segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Martinha no muro de Berlim





Passei o fim de semana preocupada. Na sexta-feira a professora mandou-nos fazer uma redação sobre os 25 anos da queda do muro de Berlim e eu  fiquei em pânico, porque nem sequer sei que muro é esse. Só conhecia o muro que o meu avô Ching  mandou fazer lá em casa para evitar que os galos abusassem das galinhas sempre que lhes dava na real gana. 
Assim, tive de perguntar à minha mamã o que era isso do muro de Berlim e porque é que tinha caído, Embora tivesse uma ideia de que foi problema de um construtor civil que andou a poupar no cimento, estava  enganada e a minha mamã fez questão em explicar-me tudo aquilo que sabia. Acho que na segunda-feira, quando ler a minha redação à professora ela vai gostar.

Faz hoje 25 anos que caiu o muro de Berlim.  A minha mamã diz que foi uma coisa muito boa, porque o muro separava os  bons dos maus e depois de cair, puderam todos misturar-se. Hoje já não sabemos de que lado estão os bons e os maus, mas a minha mamã não se preocupa com isso porque- diz ela- é tudo uma questão de perspectiva. 
Eu perguntei à mamã se o tipo que vai lá  a casa às vezes, se mete com ela no quarto, lhe bate quando está bêbado e a obriga a dar-lhe o dinheiro que ela tem na carteira, era mau e vivia do outro lado do muro antes dele cair, mas a mamã deu-me uma estalada e obrigou-me a ir para a cama sem comer.  
Como somos pobres e a minha mamã é sovina não temos Internet, por isso telefonei ao Carlos a pedir ajuda. O Carlos mandou-me ler um livro de história  que me deu nos anos e eu, desconfiada, porque os livros que o Carlos me oferece são todos muito chatos, não tive outro remédio senão seguir a sugestão dele. 
Pelo que percebi, quando o muro estava de pé quem mandava na Europa era a França  mas, depois de uns mandriões quaisquer o terem deitado abaixo, a Alemanha uniu-se e passou ela a mandar, porque uma bruxa má  tomou conta do Bundestag, ou lá como é que aquilo se chama e decidiu que ia tomar conta da Europa. Para a ajudar chamou um português chamado Zé Manel ( não é aquele motorista de táxi do Benfica que aparecia nos programas do Herman, mas é parecido só lhe falta o bigode) que , segundo diz o livro, tem dons sobrenaturais. 
A Bruxa Má  ofereceu-lhe uma casa em Bruxelas e prometeu-lhe um colar se ele a ajudasse a encher os cofres alemães.
Diz o autor do livro, cujo nome não me recordo, que ele conseguia ver armas que destruíam tudo á sua volta, que ninguém mais conseguia ver. Essa sua capacidade sobrenatural foi tão benéfica para o mundo, que desencadeou guerras por toda a parte, depois dele convencer os americanos, os ingleses e um senhor espanhol chamado Azno que deviam atacar o Iraque, para salvar o mundo dos maus. 
Os resultados foram muito bons. Veio a primavera árabe e os bons expulsaram os maus mas, por razões que não consegui compreender, esses bons transformaram-se em maus, proclamaram o estado islâmico e dão bordoada em tudo quanto mexe. 
Parece que foi uma boa contratação, porque o Zé Manel conseguiu mesmo que a Alemanha vencesse a França e tomasse conta não só da Europa, mas também de Portugal, um país africano governado por um descendente de Gungunhana, que descobriu uma nova forma de escravatura, criada através de uma máquina chamada Austeridade que transfere o dinheiro dos pobres para os ricos.
Dizem que isso é uma coisa muito boa, porque o mundo só será justo quando os ricos governarem o mundo e os pobres obedecerem. Nessa altura haverá justiça e pleno emprego, porque os pobres precisarão tanto de trabalhar, que já nem discutem salários. Trabalham apenas para sobreviver.
E foi assim que o muro de Berlim acabou com os maus e deu o poder aos bons. Parece que os russos não estão de acordo, mas isso não percebi muito bem e também não me parece que seja muito importante para perceber a importância da queda do muro de Berlim, para o progresso da Humanidade.  
Eu só não consigo perceber uma coisa: se o muro de Berlim era uma coisa tão má, para que é que depois de deitarem aquele abaixo, construíram tantos outros por esse mundo fora? 

5 comentários:

  1. Pobre Marta...(sem 'inha' que o mentor da redacção tanto abomina....

    A Sra. Professora deve tê-la mandado entregar a dita à pessoa que lhe emprestou ou recomendou a leitura do livro - que pôs a cabeça da pobre criança a precisar de consulta pedopsiquiatra - .

    Até eu, a certo ponto, apanhei um susto quando a piquena falou no marmanjo que vai lá a casa, bate na mãe e lhe tira o dinheiro da carteira.

    Ah, o avô Ching(?) devia ter explicado à Marta que os muros que agora existem, não são como o que ele mandou construir e como o que caiu em Berlim há 25 anos.
    São muros invisíveis e, por isso, intransponíveis.

    Assim a modos como aquele machado que não corta a raiz do pensamento, mas também não derruba muros que gente muito bem intencionada não gosta, e fala, fala, mas sempre que pode malha nos que não têm culpa de nada.

    Diz que são uma espécie de TUGAS!

    Janita

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  2. Tens que dizer à Martinha que o muro era mesmo uma coisa má. Pelo menos, eu acho.

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  3. O muro que Israel construiu na Palestina é tão mau como o muro de Berlim, só que continua de pé e até pode continuar a crescer. Vergonha!

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  4. Mas é bom que a Martinha perceba que o muro era uma coisa muito má.
    Que não justifica as outras coisas muito más nem com elas se confunde.

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