segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Quem quer ser milionário?




“Portugal cria  10 mil novos  milionários por ano”
( Diário Económico)

A notícia deixou-me boquiaberto e curioso.  Pelo número, mas também pelo facto de serem milionários de criação. Provavelmente criados num viveiro, cuja localização o DE não divulga,para afastar a concorrência. E faz bem, para evitar tumultos. Já imaginaram o que era se 10 milhões de portugueses se postassem à porta do viveiro a reclamar um período de cativeiro, de modo a saírem de lá milionários? Passaríamos a ser conhecidos, no mundo inteiro, pelo país dos excêntricos. Talvez não fosse mau como cartaz turístico, mas eu detesto multidões.
O DE esclarece que, para além dos 10777 milionários criados este ano ( pessoas com uma riqueza superior a 1 milhão de dólares),  Portugal criou mais 10395 em 2013.  Quer isto dizer que, em apenas dois anos, este governo criou 30% do total de milionários portugueses. E pensar que há por aí uns energúmenos a dizer que este governo lançou o país na pobreza!
Sou jornalista e, como tal, curioso, por isso fui tentar perceber como foi possível, num país em crise, criar 21 mil milionários em dois anos. ( Em 2009 havia “apenas” 11 mil milionários, o que significa que em cinco anos o número de milionários  aumentou quase sete vezes- são actualmente cerca de 75 mil. )
Tanto quanto pude apurar, desde a II Guerra Mundial  que não se registava um tão elevado número de milionários feitos à pressa. Mas, nessa altura,  havia uma explicação: o volfrâmio crescia como cogumelos debaixo do chão e alemães e ingleses disputavam-no a peso de ouro. Uma tonelada de volfrâmio valia 6000 libras no mercado aberto e muito mais no mercado negro. Nesses anos loucos a febre era tal, que se alguém encontrasse um calhau de volfrâmio na soleira da porta, logo começava a cavar os alicerces ou planeava mesmo, deitar a casa abaixo.
Não é brincadeira, não! Por causa do volfrâmio, destruíram-se igrejas e mortos foram desalojados de cemitérios- relata a imprensa da época.
Nos anos 80 e 90 do século passado também nasceram bastantes milionários em Portugal, graças às verbas provenientes da UE. Nesses anos, muita gente transformou verbas do FSE ( destinadas à formação)em jeeps e carros de alta cilindrada, e verbas para agricultura fizeram florescer belas mansões com piscina, mas nada comparável ao enriquecimento proporcionado pelo volfrâmio. 
As verbas europeias “secaram” e por estes anos de crise não foi descoberto- que se saiba- nenhum produto capaz de rivalizar com o volfrâmio, pelo que a razão do enriquecimento de tanta gente, em tão pouco tempo, deve ter  alguma explicação pouco perceptível ao comum dos mortais. 
Eu sei que agora  há o Euromilhões, mas o número de milionários portugueses “criados” por essa via é tão ínfimo, que se perde na estatística. Sei,também, que a distribuição é um negócio de milhões, mas apenas acessível a meia dúzia de portugueses.  E quanto aos banqueiros, também não há por aí Salgados, Jardins Gonçalves e Pequepês a dar com um pau. Além disso, ser banqueiro é uma profissão de risco. Que o diga o Oliveira e Costa, coitado, que andou anos a trabalhar num banco e agora está na miséria!
Por outro lado, se o DE escreve “criação” de milionários, isso significa que eles são produzidos em série num qualquer lugar. Não sendo nos supermercados, nos bancos, nem na Santa Casa, há-de ser em algum local mais recatado, não visível a olho nu pelo comum dos mortais.
Disse-me alguém habitualmente bem informado sobre estas coisas, que os principais viveiros se encontram em S. Bento e em Bruxelas.  Não acredito. Esses viveiros poderão ser responsáveis pela criação de algumas centenas de milionários, mas estamos a falar de milhares! 21 mil em apenas dois anos- relembro.
Eu não tenho nada contra os milionários mas,  saber que eles não nascem nas maternidades por desígnio da Natureza,   sendo  criados em viveiros artificiais cuja localização desconheço, chateia-me, pá. Fico com a ideia que também eu podia ser milionário e só não sou, porque me estão a esconder informação!
Se vivemos em democracia todos devíamos ter direito a saber “ como se cria um milionário”. E não me venham lá com essa treta de que é o trabalho que nos torna ricos  e outras histórias da carochinha, como a globalização, porque já sou crescido e não acredito em contos de fadas.
Certo, certo, é que a crise multiplicou exponencialmente o número de milionários em Portugal, pelo que não percebo a razão de todos quererem acabar com ela. Afinal, os números não mentem: a crise é uma oportunidade! Ora, se assim é, o melhor é prolongá-la durante mais uns anos, para  dar a possibilidade a todos os portugueses de se tornarem milionários.  Pelas minhas contas, à media 10 mil por ano, em 2114 todos os portugueses se  terão tornado milionários. Não vos parece uma boa notícia? É só esperarem mais um bocadinho, que a vossa vez vai chegar!
A única coisa que me preocupa é continuar sem saber onde se criam esses milionários. Vou ler o OE 2015 e reler os anteriores, porque tenho quase a certeza que vou lá encontrar algumas pistas preciosas.  
O que tenho a certeza que vou encontrar, é a explicação para o aumento da pobreza, para a fome que afecta muitos milhares de portugueses e a razão de 1 em cada 4 crianças estar em perigo de pobreza extrema.

7 comentários:

  1. Dolorosamente sarcástico!
    O último parágrafo diz tudo!

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  2. Respostas

    1. O TC limita-se a ver a aplicação dos princípios legais e quando faz uma auditoria não levanta o rabo para ir ver "in loco" o que se passa. pede apenas que tragam certos documentos, muitas vezes aleatoriamente, ou então só trazem o que querem, não têm gente capacitada para meter as mãos na massa (salvo seja). Hoje a sofisticação é muito grande e os boO TC lins foram-se todos embora, mas mesmo assim eram poucos. Faltava-lhes rodagem e capacidade técnica, não estando com isto a dizer que não são capazes de interpretar as leis, por isso condenaram uma ministra que pediu para lhe organizarem o arquivo legislativo do seu ministério, por "urgente necessidade de serviço", enquanto eu estive numa instituição que teve de fazer um concurso internacional (por causa do elevado montante) para adjudicar todos os seguros, de toda a espécie, a uma só entidade e no cadernos de encargos puseram apenas uma cláusula onde dizia que quem concorressem ao dito concurso ficava automaticamente notificado da baixa dos seguros. Só que se esqueceram de todos aqueles que não concorreram ( porque já sabiam (?) que ganharia aquele que oferecesse mais regalias extra concurso) e então no ano seguinte fartaram-se de pagar seguros em duplicado e foram os reles dos funcionários que tiveram de alertar e dar baixa a todos os outros e pagaram com autorização do vereador do pelouro. Mas fica tudo sempre em família.

      Anfitrite

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  3. Por causa do volfrâmio também muita gente morreu muito cedo e muita mulher foi ultrajada porque eram revistadas à saída, até nas suas entranhas (tipo Papillon) não trouxessem algum bocadinho dentro de si. Foram os dois únicos anos em que tivemos superavit nas contas públicas porque o botas, apoiavam uns e negociava com os outros às escondidas. Vendia aos alemães e aos ingleses, mas o povo esse continuou como sempre cada vez mais pobre, por isso é que tantos enriqueceram, até com a exportação de conservas de peixe. Na altura enriqueceram explorando o que havia, agora roubam com a especulação financeira e com o dinheiro que não existe. Quanto aos OE não é lá que vai tirar as suas dúvidas. Este além de ser ilegal porque tem receitas consignadas, também não usa o princípio da especificação. E quando a rubrica "Outras despesas" antigamente se limitava a uma verba residual, agora vai para lá quase tudo, sem especificarem a que se destina. Outra grande verba vai para "Os consumos intermédios", onde eles põem todas as despesas, com o trabalho que antigamente era feito pelos funcionários, agora é para disfarçar o pagamentos em "outsourcing" aos amigos advogados, banqueiros, economistas, pelos estudos e pareceres que pedem e que agora custam fortunas. Nas Receitas também há lá um saco azul que antigamente também era residual e para uma qualquer emergência, agora está lá tudo, dinheiro paradinho que até pode ser uma parte para um aumento de juros, ou para darem um bónus nas eleições. Se tivesse lá o Octávio Teixeira, nos anos anteriores, teria pedido uma explicação. mas agora tem sido apenas um discussão de varinas. Vamos lá a ver este ano. Mas eles desviam sempre a conversa e não dizem nada. Veja também este Decreto-lei 90/2011 de 25 de Julho, que foi quase a primeira coisa que esta quadrilha (quadriga, porque são quatro bestas que assinam, em vez de três), para poder vender tudo ao desbarato. Também seria muito fácil explicar a razão da extrema pobreza em que ficou tanta gente, pois milhares deles perderam até as suas casas e também os seus fiadores e continuarão a perder. Não vale a pena falar do desemprego e dos que já perderam direito ao subsídio. E, apesar de tudo isto a dívida já vai em 135% do PIB. Eu fico doente quando começo a falar nisto e vejo ignorantes a brincar com coisas sérias.
    Anfitrite

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  4. Carlosamigo

    Ridendo castigat mores mas é bom não abusar. Porém fica-te com esta: se encontrares o tal local, não digas a ninguém, só a mim; e lembra-te do Frei Luís de Sousa: Romeiro, romeiro, quem és tu? Ninguém...

    Deixe-me eu de brincadeiras: este pobre país está cada vez mais pobre. Os fdp (por extenso, filhos da puta) que estão em Belém e em São Bento quando "isto" acabar, vão acabar todos em Conselhos de Administração. Si non è vero, è bene trovato

    Abç

    Abç

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  5. Já tantas vezes afirmei que a crise está a afectar, e fortemente, alguns.
    Outros, uma minoria, estão a encher as carteira já de si bem recheadas

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