terça-feira, 7 de outubro de 2014

(Auto da) Barca do Inferno






O Cenário
A RTP Informação estreou ontem um programa os comentários são feitos exclusivamente por mulheres. A ideia é boa e o nome do programa (“A Barca do Inferno”) também  é feliz. O pior mesmo é a tripulação! 
Vamos por partes ( ou por Cenas, como o Gil Vicente):

Cena 1
( Entra o Sapateiro, presumivelmente dono da oficina)
Escolher  o Nilton para timoneiro de um programa sobre política, já me parece uma ideia um bocado abstrusa mas, o que não consegui mesmo perceber, foi a razão de terem escolhido um homem para moderar um debate entre mulheres.  Terá sido a pensar que só um homem  é capaz de por ordem  num debate entre mulheres?  Ou foi porque pensaram que escolher uma mulher para desempenhar o papel do Sapateiro era demasiado arriscado?
Bem, isso foi o que pensei ontem, mas hoje alguém bem colocado nos meandros televisivos garantiu-me que o Nilton está lá de passagem ( e a desempenhar muito mal o papel, diga-se..). A ideia é que, a curto prazo, seja Manuela Moura Guedes a desempenhar o papel. Só não lhe terão entregue a moderação desde o início, porque na RTP ainda há gente com bom senso  que terá alertado para o risco de lhe entregar o papel de Sapateira, sem testar a sua lucidez. A avaliar pelo que se viu ontem, MMG ainda tem muito que pedalar. Mas já lá vamos…

Cena 2
(Joane, o tolo)
Na tripulação da Barca, a primeira fala coube a uma loira de nome Marta (Gautier?). Não sei o que ela faz para ganhar a vida ( parece que é psicóloga e faz umas peças de teatro) mas foi muito sincera ao dizer que não percebia nada do que se ia falar ( O  Citius)  e por isso teve de estudar.  Depois, como uma aluna em prova oral, começou a debitar o que tinha aprendido. Ao fim de cinco minutos a Guedes estava farta de a ouvir e interrompeu-a sem pedir licença. Joane, aliás, Marta, arrepelou-se, eriçou-se  e começou a coçar furiosamente os cabelos, assim se mantendo ao longo de quase toda a peça. Não sei se encontrou piolhos, mas desempenhou bem o papel de Joane, o tolo.

Cena 3 
(Brísida Vaz, a alcoviteira)
Entretanto, o Sapateiro, aproveitando a altercação que por pouco culminava em puxões de cabelos,  deu a deixa a Brísida Vaz, a alcoviteira,  Manuela MG. Começou por invocar a sua qualidade de jornalista, para justificar  que estava bem documentada para fazer a  defesa da ministra da Justiça. “Está a funcionar! Está a funcionar!” garantia ela, enquanto culpava Sócrates ( que não entra na versão original de Gil Vicente, mas em televisão todas as adaptações são possíveis) pelo estado calamitoso da Justiça. Depois, num improviso, digno de registo, negou três vezes que estivesse do lado do governo e garantiu que magistrados, funcionários judiciais e procuradores nunca disseram que a justiça estava paralisada. 

Cena 4
( O cavaleiro, o corregedor e o frade)
No original, há quatro Cavaleiros que morrem a combater pela Fé. Por falta da verba, a RTP só conseguiu contratar um. O papel foi desempenhado com muita paciência e contenção por Isabel Moreira que, em alguns momentos, parecia estar com vontade de puxar os cabelos a Brísida Vaz. Nessas situações apelou à calma interior e vestiu alternadamente os papéis do corregedor e do frade, evitando que a cena se transformasse numa arruaça e todos fossem condenados ao Inferno.

Cena 5
( O enforcado)
Sem perceber muito bem o que estava ali a fazer,e dando a sensação de não ter estudado o papel, o  Enforcado, Raquel Varela tentou improvisar e desviar-se do assunto. Em momentos de maior aperto pediu o apoio do Cavaleiro para referendar as suas afirmações. Precisa de estudar melhor os papéis.


Cena 6                                       

( time out)
A RTP decidiu dar um tom de modernidade  ao Auto e introduziu o “time out”, expressão desconhecida de Gil Vicente, porque naquele tempo ainda não se praticavam desportos violentos como o andebol e o basket, Cristiano Ronaldo ainda não era nascido e Jorge Jesus ainda não sabia o que era a "táctica". 
Coube ao Sapateiro desempenhar esta cena e fê-lo com acerto. Quando as personagens ameaçavam passar a vias de facto, puxou do apito e ordenou: “Intervalo! Todas para o balneário para refrescar as ideias  para ver se se acalmam, enquanto a gente põe a publicidade, que é quem paga esta porcaria”.

Cena 7
( O espectador sai de cena com vontade de partir o televisor)
Regressaram todos com ar mais calmo para a segunda parte, em que o tema era “a balbúrdia na educação”.  Reconheço que com temas destes é difícil não perder a compostura,  mas o Cavaleiro fez um esforço e procurou dar um ar sério ao assunto. Só que Brísida Vaz, depois de asseverar uma vez mais que não estava alia defender o governo, jurou solenemente que a balbúrdia não era culpa do ministro da educação.
Antes de a ouvir culpar professores e alunos pela balbúrdia que vai nas escolas, mudei de canal e não assisti á sentença final. Fosga-se! É preciso ter paciência de Job para assistir a esta Barca do Inferno e, que me conste, Job não faz parte do elenco.

7 comentários:

  1. Não posso pronunciar-me...não vi...
    Mas pelo relatório não perdi nada!

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  2. O título da cena 7 está o máximo.
    Não sabia que ia dar e à partida depois do resumo não estarei a pensar em ver...

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  3. De mais!! O Gil Vicente deve estar a rir às gargalhadas se, lá no assento etéreo aonde subiu, teve acesso a este texto!...

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  4. Aqui também temos programa com debate só com mulheres o 'Saia justa" _ é meio bobinho `prefiro assistir um bom filme rsrs
    Essa 'barca' parece divertida.
    abraços Carlos

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  5. Não vi mas gostei do que relatou. E imagine fez-me recuar tantos anos atrás, quando eu desempenhei o papel de anjinho, no topo do alto da barca da Glória. E como agora já não há purgatório, acho que seria mais actual chamar-lhe "Os Autos dos Submarinos ", em que ninguém precisa de remir dos seus pecados, já que todos serão salvos.

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  6. Pelo relato, e pela tripulação, espero bem que a barca não dê à costa por estas bandas.

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  7. Não vi, nem tenho muita vontade de ver...
    A Isabel Moreira que me perdoe.

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