segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Viegas e Marilú: a mesma luta



As férias levam-nos por vezes ao baú das recordações, repescando memórias que pensávamos esquecidas.
Hoje , voltei a lembrar-me do sr Viegas, merceeiro da rua de Costa Cabral, no Porto,  onde a minha mãe fazia uma boa parte das compras mensais.
O sr. Viegas – pensava eu - era uma pessoa pouco simpática, mas generosa. Todas as semanas passava por lá com mais quatro amigos, para comprar os “cromos da bola”. Às vezes, quando saía da escola sozinho, passava pela mercearia que distava escassos metros. Entrava, perguntava se a minha mãe estava lá e o sr Viegas, fingindo não perceber o meu estratagema, metia a mão numa daquelas caixas de vidro onde guardava os rebuçados e oferecia-me uma mão cheia deles. Melhor: no princípio era assim, mas quando eu passei a fazer a visita semanalmente, o sr. Viegas começou gradualmente a diminuir a oferta, até chegar o dia em que pegou em dois rebuçados, estendeu-mos e disse:
- Não voltes cá tão depressa, porque a vida está má. Se quiseres rebuçados, pede à mãezinha que os compre.
Determinado, recusei os rebuçados. Sem uma palavra saí da mercearia encanitado com a prédica e cheguei a casa cabisbaixo e carrancudo, originando de imediato um bombardeamento de perguntas sobre as causas da má disposição que, perante a minha recusa em responder, a minha mãe entendeu atribuir a mau comportamento na escola, ou briga com algum colega. 
Devia ter-me calado e deixá-la convencida de que acertara no vaticínio, mas acabei por confessar o meu procedimento- que se arrastava há alguns meses - e contar a reacção do sr. Viegas naquele dia, que me deixara envergonhado e ofendido.
Para minha surpresa, em vez de receber o apoio da minha mãe, ouvi uma forte reprimenda e fui proibido de ir brincar, nessa tarde, para o jardim. Peguei nos meus carrinhos da Dinky Toys, refugiei-me na sala onde devia estudar e fazer os trabalhos de casa e, inconformado com a impossibilidade da competição diária com os meus primos, organizei corridas solitárias, à volta do tapete da sala, onde Juan Manuel Fangio ganhava sempre a Stirling Moss. Aprendi, nessa tarde, a fazer batota. Para garantir a vitória de Fangio, despistava propositadamente todos os adversários que ameaçavam impedir o sucesso do meu ídolo.
À noite, depois do jantar, o meu pai chamou-me ao seu escritório. A minha mãe tinha-lhe contado o meu pecado e tive de ouvir nova reprimenda, seguida de ameaça de medidas mais drásticas, se voltasse a visitar o sr. Viegas, para lhe pedir guloseimas. Bem insisti que nunca pedia nada, ele é que me dava, mas de nada valeu a minha argumentação.
No dia seguinte, quando cheguei à escola, os colegas com quem repartia a oferenda semanal vieram ter comigo, na expectativa de receber o seu quinhão. Contei-lhes o que se tinha passado. Tão descoroçoados quanto eu, os meus amigos fizeram uma proposta de boicote à mercearia do sr. Viegas. Ninguém mais iria lá comprar “os cromos da bola”, passaríamos a fazer a compra na recentemente aberta mercearia do sr. Óscar.
Assim foi. O Viegas perdia cinco clientes que, de uma assentada, transferiam a sua semanada para as mãos do sr. Óscar, em troca dos “cromos da bola”. Quando íamos comprar os cromos, ficávamos nas imediações da mercearia abrindo nervosamente as carteiras de cromos, na esperança de encontrar o carimbado. Depois da decepção reuníamo-nos para fazer as trocas dos repetidos, em animados leilões.
Um dia, durante uma destas operações, ouvimos algumas empregadas domésticas ( na altura chamavam-lhes criadas) conversar animadamente sobre a mercearia do sr.Óscar. Estavam encantadas com os seus dotes físicos e comparavam a sua delicadeza com a arrogância do sr. Viegas. Uma delas queixava-se que sempre que lá ia ele tentava apalpá-la, outra afirmava peremptoriamente que ele era um ladrão. Roubava no peso do fiambre e em tudo o que podia, enganava-se nas contas sempre a seu favor, mas para as patroas era só mesuras e vénias. “ E depois, no Natal, oferece-lhes sempre uma caixinha de bolachas e outra de bombons e assim as vai enganando”- alvitrou uma anafada. Outra, exaltada, garantia que tinha sido despedida por causa do sr Viegas:
“ Um dia, quando ele começou com os avanços dei-lhe uma chapada. No dia seguinte, foi dizer à minha patroa para ter cuidado comigo, porque sempre que ela estava fora de casa, eu metia um homem lá em casa. Chorei de raiva, porque a senhora não acreditou em mim e despediu-me. Estive um mês na Casa das Zitas* até encontrar outro emprego, porque a patroa nunca me passou uma carta de recomendação e dizia a toda a gente que eu era uma desavergonhada”.
 Em uníssono, lamentavam-se das patroas que não lhes davam ouvidos sobre as virtudes do sr. Óscar, encantadas que andavam com as mesuras do sr. Viegas e desconfiadas quanto às qualidades que elas exaltavam ao proprietário do novo estabelecimento.
Selámos um acordo secreto. Iríamos apoiar as criadas e convencer as nossas mães que o sr. Viegas era um ladrão e o sr. Óscar um homem muito honesto. Todos os dias encontrávamos um pretexto para convencer as nossas mães a trocar o sr. Viegas pelo sr. Óscar que, quando íamos lá comprar as cadernetas de cromos nos oferecia sempre uma guloseima.Não posso agora afiançar se a nossa estratégia deu resultado. Em relação à minha mãe, lembro-me que ela apenas trocou o sr. Viegas pelo sr. Óscar, quando eu já andava no liceu. A causa foi uma caixa de bombons estragados que ele lhe ofereceu num Natal. Anos mais tarde, quando o sr. Óscar já era o fornecedor de lá de casa, a mercearia fechou. O sr. Óscar foi preso por vender produtos adulterados!


Neste momento, muitos leitores já terão perguntado, enfadados, o que tem o título deste post a ver com  esta história. Sem mais delongas, passo a explicar.
Quando Maria Luís Albuquerque  foi ocupar o posto deixado vago por Gaspar, a comunicação social ( nomeadamente a económica) não se cansou de veicular a mensagem que o governo "vendeu" às redacções: é uma pessoa competente, justa e honesta. 
Não resistiu muito tempo a imagem construída pela imprensa. O caso dos swaps foi a primeira prova de fogo.  Marilu chumbou rotundamente, deixando perceber que é um Pinóquio de saias.
Em apenas um ano fartou-se de acumular mentiras, que a comunicação social, complacente, foi sempre desvalorizando.
Nem mesmo a biografia da ministra das finanças publicada no Expresso, que arrasa por completo a sua imagem, teve a repercussão que teria se, durante o governo de Sócrates, coisa idêntica sobre um qualquer ministro tivesse sido dada à estampa.
Além de aldrabona, Marilú revela uma frieza desumana perante as medidas de austeridade. Quando diz que  o maior corte tem sido feito pelo lado da despesa e não dos salários está a ser trapaceira. Qualquer funcionário público sabe que isso não é verdade.
Maria Luís Albuquerque é como o sr. Viegas. Lixa os trabalhadores, enquanto distribui véneas ao patronato. Nunca lhe compraria uma caderneta de cromos!
Há quem defenda que- apesar de ser loira oxigenada- é bem parecida como o sr. Óscar e até talvez  suscite muitos suspiros das sopeiras de serviço que a  apaparicam nalguns blogs, mas o mais provável é que o seu fim seja igual ao do sr. Óscar. Está a vender produtos adulterados e fora de prazo, que garante serem de óptima qualidade. Um dia vão fechar-lhe a loja. Se não for a ASAE, será a justiça popular que, a também loira de contrafacção, Paula Teixeira da Cruz parece querer implantar em Portugal.
Mas, se numa mercearia enganar o cliente é inadmissível, muito pior é na farmácia, de que Passos Coelho se proclama proprietário. Avia-nos receitas de placebos, dando garantias de acabar com a doença, mas as dores e os sintomas persistem, porque os medicamentos que nos vende apenas servem para enriquecer os laboratórios.
É urgente e encontrar uma alternativa às mercearias e farmácias geridas por gente sem  ética. Não queremos as mercearias  Marilú, nem as farmácias Coelho. E, muito menos, os hipermercados Coelho & Portas.
 Chegou a altura de voltar a dar crédito às cooperativas de consumo. Porque só essas são do Povo.