terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Açoitem-me!

O meu pai  educou-me para ser feliz e não para ser  rico. É uma dívida de gratidão que tenho para com ele. A educação que me deu não me permitiu acumular uma conta bancária choruda, mas deu-me a hipótese de criar  o meu próprio banco. Um banco onde não se pagam juros, mas se aforram recordações. É um banco de imagens e de memórias dos 98 países que visitei, dos sete onde vivi tempo suficiente para criar raízes.
É certo que o meu pai nunca me disse que deveria aforrar para a velhice. (Tal como eu, devia  confiar nas promessas dos governos e nunca lhe terá passado pela cabeça que, no dia de receber a reforma nos termos acordados com o Estado  há 41 anos, viesse um grupo de ladrões, democraticamente eleitos para governar o país, dizer " Não pagamos!").Se alguma vez mo tivesse dito, o mais provável é que eu nunca tivesse ousado fazer da minha vida uma aventura para ser feliz. Talvez tivesse uma conta bancária choruda, mas não tinha o meu banco de imagens tão enriquecido de memórias inolvidáveis, que nenhum dinheiro pode pagar.  O meu pai não me avisou para ser prudente e me precaver para a velhice.(Nem  precisava, porque a morte prematura de três dos meus irmãos fez-me perceber melhor a transitoriedade  da vida e ensinou-me  a relativizar a importância dos bens materiais). Apenas me disse que o mais importante na vida é ser feliz.  Estou-lhe grato por isso. 
Hoje, infelizmente,  muitos jovens - quiçá a maioria- não poderão dizer o mesmo. Vivem para acumular dinheiro e olham para os mais velhos como um empecilho descartável. Uma herançazita vinha mesmo a calhar, mas o velho nunca mais morre... Os velhos deixaram de ser fonte inspiradora para os jovens, exemplo de sabedoria, passaram a  ser vistos como um entrave ao progresso.
Claro que isto não tem nada a ver com um sistema educativo que despreza a solidariedade e promove o individualismo, nem com a formação adquirida nas Jotas partidárias, nem com a desestruturação familiar e, muito menos,  com a ascensão do jovem ao centro nuclear da família outrora ocupado pelo "pater familiae". Tampouco tem a ver com a inversão da pirâmide da sabedoria. A minha geração olhava para os pais e avós e via neles exemplos de saber; os jovens de hoje são a sabedoria. Olham para os pais e avós com condescendência- às vezes até com carinho- mas no íntimo pensam Coitados! Estão velhos... não se adaptaram  à vida moderna. Vivem no mundo deles e não percebem nada do que se passa cá fora!
No meu tempo,  os jovens olhavam para os pais como um exemplo a seguir. Agora, são os pais que devem seguir o exemplo dos filhos, para não serem  vistos  como botas de elástico ou caretas. 
Talvez os jovens de hoje sejam mais felizes do que eu mas, muitos deles, nunca conhecerão o prazer de comprar um carro, uma casa, ou fazer uma viagem de sonho com  dinheiro ganho à custa do seu trabalho, porque desde cedo se habituaram a  explorar a separação dos pais para os chantagearem  com exigências, que trocam por afectos plastificados de circunstância.
Nunca perceberão o prazer de uma conquista, porque nasceram e cresceram  habituados a exigir.
Nunca conhecerão o significado da palavra Liberdade porque, desde cedo, na Universidade, nas Jotas, nos locais de trabalho, lhes ensinaram que vergar a espinha perante o superior, é o caminho para o sucesso.
Quando estes jovens forem velhos, talvez sejam - como eu- surpreendidos pela evolução dos tempos. A diferença é que, muito provavelmente, a maioria não terá o prazer de sentir  uma dívida de gratidão pela educação que receberam.

Dura lex, sed lex!

Através dos comentários de alguns leitores, apercebi-me que se passava alguma coisa de anormal com as praxes académicas em Portugal. Fui tentar saber o que se passou. Pelo que li, parece que há suspeitas de que os seis mortos na praia do Meco terão sido vítima das praxes na Lusófona, mas que a direcção daquela Universidade  assobia para o ar como se não tivesse nada a ver com o assunto.
Li também que um professor da Universidade do Minho terá sido praxado mas, reconheço, não consegui perceber bem o que se passou.
De uma coisa, no entanto, tenho a certeza. Há tempos vi um documentário no Doc Lisboa sobre a praxe nas universidades portuguesas. Quando acabei de ver senti asco. Se estes jovens são o futuro, prefiro que Portugal não tenha futuro. Aqueles jovens são fascistas  mas- admito- a maioria deles não sabe. As práticas que presenciei indiciam actividades que, noutro contexto, seriam consideradas criminosas. Por isso, pergunto: se as praxes configuram práticas fora da lei, por que razão os autores não são julgados e ( se for caso disso) condenados?
Ah pois, a juventude, o nosso futuro, a garantia de um Portugal moderno. Deve ser isso. Eu é que, certamente, estou velho e não consigo acompanhar a evolução dos tempos. Resta-me, pois , pedir desculpa pela minha tacanhez. Acontece, porém, que nunca gostei de praxes. Feitios...