segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O abraço de urso

Foto Lusa


Esta fotografia é todo um programa. Ricciardi queria que este momento fosse captado pelas objectivas dos fotógrafos, para mostrar ao país que ele ainda tem a posição dominante e Passos Coelho lhe obedece.
Quem leu "O Ataque aos Milionários" de Pedro Jorge Castro, percebe bem o significado dos gestos dos Espírito Santo e não pode deixar de recordar todas as manobras da família quando o BES foi nacionalizado.
Eles perderam um banco, mas não perderam o poder sobre a classe política. Como no tempo do PREC, haverá sempre alguém disposto a roubar um livro de actas, para  poderem ser falsificadas.

Aécio no palanque



Aécio Neves assistiu de palanque à luta entre Dilma e Marina. Afinal ele era o outsider, estava fora da corrida ao Planalto.  Restava-lhe, por isso, assistir à luta entre mulheres., sem se intrometer. Quando as sondagens começaram a subir em seu favor, percebeu que era essa a melhor estratégia e limitou-se a colher os frutos e não se desviou um milímetro.  Com a quase certeza de que quem perdesse se colocaria do seu lado, deixou que o tempo corresse a seu favor. Sabia que a derrota de Marina poderia vir a beneficiá-lo. Se os eleitores deixassem de confiar nela, iria contar com o seu apoio e podia voltar a sonhar com o Planalto.
Foi ele o grande vencedor da primeira volta e o que agora tem mais chances de vencer a segunda, Dilma já não tem muito espaço para conquistar eleitores ( apenas uma parte residual dos votantes de Marina passarão para o lado de Dilma).
Só um golpe de asa do PT poderá  fazer reverter a situação. Como, por exemplo, explicar bem aos brasileiros o plano de privatizações de Aécio. Ou respigar algumas das frases soltas de Aécio, durante a campanha, em que ele zombou dos pobres.
Dia 26 os brasileiros voltam às urnas. Ficaremos então a saber, se o Planalto vai ter novo inquilino.
( Com este post, termino a análise à primeira volta das presidenciais no Brasil)

O erro de Dilma Rousseff



O resultado de Dilma foi o esperado. Apenas um ou dois pontos abaixo do que  as sondagens lhe davam.  Quer isto dizer que os votos perdidos por Marina Silva foram directamente para Aécio Neves e ela própria terá perdido uma pequena percentagem da sua base eleitoral.
Dilma cometeu um erro grave durante a campanha: centrar todos os seus ataques em Marina Silva e descurar  Aécio Neves. Dilma terá  sido iludida pelas sondagens. Acreditou que a sua adversária era Marina e Aécio uma carta fora do baralho.
Acreditou que desmontando os argumentos de Marina  poderia captar os votos de boa parte dos seus eleitores e conseguir vencer à primeira volta.

Foi um erro  que lhe poderá custar caro e  dar a Aécio Neves uma vitória na segunda volta, que há apenas duas semanas ninguém vaticinava.  Hipótese que ganha ainda mais credibilidade, depois de Marina Silva manifestar o seu apoio ao candidato da direita. Os erros pagam-se caro e, a esta hora, Dilma deve estar muito arrependida da estratégia que adoptou ( ou foi aconselhada a adoptar).

Os pecados de Marina Silva







Tal como  em 2010, Marina Silva ficou-se pela primeira volta com cerca de 21% dos votos. Há no entanto uma grande diferença: em 2010, Marina saiu como vencedora. Este ano, sai como grande derrotada das eleições brasileiras.
Quando  em 2010 abandonou o PT e decidiu candidatar-se, as  sondagens davam a Marina Silva entre  2 a 5 por cento dos votos.  Foi subindo e, no dia das eleições, surpreendeu o Brasil com uma votação inesperada, superior a 20%.
Em 2010, Marina Silva não era ainda uma “política”, mas os brasileiros  reconheceram a sua luta ao lado de Chico Mendes e premiaram a sua acção à frente do ministério do ambiente, que  a guindou a figura de destaque internacional, cumulada de prémios de reconhecimento do seu papel na defesa do desenvolvimento sustentável.  Conquistou  votos à direita e à esquerda e lançou um sério aviso ao PT, que foi obrigado a corrigir alguns desvios  para confirmar a vitória de Dilma Roussef na segunda volta.
O que se passou este ano foi radicalmente diferente.  Marina Silva voltou a ser uma candidata surpresa, mas por motivos muito diferentes.  Era segunda figura do PSB – que aproveitou a sua popularidade para alargar o leque de eleitores em  Eduardo Campos-  e só entrou na corrida, na sequência da trágica morte do candidato do PSB.
As primeiras sondagens apontavam para a possibilidade de vencer Dilma na segunda volta. Marina deslumbrou-se e cometeu uma série de asneiras.
Começou por afastar algumas figuras de topo  próximas do candidato do PSB e rodeou-se de nomes pouco recomendáveis da direita brasileira, nomeadamente na área económica. Os liberais ganharam tal peso na sua equipa, que até o Financial Times a elogiou. Renegar  a  identidade  que lhe permitiu granjear simpatias em vastas franjas do eleitorado, foi o seu primeiro pecado.
O segundo pecado  foi  contrariar as posições do PSB  em matérias delicadas como o aborto  e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao reescrever o programa de governo, por pressão da Igreja Evangélica, Marina Silva demonstrou que cedia facilmente a pressões e era uma candidata facilmente moldável e  permeável. Como aqui escrevi no dia 1 de setembro, Marina Silva passou de esperança a desilusão. Pagou um preço elevado por isso.
Finalmente, o terceiro pecado, foi a postura que adoptou  durante a campanha.  Segui a campanha e vi dois dos debates. Percebi  que, afinal, Marina Silva não tem ideias. É um conjunto de slogans colados com cuspo. Para tentar esconder as suas incoerências e contradições,  Marina privilegiou o ataque a Dilma, atacando a sua idoneidade, a sua honestidade e pondo em causa programas bandeira do PT. Espalhou-se!
Após as eleições, Marina cometeu mais um pecado que, provavelmente,lhe  terá retirado a possibilidade de um dia chegar ao palácio do Planalto: optou por não manter a neutralidade de 2010 e declarou o seu apoio a Aécio Neves.  É um apoio baseado no ódio a Dilma, que foi cimentando ao longo da campanha. Ou, então, vingança Só uma destas razões explica que Marina apoie o candidato que, pelo menos no discurso, é radicalmente diferente dos princípios que diz defender. 
Ao contrário do que em tempos cheguei a admitir, Marina Silva é demasiado frágil a nível intelectual e politico, não tem capacidade nem estofo para gerir um país com a dimensão do Brasil que se quer afirmar, definitivamente, como grande potência mundial.
Marina derrotou-se a si própria, quando mostrou aos barsileiros que seria uma boneca de trapos nas mãos  dos interesses conservadores da Igreja Evangélica, muitas vezes ligados ao pior do capitalismo e da ideologia ultra liberal. Ainda bem. O Brasil ficou a ganhar.
Próximo post: o erro de Dilma

O trambolhão

Há menos de um mês, as sondagens davam um empate técnico entre Dilma e Marina  e uma renhida segunda volta. Aécio Neves era uma carta fora do baralho.
No decorrer da campanha,  Aécio foi subindo e Marina descendo.  Sem surpresa para quem foi seguindo a campanha. Ontem, ainda havia empate técnico entre os dois.
Hoje, as primeiras projecções confirmam uma queda brutal de Marina e uma subida inesperada de Aécio, que se aproximou perigosamente de Dilma.
O trambolhão de Marina não foi por acaso.  Foi culpa própria. Amanhã  analisarei a situação com detalhe
Resultados da primeira volta (provisórios)
Dilma: 41%
Aécio 33%
Marina 21%
Quem irá apoiar Marina na segunda volta, é a grande incógnita. Se apoiar Aécio, é o seu suicídio político.