quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

E se houvesse um atentado em Portugal?

( Uma semana depois do atentado ao Charlie Hebdo, esta é a pergunta que se impõe)


A resolução seria muito mais fácil  e sem tanto alarido.
Haveria uma forte probabilidade de o pm estar em Bruxelas, Portas de visita a um qualquer país da América Latina e Cavaco andar a cumprir o roteiro turístico que lhe foi traçado pela D. Maria no início do mandato. Nesse caso, o conselho de ministros seria dirigido pela Marilú que se limitaria a dizer aos seus colegas de governo: tenho pena, mas não há dinheiro para accionar os mecanismos de emergência. Está terminada a reunião. Voltem para os vossos gabinetes e tomem decisões, mas não gastem nem um cêntimo fora dos orçamentos dos vossos ministérios. Boa tarde.
No entanto, como sou um optimista e gosto de ficção científica, vou imaginar que todos estavam em Portugal. Nesse caso tudo decorreria dentro da habitual normalidade.
Depois de consumado o atentado, Passos Coelho reuniria o gabinete de emergência e pedia ao ministro da Administração Interna para mandar um carro patrulha em perseguição dos fugitivos. A meio da perseguição o carro avariava ou ficaria imobilizado por falta de gasolina.
O ministro da defesa colocaria os quartéis de prevenção.
A polícia informava que os criminosos se dirigiam para o Algarve.  Seria então a vez de  Paulo Portas sugerir que fossem enviados os submarinos para  patrulhar a costa e num aparte diria, ufano, a Pires de Lima:
- Estás a ver como eu tinha razão em comprar os submarinos?
Passos Coelho pede silêncio e pergunta à ministra das finanças:
- Temos dinheiro para mandar os GOE avançar?
Marilú puxa da calculadora e, após alguns minutos, conclui:
- Para isso não podemos aumentar os juízes...
Paula Teixeira da Cruz, visivelmente exaltada, interrompe a ministra das finanças:
- Nem pensar! Nos meus juízes ninguém toca! Desiste mas é do aumento dos teus funcionários das finanças, lambisgoia.
Passos Coelho tenta serenar os ânimos e comunica que vai telefonar a Merkel a pedir apoio da UE para perseguir os criminosos.
Quando começa a fazer a chamada toca o telefone de emergência. É o PR.
- Ó Pedro, então vocês nunca mais resolvem isso? Tenho aqui dezenas de jornalistas à porta a perguntarem o que é que eu faço e não sei que lhes devo dizer.
- Não diga nada, sr. Presidente. Faça um comunicado. Agora tenho de desligar, porque tenho a Merkel na outra linha. Passe bem. Cumprimentos à D. Maria.
Ouvem-se risos abafados na sala do conselho de ministros.
Merkel não atende o telefone. Manda dizer pelo secretário que ligará de volta quando regressar da China, para onde vai partir em visita oficial ao final do dia.
Fontes da polícia informam que os criminosos se dirigem para a fronteira espanhola. Pararam num posto de gasolina para abastecer a viatura e dirigiram-se para um restaurante perto de Cuba onde  recolheram todos os enchidos, duas doses de migas com espargos, e meia dúzia de garrafas de vinho. De seguida barricaram-se numa fábrica abandonada onde estão a  fazer um pic-nic.
Passos Coelho toma uma decisão corajosa e assume a responsabilidade de acionar o GOE.
Marilú argumenta que essa medida é despesista e o melhor seria deixá-los seguir para Espanha e a polícia espanhola que trate do assunto com o dinheiro do Rajoy.
Pires de Lima interrompe a ministra das finanças exaltado:
- Nem pense nisso! Termos estes criminosos em Portugal será bom para a nossa economia. Amanhã começam a chegar charters de jornalistas estrangeiros para fazer a cobertura. O importante é que o cerco dure muito tempo e, se for necessário,, a polícia deverá reforçar os mantimentos dos criminosos, para garantir que não abandonam o local.
Paulo Macedo  concorda porque assim não haverá tiros nem risco de feridos o que é muito bom, pois  os hospitais, assoberbados com doentes com gripe,  não têm disponibilidade para cuidar de uns tipos que nem são portugueses.
Passos Coelho pede ao ministro da administração interna que providencie a distribuição de alimentos, mas primeiro telefona a Isabel Jonet, sugerindo que faça uma recolha especial de donativos para o Banco Alimentar Contra a Fome.
Depois dá a reunião por terminada, marcando novo encontro para o final da tarde, quando houver mais novidades.
À saída do conselho de ministros, interpelado por jornalistas, Passos Coelho informa que o governo está a encarar o assunto com muita serenidade, mas firme, e garante que deste crime não resultarão encargos adicionais para os portugueses. 
O Correio da Manha faz  uma edição especial, com uma notícia bombástica na capa
“ Criminosos eram frequentadores assíduos da casa de Sócrates em Paris. Há fortes suspeitas de que tenham lá preparado os pormenores do assalto”
Depois de muito matutarem, Felícia Cabrita e o arquitecto encontram um título aliciante:
“ O assalto foi financiado com dinheiro da conta do amigo de Sócrates que “emprestava” dinheiro ao ex- PM”.
O palácio de Belém emite finalmente um comunicado, distribuído pela LUSA e publicado no site oficial da Presidência:
- O PR está a seguir atentamente o desenrolar da situação e, em colaboração com o governo, estão a ser tomadas as medidas adequadas que permitam a detenção e posterior julgamento dos autores deste atentado”.
Na Rua do Possolo, onde está retido há três dias devido a doença do foro neurológico, Cavaco está sentado diante do televisor a ver episódios da série Macgyver.
Ao seu lado Maria faz tricot. 
Então como te sentes Aníbal?
- Hmmm!
Maria vira-se para Fernando Lima e diz:
Fernando está na hora de lhe dar o remédio. Pode ir à cozinha preparar um chazinho? 

11 comentários:

  1. Muito bem reportado, meu caro.
    Peça-se a Manoel de Oliveira que faça um documentário baseado no tema.

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  2. Meu caro Carlos, infelizmente as coisas eram bem capazes de se passarem assim num caso desses.

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  3. Para final do filme, aparecia o da motinha com a última folha de papel higiénico na mão , o ministro da saude duplamente vesgo , a presidente a cobrir os móveis e os fatos e planear a fuga etc etc.
    M.A.A.

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  4. E onde teria sido o atentado?
    Não se pode dizer, porque está em segredo de justiça...

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  5. Desculpe Carlos, mas há aqui um erro de logística. A cena final seria na Travessa do Possolo. Gente desta laia só podia morar num beco, ou numa travessa. Ainda por cima davam-se ao desplante de ir assistir à missa na capela privada do palacete e quinta onde funcionava um colégio e um lar para estudantes, dirigidos por franciscanas, onde eu por acaso fui hospede, quando vim estudar para Lisboa, entrando pelo portão das traseiras.

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  6. Te agradeço muito as gargalhadas que a tua estupenda sátira me proporcionou.

    Noite serena, meu amigo :)

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  7. É verdade, a tua efabulação dava um filme. Burlesco, claro.

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  8. Obrigada pelas gargalhadas que dei. Concordo que se entregue o guião a Manuel de Oliveira com a condição de chamar para actores os protagonistas da narrativa...UM

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  9. Carlosamigo

    F A B U L Á S T I C O!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    E como já um tanto tarde, e dois vizinhos já me bateram (à porta) por mor das gargalhadas - continuarei a rir-me amanhã. Juro.

    Abç

    PS - Autorizas-me a transcrever o teu extraordinário na Travessa? Diz-me que sim por imeile, cagora estou aflito e vou fazer xixi. Penso que o meu senhorio não gostaria mesmo nada se o fizesse aqui. Num habia nexexidade.


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