sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Não é com vinagre que se apanham moscas




Assinala-se hoje o Dia Internacional  para a Erradicação da Pobreza. 
Sabemos que nunca as desigualdades entre ricos e pobres foram tão gritantes em todo o mundo, mas  temos sobejas razões para nos envergonharmos  do sexto lugar que ocupamos no ranking dos países com maiores desigualdades  de rendimentos entre ricos e pobres, na União Europeia.
Há mais de mil milhões  de pessoas com fome e 200 milhões de desempregados em todo o mundo.
Em Portugal, em 2010, menos de uma em cada cinco crianças ( 18%) estava em risco de pobreza extrema. Este ano, graças às medidas de justiça social tomadas por este governo, a relação de risco aumentou  para mais de uma em cada quatro crianças (29,3%).  Concomitantemente, há mais  21 mil novos milionários  em Portugal nos últimos dois anos. Ou seja: em apenas dois anos o número de portugueses com um património líquido superior a um milhão de dólares, aumentou 30%.
Em Novembro de 2011, o Parlamento Europeu aprovou um documento estratégico de Combate à Pobreza, para o período 2014-2020, cujo principal objectivo é a redução,  em pelo menos um terço, do número de pobres. No primeiro ano deste período a pobreza aumentou em Portugal. Mas não há problema. Desde que cumpramos o défice, a UE aplaude e fecha os olhos  ao aumento das desigualdades sociais.
Portugal não é um caso isolado. Em países como a China ou a Índia, cujo desenvolvimento económico justifica a inclusão no grupo dos que mais têm crescido e vão continuar a crescer na próxima década, têm-se acentuado as desigualdades e cavado o fosso entre ricos e pobres. Esta realidade contraria, na prática, a tese dos que defendem ser o enriquecimento dos países, uma garantia de combate à pobreza e à exclusão. `
Se o enriquecimento dos países não se traduz numa diminuição da pobreza, se a globalização não conseguiu diminuir as desigualdades e se o Estado Social é incapaz de garantir por muito mais tempo o apoio aos cidadãos, chegou a altura de repensar tudo.
A pobreza resultante do modelo de desenvolvimento iníquo das sociedades modernas, quer a pobreza que ameaça afectar um número indiscriminado de velhos, apanhados de surpresa com a falência do Estado Social, incapaz de garantir as pensões de reforma que prometeu durante mais de 30 anos, são problemas que não podem ser ignorados.
Se o debate não se fizer, a Europa (e particularmente Portugal) irá enfrentar um gravíssimo problema.O aumento da expectativa de vida não pode significar diminuição da qualidade de vida. Voltar a olhar para os velhos como um estorvo é um retrocesso inaceitável, mas essa parece ser uma realidade incontornável, no dia  que hoje se assinala.
Dito isto, não posso deixar de manifestar a minha discordância com a proposta avançada por Henrique Pinto ( ex-presidente da Cais) de criminalização da pobreza.  Embora concorde com a necessidade de fiscalizar as verbas ( até ia mais longe, e proporia a fiscalização das receitas permitindo detectar o que fica pelo caminho), criminalizar a pobreza é uma proposta descabida. Não é com vinagre que se apanham moscas. 
Também não é com a exaltação da caridadezinha e do assistencialismo que se resolve o problema da pobreza estrutural. Nem com exemplos como este, apresentado pela TVI. Bem pelo contrário…

A erradicação da pobreza  tem de ser discutida em bases sérias. E isso só será possível com um governo que se preocupe com este problema.  Com o grupo de fariseus da hóstia que nos governa, tal discussão é impossível. 
Só as medidas  que promovam a justiça social podem combater a pobreza e as desigualdades. O resto é folclore de tias que adoram os pobrezinhos , mas preferem vê-los à distância para não lhes sentirem o cheiro.

11 comentários:

  1. "chegou a altura de repensar tudo"
    Repensemos, então

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  2. Para este conjunto de indivíduos que se arrogam de governantes o seu lema pode ser: dos pobres não reza a história!

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  3. ~ ~ Chegou o tempo de acções fortes, de peso! ~ ~

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  4. Carlos parabéns pelo seu artigo! Está muito bem escrito, levanta questões civilizacionais muito pertinentes e delicadas. Vou esmiuçar um pouco o seu artigo:

    «Há mais de mil milhões de pessoas com fome e 200 milhões de desempregados em todo o mundo».

    Infelizmente estes números até são capazes de pecar por defeito.

    «Se o enriquecimento dos países não se traduz numa diminuição da pobreza, se a globalização não conseguiu diminuir as desigualdades e se o Estado Social é incapaz de garantir por muito mais tempo o apoio aos cidadãos, chegou a altura de repensar tudo».

    A pobreza em todo o mundo até tem diminuído, mas mesmo assim, continua a ser vergonhosamente alta. Hoje em dia é inadmissível que em qualquer parte do globo, haja pessoas que não tem dinheiro sequer para comer.
    Igualmente preocupante são as desigualdades sociais que aumentaram em todo o lado. E tem razão, chegou altura de repensar tudo, o Estado social não pode acabar. Não é sustentável? Se foi até há bem pouco tempo, porque não é agora? E se não é? Então tem que se encontrar soluções para continuar a ser.
    São estas perguntas que tem que ser feitas, debatidas e respondidas.

    «criminalização da pobreza».

    Desculpem-me a linguagem. Mas que porra de proposta é esta?
    Se uma pessoa é pobre é porque tem pouco ou nenhum dinheiro. Em último caso cabe ao Estado acudir às pessoas para elas deixarem de ser pobres. É uma proposta descabida e sem qualquer sentido.

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    1. Fiquei com a ideia que o Senhor da Cais o queria dizer é que deveriam ser criminalizados os que não se importam com os pobres, vejamos: Apontou que o “país tem vindo a empobrecer muito”, principalmente entre as crianças e os mais idosos, aqueles “que deveriam ser os mais protegidos”, e que, por isso, deveria ser possível levar a tribunal os responsáveis por esse empobrecimento. 4º. parágrafo. Posso estar enganado, mas parece-me que pretende criminalizar todos os nossos governantes e mais a corja de mentirosos que lhes dão cobertura. Se lhe for possível elucide-me, por favor.
      D'Albano

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    2. Se for realmente assim, então isso é outra história e aí estarei de acordo.

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    3. Sr. Paulo Lisboa agradeço o seu comentário. Não conheço nem defendo o Sr. da Cais. Foi a minha leitura. Também gostaria que o Sr. Carlos Oliveira, que foi o autor do post se pronunciasse. Cordiais cumprimentos. D'Albano

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    4. Obviamente que a sua leitura está correcta, D'Albano. Peço desculpa por só hoje responder.
      Cumprimentos e obrigado pelos seus comentários

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  5. Paulo Lisboa:
    A criminalização pedida pelo ex-presidente da Cais não é no sentido de criminalizar os pobres, mas sim quem os condena à pobreza. Seguindo o link, isso é perceptível. Mesmo assim, discordo da proposta pois, como defendo logo no título, não é com vinagre que se apanham moscas

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  6. OK! Peço desculpa porque interpretei mal o Sr. da Cais, pensei que ele queria fazer uma daquelas propostas que existem nalguns países de por decreto-lei criminalizar a pobreza, estilo: «se és pobre não podes aparecer na rua». Como é óbvio sou contra isso.

    Sendo o que o Carlos diz, a proposta até podia ser interessante e fazer algum sentido, mas seria muito difícil aplica-la, já que não é fácil apurar todos os responsáveis pela pobreza dado o elevado número de pessoas com culpas no cartório. Seria uma lei morosa e de difícil aplicação. A pobreza combate-se de forma mais eficaz com outras medidas.

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