quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Façam as vossas apostas

Qual vai ser a decisão dos juízes do Tribunal Constitucional sobre o corte nas pensões e nos salários dos funcionários públicos?
1- Chumbam as duas
X- Chumbam uma e deixam passar outra
2- Deixam passar as duas

Aceitam-se apostas até às 12 horas. 

Uma rádio longe demais


Foto: Global Imagens

Por estes dias, a blogosfera e as redes sociais parecem um obituário, tantas são as referências às mortes de Robin Williams, Lauren Bacall ou Emídio Rangel ( Doris Graça Dias, falecida hoje, tem poucas referências)
Só costumo escrever no CR sobre óbitos de amigos, mas hoje abro uma excepção.  Não era amigo de Emídio Rangel mas não ficaria bem comigo, se não destacasse aqui o importante papel que desempenhou na comunicação social portuguesa. 

Em 1988, eu vivia a mais de 15 mil quilómetros de Lisboa, mas a notícia da criação de uma nova estação de rádio que estava a fazer furor em Portugal, chegou lá com celeridade.  Um grupo de jornalistas  da rádio, que tinha criado uma cooperativa de informação em 1981, fundara a TSF- Rádio Jornal. Conhecia alguns, que tinham trabalhado no irrepetível  semanário "O Jornal", mas de Emídio Rangel  nada sabia.
A mistura das palavras “cooperativa” e “jornalismo” fez-me tilintar campainhas e procurei saber mais sobre a nova rádio. ( Na altura ainda não havia Internet, as redes sociais eram de carne e osso e foi assim que  conheci melhor o projecto)
“Uma rádio dedicada só à informação”? Torci o nariz.  Depois, lembrei-me que quando- uns anos antes-  Ted Turner criou a CNN ninguém acreditava no projecto e, depreciativamente, até lhe chamaram Chicken Noodle Network. Meses mais tarde, ao ver em directo, pela CNN o que se estava a passar em Tiananmen, agradeci a Ted Turner ter levado avante  "a ideia maluca".
A TSF viria a tornar-se um sucesso ímpar no panorama da rádio em Portugal. “Tudo o que se passa(va) passa(va) na TSF” e Emídio Rangel foi, ao que consta, o mais entusiasta e principal responsável  pelo êxito. Por isso lhe presto aqui a minha homenagem.
Goste-se ou não, é indesmentível que  contribuiu de forma decisiva para uma nova forma de fazer jornalismo e de “ver” as notícias e o mundo através da rádio. Incómodo, irrequieto, irreverente, inovador, polémico e competente, via o jornalismo como um processo dinâmico em busca da notícia e da verdade.   Desgostava-o  a intrusão do Portugal Sentado na vida dos jornalistas. Nunca se conformou com o jornalismo reduzido ao exíguo espaço  das redacções.
A reportagem era a sua paixão e com uma delas venceu  um prémio Gazeta:  a vida na vila de Ereira, isolada durante o Inverno.  A viagem ao país profundo é uma marca que perdura na TSF.
Trocou a TSF ( rádio)  pela SIC (TV) em 1992 e lá deixou igualmente a sua marca. Consciente do poder da comunicação social, disse um dia que seria capaz de “vender um PR como se vende um sabonete”.  Muitos o criticaram, mas Emídio Rangel -  que também foi vendedor de enciclopédias quando  veio para Portugal- sabia do que estava a falar. O futuro viria a dar-lhe razão.

Portugal:um caso de sucesso

No último domingo ouvi Marcelo Rebelo de Sousa dizer que o governo ia ter boas notícias esta semana, com a confirmação do crescimento da economia. O professor não tem os dons de vidente do Marques  meia leca Mendes:
" Portugal com sexta maior descida da produção industrial na UE"

Pedro e o(s) Lobo(s)



Julho de 2013 começou com uma birrinha de Paulo Portas que ia desfazendo a coligação. Os juros da dívida pública dispararam. Pânico! Coelho puxou as orelhas ao ministro de coisa nenhuma e abriu uma embalagem do Serenal para políticos: ofereceu-lhe um tacho, num gabinete com vista para o Jardim Zoológico e convidou para o governo Pires de Lima, para fazer de caniche junto do parceiro da coligação.
 Portas continuou sem fazer coisa nenhuma mas, fosse pelo efeito do Serenal, fosse pelo contacto com os animais, acalmou e não fez mais ondas. 
Assitiu-se a uma reacção pavloviana dos mercados:os fiéis amigos mantinham-se no poder, os juros baixaram.
Durante um ano Pedro e a sua alcateia de lobos fizeram várias advertências aos juízes do TC: se chumbassem as suas leis viria o caos, a retoma seria interrompida , os portugueses obrigados a fazer mais sacrifícios e todo o esforço do governo iria por água abaixo.  
Surpresa! O TC chumbou vários diplomas que aumentavam a austeridade e os juros continuaram a baixar...
Andavam as hostes coligadas em grande euforia  anunciando amanhãs que cantam, uma retoma sem precedentes, um crescimento fenomenal, quando rebentou o escândalo BES. 
" Não se preocupem, portugueses! Nunca vos exigiremos que paguem os erros de gestão dos privados"- vociferava Pedro, enquanto passava a mão pela melena para disfarçar a calvície.
No dia seguinte  o sr. Silva - o moço de recados de S. Bento-  foi interceptado por uma câmara de televisão entre duas entregas e logo se apressou a esclarecer:
"O BES? É um banco sólido. Os portugueses podem estar descansados".
E ambos foram a banhos para o Algarve.
Dias depois, enquanto o BES se afundava e a cotação das acções era suspensa, Pedro telefonou ao meia leca e deu-lhe a táctica para o serão de sábado na SIC. Como sempre, saiu-se na perfeição no desempenho do papel de vidente.
No dia seguinte, confirmava-se o estouro do BES. Os juros da dívida voltaram a subir. A ameaça de contágio pairou no ar e a necessidade de um segundo resgate chegou a ser ventilada.
Entre dois mergulhos na Manta Rota, Pedro telefonou ao capanga Montenegro a dar instruções.
" Diz às televisões que se o TC chumbar os cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões dos reformados, desamparamos a loja e vamos para eleições antecipadas".
No Palácio Ratton, os juízes ouviram o recado. Resta agora saber quantos vão acreditar na história do Pedro e o Lobo e quantos se vão lembrar que a cada chumbo do TC às medidas de austeridade, correspondeu uma descida dos juros da dívida pública. Amanhã saberemos a resposta.
Em tempo: Apesar de estar em férias, Pedro percebeu o erro de mandar Montenegro fazer ameaças ( ou alguém da cor, no palácio Ratton, lhe terá telefonado a dizer-lhe que tinha cometido um erro grave?) e, dois dias depois, Marco António Costa e Miguel Macedo vieram negar qualquer possibilidade de demissão do governo, se o TC chumbar os cortes.
Seguro respirou de alívio e voltou a desferir ataques torpes a António Costa.