segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A sensibilidade dos juizes

Não vi a homilia de Marcelo neste domingo mas, a avaliar por esta notícia do DN,  só há duas hipóteses: ou o professor tem informação privilegiada junto do TC e já sabe que os diplomas vão passar pelo crivo da constitucionalidade, ou acredita que os juízes  são sensíveis às cunhas do PR e não vão causar problemas.
Num caso, ou noutro, não são boas notícias. Principalmente, depois de sabermos que as verbas retiradas a funcionários públicos e reformados vão parar ao BES

Não há homens bons e homens maus


A semana começou mal para mim. Quando abri o e-mail, a mensagem de um amigo trazia acoplada esta imagem de um miúdo australiano a exibir a cabeça de um soldado sírio decapitado. 
Fiquei de tal modo transtornado que vomitei o pequeno almoço,- o que não me acontecia desde os tempos de miúdo. 
Pela hora do almoço,ainda mal refeito, encontro a história de Kokito. Desta vez já não vomito ( felizmente  ainda não tinha almoçado). Aproveito apenas para reflectir sobre este mundo de barbárie, primitivo e tosco, que está muito para além deste mundo ocidental  civilizado onde não se decapitam pessoas, mas se condenam milhões à humilhação de uma vida abaixo do limiar de pobreza. 
São duas formas diferentes de barbárie. A de Kokito, é religiosa. A do mundo ocidental é o mercado. Ambas têm um ponto em comum. O desprezo pela condição humana. A diferença- como nas faltas dentro da área, num jogo de futebol, está na intensidade. Em minha opinião, ambas são merecedoras de cartão vermelho ao infractor.
Não há homens bons e maus. Há homens. Uns alucinados por causas, religiões ou ideologias que lhes toldam o discernimento, em nome das quais cometem barbaridades contra outros homens seus iguais, que exibem como troféus. Apenas porque são incapazes de fazer vingar as suas causas  pela força da razão. O Ocidente está cheio de exemplos de fanáticos que entregam os seus povos em bandeja aos homens que controlam os mercados. E isso é que é uma grande merda!

Chau, Abu!


Conheci Estela de Carlotto em 1995. Antes de lhe dizer que a queria entrevistar, observei-a numa  tarde de quinta-feira, durante a concentração semanal das (ainda) Madres da Plaza de Mayo. Cativou-me a sua expressão. Percebia-se, mais do que em qualquer outra das mulheres argentinas que faziam a sua habitual vigília das quintas- feiras , uma determinação singular.
Viria a confirmá-lo durante a entrevista que lhe fiz no café Tortoni, um dos locais onde as Madres de Mayo  se começaram a reunir, antes de  iniciarem as vigílias em frente à Casa Rosada.
  Estava determinada a encontrar o seu neto e lutaria por isso  enquanto as forças lhe permitissem  porque “devia isso à filha”.  Embora lamentasse a indiferença internacional pela luta das Madres de Mayo, tinha uma confiança cega de que não morreria  sem encontrar o seu neto.
No final da entrevista,Estela de Carlotto  perguntou-me se eu  não andava também à procura de alguém.
Fiquei surpreendido com a perspicácia, mas aliviado por ter sido ela a dar-me um pretexto para lhe contar a minha história, que ouviu com toda a atenção.  Pedindo elementos e recolhendo dados. Foi ela que me deu a conhecer o livro de Lawrence Thornton “Aconteceu na Argentina”  e, no final, agarrando-me no braço com força, afiançou:
- Vou encontrar o meu neto. Tenha Fé e não desista. Também encontrará quem procura.
Na terça feira, ainda antes de a comunicação social divulgar a notícia on line, a Laura  telefonou –me a dizer que uma juíza, desrespeitando  as regras sempre seguidas nestes casos,  divulgara publicamente o aparecimento do neto de Estela. ( Lá, como cá, há sempre juízes prontos a  quebrar as regras e proporcionar  fugas de informação para saciar a sede dos meios de comunicação social )
Foi o 114º neto das Abuelas da Plaza de Mayo a ser resgatado pelas famílias que a ditadura infame lhes roubou.
Vi as imagens na televisão e descortinei-lhe a mesma serenidade. O  mesmo sorriso , mas mais aberto. Uma felicidade imensa, que me senti a partilhar com a mais famosa "abuela" da América Latina.
Estela de Carlotto encontrou o neto mas, tenho a certeza, não será por isso que abandonará a luta a que dedicou uma boa parte da sua vida. Continuará a fazer as vigílias de quinta-feira, ao lado de outras mulheres que mantêm a esperança de reencontrar os seus familiares.
 Espero reencontrá-la na minha próxima ida a Buenos Aires. Numa tarde de quinta-feira, no mesmo elugar onde a vi pela primeira vez. Depois,  talvez, ainda possa brindar com ela no Tortoni. Sem milongas, mas com umas deliciosas tapas.