quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A paciência tem limites



São tantos os focos de incêndio pelo mundo, que se torna difícil acompanhar e escrever sobre todos.
Hoje, dedico alguns minutos a um dos que tenho seguido com mais atenção. Aquele que, (só aparentemente) em lume brando, continua ateado em Hong- Kong.
Já lá vão 18 dias desde que os manifestantes iniciaram os protestos  e, salvo um ou outro momento de maior tensão, tudo tem decorrido de forma pacífica.  É perceptível que, depois da primeira semana, o número de manifestantes se reduziu substancialmente e a sua expressão já não é muito significativa, se considerarmos que vivem em Hong Kong, 7 milhões de pessoas. 
Os graves prejuízos causados no comércio e turismo de Hong Kong ( ascendem já a 38 mil milhões de € os prejuízos em 18 dias de protestos)  têm contribuído para que a adesão popular seja mais reduzida ou, pelo menos, mais discreta.
Como já aqui escrevi, este é um jogo de paciência no qual o governo aposta fortemente, mas os manifestantes também.  O governo tem a expectativa de que a população, afectada no bolso  e  cansada com os transtornos  provocados pelas reivindicações do movimento pró democracia,  se demarque dos protestos e passe para o seu lado.  Os manifestantes, por seu lado, esperam que a repercussão internacional dos protestos obrigue Pequim a ceder às suas reivindicações.

Ontem, o governo deu algum alento aos manifestantes.  A polícia foi obrigada a intervir com gás pimenta e bastões para dispersar os que se concentravam junto à sede do governo, tendo feito várias detenções. Poucas horas depois, começou a circular nas televisões de todo o mundo e na Internet um vídeo mostrando vários polícias a  espancar um manifestante. Ouro sobre azul para a estratégia dos pró democratas que ainda há dias  obrigaram o governo de HK a cancelar o diálogo, porque  foi confrontado com exigências que não podia aceitar? 
Nem por isso. Os países ocidentais estão, neste momento,  preocupados com problemas muito mais graves que ameaçam a paz mundial e perceberam que neste momento  de aproximação  da China à Rússia, não será boa ideia afrontar Pequim. Acresce que talvez comecem a desconfiar que debaixo dos guarda-chuvas talvez não haja apenas pacifismo.

Talvez para os estudantes e líderes do movimento pró democracia, uma repetição de Tian An Men – ainda que sem atingir as mesmas proporções- fosse a situação ideal para ganharem simpatizantes para a sua causa. Creio que isso nunca acontecerá.
Pequim tentará amenizar os protestos,  dando voz aos pró democratas na escolha dos candidatos a governador no intuito de obter um consenso mínimo, mas nunca abdicará do modelo que apresentou em Agosto. O qual, convenhamos, é um avanço  em direcção à democracia de que os habitantes de HK nunca gozaram.
Uma coisa é certa. A instabilidade em HK não poderá prosseguir durante muito mais tempo. Os mercados começam a ficar nervosos ( a bolsa de HK perdeu 10% em menos de um mês)  e Pequim também.
( Fotos The Independent e Wordpress)

5 comentários:

  1. Por questões profissionais estive um mês em Macau e fui diversas vezes a Hongkong. Já lá vão uns largos anos e agora talvez sentisse dificuldade em reconhecer algumas zonas de Macau. Isto apenas para dizer que me apercebi da grande diferença entre as populações de Hongkong e Macau. As justificações acho que são fáceis de perceber. Neste momento, e a partir do que leio por aí, sei que há um mal-estar da parte da Inglaterra que considera estar a haver alterações ao que teria sido definido. Por outro lado, o nosso inefável Rocha Vieira veio exaltar o governo de Pequim e criticar os tumultos em Hongkong. Só que este "apoio" não será inocente. Macau, EDP, China Three Gorges têm um denominador comum: Rocha Vieira. Embora não sendo eu expert, nem nada que se aproxime, sobre as dissidências no Oriente, considero que da China não virá nada de bom, pelo menos no que diz respeito ao livre arbítrio dos cidadãos.

    Beijo Carlos

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  2. "São tantos os focos de incêndio pelo mundo, que se torna difícil acompanhar e escrever sobre todos."
    Esta tua frase diz tudo. O mundo está virado do avesso e portugal vive na republica das bananas. Enfim...não dá para mudar de planeta?

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  3. Olha se por cá nos atrevíamos a tal...Nada como um joguinho de futebol, umas boas novelas e uma ida ao shoping...Mesmo esmagados e humilhados continuamos acomodados. Chiça!
    maria

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  4. CY Leung estendeu nova passadeira ao diálogo, carlos.
    Sem se esquecer de dizer que as ordens de Pequim são para cumprir.
    Mas hoje já se circula em Mongkok e há mais uma janela que se abra para um possível entendimento entre as partes.

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  5. Acho que este protesto não vai dar nada. Não que simpatize com o governo da China popular, longe disso, mas é que vejo as coisas de forma realista e fria. Tenho para mim que se até houvesse um novo «Tiananmem» continuaria tudo exactamente na mesma.

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