terça-feira, 12 de agosto de 2014

O botão mágico



Economia de  mercado, no mais puro conceito ultra liberal, significa reduzir as pessoas a meros concorrentes no “concurso da vida”.  De um lado os que têm poder e dinheiro, do outro os consumidores  deslumbrados com a sociedade da abundância, prontos a  papar tudo o que os primeiros lhes vendem, através da publicidade e do  marketing.  Na assistência, hordas de famintos  sem emprego ou com salários miseráveis, a viver muitas vezes em condições sub-humanas, batem palmas diante da pantalha, enquanto sonham com a possibilidade de um dia saltarem para o palco e poderem participar no concurso.
Por outras palavras: na economia de mercado vale tudo. Até transformar  humanos em  animais de duas patas ( uns selvagens, outros domésticos) que comunicam através de códigos mais ou menos intrincados.
Neste contexto,  o empreendedorismo  ganhou raízes e tornou-se um padrão de vida. Se fores empreendedor serás rico, se não fores serás escravo deles- diz a Bíblia dos mercados na versão ultra liberal. 
Reconheço as virtudes do empreendedorismo, mas não alinho com aqueles que vêem no empreendedorismo a solução para os problemas do país. Neste momento é, aliás , quase uma miragem. 
Para se ser empreendedor ou se tem dinheiro de raiz, ou se vai buscar dinheiro aos bancos. Como estes têm pouco dinheiro, só emprestam a juros altíssimos, praticamente incomportáveis pela maioria dos candidatos a empreendedores.
E foi assim que me lembrei de uma “Conversa em Família “ do Marcelo Caetano, em que ele avisava que não podíamos ser todos doutores . Com os empreendedores passa-se algo semelhante. Não podemos ser todos  banqueiros empreendedores. Não chega ter boas ideias e carregar num botão. O  crédito deixou de ser "oferecido" e já não é universal. Voltou a ser bem caro e de aceso restrito. Ter uma boa rede de contactos que facilitem o acesso ao crédito ajuda... mas fundamental é ter dinheiro, ou algum investidor disposto a arriscar. Como acontecia com quem queria (e tinha capacidades para) estudar, no tempo do Estado Novo.
Quando comecei a escrever este post pensava apenas fazer uma referência a mais uma cena obscena da sociedade de consumo. Depois, fui obrigado a admitir  que se esta empreendedora vem cá ganhar uma pipa de massa só para carregar num  botão, é porque encontrou um investidor que decidiu arriscar no seu projecto. Com a confiança de quem sabe que é um investimento seguro ,porque  há muita gente disposta a pagar só para ver.

3 comentários:

  1. A conversa do emoreendedorismo serviu para alguns ganharem uns "trocos" a darem lições de criatividade e engenho, ao mesmo tempo que outros tantos acreditavam nas ensaboadelas que lhes davam.
    Quanto à Paris Hilton... Uma empreendedora que não precisa de usar a cabeça, porque o auditório não vê, só olha!

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  2. Nem um passo daria para ver a criatura!
    Quanto ao resto...dinheiro puxa dinheiro!
    É fácil ganhá-lo quando já se tem!
    É como arranjar um emprego bom sem precisar de concurso!
    Filho de cherne sabe nadar!

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  3. Enquanto houver cretinos que paguem para ver a perninha à Barbie vai ser assim, Carlos :(
    Pobreza de espírito é a pior de todas, caramba!

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