Conheci Estela de Carlotto em 1995. Antes de lhe dizer que a
queria entrevistar, observei-a numa tarde
de quinta-feira, durante a concentração semanal das (ainda) Madres da Plaza de
Mayo. Cativou-me a sua expressão. Percebia-se, mais do que em qualquer outra
das mulheres argentinas que faziam a sua habitual vigília das quintas- feiras , uma determinação singular.
Viria a confirmá-lo durante a entrevista que lhe fiz no café
Tortoni, um dos locais onde as Madres de Mayo
se começaram a reunir, antes de iniciarem as vigílias em frente à Casa Rosada.
Estava determinada
a encontrar o seu neto e lutaria por isso
enquanto as forças lhe permitissem porque “devia isso à filha”. Embora lamentasse a indiferença internacional
pela luta das Madres de Mayo, tinha uma confiança cega de que não morreria sem encontrar o seu neto.
No final da entrevista,Estela de Carlotto perguntou-me se eu não andava também à procura de alguém.
Fiquei surpreendido com a perspicácia, mas aliviado por ter
sido ela a dar-me um pretexto para lhe contar a minha história, que ouviu com
toda a atenção. Pedindo elementos e
recolhendo dados. Foi ela que me deu a conhecer o livro de Lawrence Thornton “Aconteceu
na Argentina” e, no final, agarrando-me
no braço com força, afiançou:
- Vou encontrar o meu neto. Tenha Fé e não desista. Também
encontrará quem procura.
Na terça feira, ainda antes de a comunicação social divulgar
a notícia on line, a Laura telefonou –me
a dizer que uma juíza, desrespeitando as
regras sempre seguidas nestes casos, divulgara
publicamente o aparecimento do neto de Estela. ( Lá, como cá, há sempre juízes prontos a quebrar as regras e proporcionar fugas de informação para saciar a sede dos
meios de comunicação social )
Foi o 114º neto das Abuelas da Plaza de Mayo a ser resgatado pelas famílias que a ditadura infame lhes roubou.
Vi as imagens na televisão e descortinei-lhe a mesma serenidade. O mesmo sorriso , mas mais aberto. Uma felicidade imensa, que me senti a partilhar com a mais famosa "abuela" da América Latina.
Estela de Carlotto encontrou o neto mas, tenho a certeza, não será por isso que abandonará a luta a que dedicou uma boa parte da sua vida. Continuará a fazer as vigílias de quinta-feira, ao lado de outras mulheres que mantêm a esperança de reencontrar os seus familiares.
Espero reencontrá-la na minha próxima ida a Buenos Aires. Numa tarde de quinta-feira, no mesmo elugar onde a vi pela primeira vez. Depois, talvez, ainda possa brindar com ela no Tortoni. Sem milongas, mas com umas deliciosas tapas.