embargo, há sinais de que pode vir a ser levantado a breve prazo), os EUA precisavam de encontrar um novo  alvo para  a sua arrogância.  Maduro era o que estava mais à mão, para apascentar a opinião pública americana.
Seria de rir à gargalhada, se não fosse dramático, o argumento  invocado pelas autoridades americanas  de que é preciso proteger o sistema financeiro dos fluxos  financeiros da corrupção pública na Venezuela.
Não nego que ela exista, mas é notório que também existe na Europa e não vejo Obama minimamente preocupado com isso. Por razões tão óbvias, que me abstenho de escalpelizar.
Quando  Obama anunciou uma reaproximação a Cuba, pensei que finalmente estava a cumprir uma promessa que remonta ao seu primeiro mandato. Enganei-me. Apenas quis mudar de brinquedo. Como era de esperar,   Cuba já veio condenar as sanções anunciadas por Washngton  e, a exemplo do que aconteceu em Dezembro, não tardará que o Mercosul  se pronuncie desfavoravelmente a mais esta ingerência americana. Obama já devia ter percebido que os dirigentes latino-americanos não são cãezinhos amestrados, como os parceiros europeus, sempre prontos a aplaudir quaisquer ameaças provenientes de Washington.
Um dia os EUA vão ficar sem recreio para se divertirem.

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