sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Bibó Porto (21): O difícil caminho das Verdades

Terreiro da Sé


Depois de uma  paragem para fotografias, no terreiro da Sé, conduzi os meus amigos ( Teresa e Luís) para a Rua D. Hugo, o bispo a quem D. Teresa ofereceu a cidade do Porto Antes de entrarmos, chamei-lhes a atenção para um Chafariz.
- Coisa linda! concordaram. E as máquinas voltaram a disparar.
- Chama-se Chafariz do Anjo. Sabem quem o projectou?  Nicolau Nasoni, o mesmo que construiu a Torre dos Clérigos
- Lá estás tu a quereres enfiar-nos barretes, Carlos!- vociferou o meu amigo com um ar de enfado. O Nasoni ia mesmo perder tempo a fazer chafarizes! De lendas já chega a da ponte!
- Bem, se não acreditam em mim, quando chegarmos a casa, pesquisem na Internet. Agora  vamos continuar o passeio.
 Estão a ver aquela capela? É a capela de Nossa Senhora das Verdades. Foi construída por um padre, depois da demolição da Porta das Verdades, uma das aberturas da  primitiva muralha, conhecida como "Cerca Velha". Dava ali para o bairro do Barredo e da Ribeira, mas nessa época a cidade ainda não bordejava o rio. Já viram o que os portuenses perdiam naquele tempo?
- Espera aí. O que é isso da muralha primitiva? Não é esta muralha que estamos a ver?- perguntou a Teresa
- Não! A muralha primitiva é a romana, de que já só restam alguns vestígios. A que estamos a ver é a muralha Fernandina, construída muito depois. Logo ao jantar eu explico-vos. Agora  vamos continuar. Aquelas escadinhas chamam-se ...
- Não me digas que se chamam Escadinhas das Verdades? - perguntou a Teresa na galhofa
Escadas e Arco das Verdades

- Como é que adivinhaste?
- Tás a falar a sério? Já estou a ver que isto aqui  se chama  tudo "das verdades". Tem alguma coisa a ver com o facto de estarem ao pé da Sé onde as pessoas  vinham  certamente confessar-se e tinham de dizer a verdade?
Está bem pensado! Nunca me tinha ocorrido essa hipótese. Talvez tenhas razão. Até porque ali vamos ver também o Arco das Verdades e as Escadas das Verdades
Pois! Lá está! - atalhou o Luís.As pessoas saíam de casa e percorriam o caminho até à Sé a pensar nos pecados ( nas Verdades) que tinham de confessar ao padre
Até pode ser que tenham razão, mas há uma coisa que não bate certo. Esta é a porta que ficava mais longe da Sé e, havendo mais três portas, a lógica é que a Porta das Verdades fosse a que estivesse mais próximo. Ora acontece que a porta de mais fácil acesso se chama Porta de Vandoma
- Ah! Então é ali que se faz a feira de Vandoma? 
- Exactamente! Olhem aqui é a Casa Museu Guerra Junqueiro. Quando vierem cá com mais tempo, venham visitá-la, porque vale a pena. E estas são as escadas das Verdades. Estão a ver esta vista maravilhosa sobre o Douro?
- Lá isso é verdade. É de cortar a respiração! 
- Pronto , já percebi porque é que isto aqui tem tudo nome de Verdades. Deve ter sido um guia daquele tempo que sempre que andava por aqui fazia a mesma pergunta que o Carlos nos acaba de fazer e os turistas respondiam como tu "Lá isso é verdade!"
- Vamos descer as escadas ? perguntou a Teresa

Muralha Fernandina
- É melhor não. Fica para outra vez. Continuamos a descer esta rua  até à Rua Escura e depois vamos explorar um bocado do centro Histórico, que tem muito para ver e muitas histórias para contar. Quando chegarmos ao fim da rua D. Hugo  vão ter oportunidade de tirar muitas fotografias com vistas soberbas sobre o Porto.
- Olha lá, Carlos, isso é Verdade ou Mentira?
- Ainda bem que fazes essa pergunta, Luís. É que as escadas das Verdades,  também já se chamaram das Mentiras.
- Lá estás tu a gozar!
- Não estou, não, mas para vos explicar isso eu tinha de vos contar uma lenda e prometi-vos que não o faria.
- Ora, deixa-te de merdas! Conta lá a lenda. Já que não consegues explicar porque é que isto se chama  tudo das Verdade, ficamos pelo menos a conhecer a lenda.
Já que insitem, então lá vai.  Diz a lenda que as mulheres que viviam nestas casas costumavam sentar-se nas escadas a conversar. O mexerico era sempre um tema muito animado e, como acontece com todos os mexericos, havia alguma dose de verdade, mas acima de tudo, muita má-língua. Daí que alguém lhes tivesse posto o nome de Escadas das Mentirosas, ou Escadas das Mentiras. 
- E quando é que passaram a chamar-se das Verdades?
- Não sei mas, segundo li em qualquer parte, foi o padre que construiu a capela de Nossa Senhora das Verdades que conseguiu que o povo do Porto lhes mudasse o nome. Não consta é que tenha conseguido acabar com os mexericos.
Agora vamos lá, que já se faz tarde.








Não é com vinagre que se apanham moscas




Assinala-se hoje o Dia Internacional  para a Erradicação da Pobreza. 
Sabemos que nunca as desigualdades entre ricos e pobres foram tão gritantes em todo o mundo, mas  temos sobejas razões para nos envergonharmos  do sexto lugar que ocupamos no ranking dos países com maiores desigualdades  de rendimentos entre ricos e pobres, na União Europeia.
Há mais de mil milhões  de pessoas com fome e 200 milhões de desempregados em todo o mundo.
Em Portugal, em 2010, menos de uma em cada cinco crianças ( 18%) estava em risco de pobreza extrema. Este ano, graças às medidas de justiça social tomadas por este governo, a relação de risco aumentou  para mais de uma em cada quatro crianças (29,3%).  Concomitantemente, há mais  21 mil novos milionários  em Portugal nos últimos dois anos. Ou seja: em apenas dois anos o número de portugueses com um património líquido superior a um milhão de dólares, aumentou 30%.
Em Novembro de 2011, o Parlamento Europeu aprovou um documento estratégico de Combate à Pobreza, para o período 2014-2020, cujo principal objectivo é a redução,  em pelo menos um terço, do número de pobres. No primeiro ano deste período a pobreza aumentou em Portugal. Mas não há problema. Desde que cumpramos o défice, a UE aplaude e fecha os olhos  ao aumento das desigualdades sociais.
Portugal não é um caso isolado. Em países como a China ou a Índia, cujo desenvolvimento económico justifica a inclusão no grupo dos que mais têm crescido e vão continuar a crescer na próxima década, têm-se acentuado as desigualdades e cavado o fosso entre ricos e pobres. Esta realidade contraria, na prática, a tese dos que defendem ser o enriquecimento dos países, uma garantia de combate à pobreza e à exclusão. `
Se o enriquecimento dos países não se traduz numa diminuição da pobreza, se a globalização não conseguiu diminuir as desigualdades e se o Estado Social é incapaz de garantir por muito mais tempo o apoio aos cidadãos, chegou a altura de repensar tudo.
A pobreza resultante do modelo de desenvolvimento iníquo das sociedades modernas, quer a pobreza que ameaça afectar um número indiscriminado de velhos, apanhados de surpresa com a falência do Estado Social, incapaz de garantir as pensões de reforma que prometeu durante mais de 30 anos, são problemas que não podem ser ignorados.
Se o debate não se fizer, a Europa (e particularmente Portugal) irá enfrentar um gravíssimo problema.O aumento da expectativa de vida não pode significar diminuição da qualidade de vida. Voltar a olhar para os velhos como um estorvo é um retrocesso inaceitável, mas essa parece ser uma realidade incontornável, no dia  que hoje se assinala.
Dito isto, não posso deixar de manifestar a minha discordância com a proposta avançada por Henrique Pinto ( ex-presidente da Cais) de criminalização da pobreza.  Embora concorde com a necessidade de fiscalizar as verbas ( até ia mais longe, e proporia a fiscalização das receitas permitindo detectar o que fica pelo caminho), criminalizar a pobreza é uma proposta descabida. Não é com vinagre que se apanham moscas. 
Também não é com a exaltação da caridadezinha e do assistencialismo que se resolve o problema da pobreza estrutural. Nem com exemplos como este, apresentado pela TVI. Bem pelo contrário…

A erradicação da pobreza  tem de ser discutida em bases sérias. E isso só será possível com um governo que se preocupe com este problema.  Com o grupo de fariseus da hóstia que nos governa, tal discussão é impossível. 
Só as medidas  que promovam a justiça social podem combater a pobreza e as desigualdades. O resto é folclore de tias que adoram os pobrezinhos , mas preferem vê-los à distância para não lhes sentirem o cheiro.

Somos um país de poetas