sexta-feira, 9 de maio de 2014

Temos pena, mas...

Nos últimos dias de Abril, o governo autorizou  os proprietários do cinema Londres a mudarem a actividade do espaço. Os proprietários conheceram a decisão através dos jornais e avançaram com as obras para a instalação de um estabelecimento comercial.
Tenho pena de ver o Londres transformado em loja de produtos chineses, porque era das poucas salas onde ainda entrava para ir ver um filme.  É, porém, uma perda de tempo e uma injustiça acusar o governo ou a autarquia, pelo encerramento. Somos todos culpados. Nas últimas vezes que lá entrei as salas estavam sempre às moscas  e, como acontece em qualquer outro ramo de actividade, quando não há clientes não há condições para sustentar o negócio. São as leis do mercado a funcionar. Como aconteceu  com o Quarteto e o King ou, em tempos mais recuados, com as grandes salas de cinema lisboetas e portuenses.
Lamento o desaparecimento de salas de cinema  livres de pipocas. Como noutros tempos lamentei o desaparecimento da Colombo e da Roma, para darem lugar a assépticos e mal cheirosos McDonalds. Tenho pena, mas nada posso fazer. Sempre preferi cafés e pastelarias a estabelecimentos de fast food, mas tenho de reconhecer que  fomos nós, consumidores, que  condenamos esses espaços à morte. 
Somos nós, através das nossas escolhas, que escolhemos o modelo social em que queremos viver. Temos um poder enorme nas nossas mãos que desconhecemos, ou não sabemos exercer. Pensamos, erradamente, que só podemos mudar a sociedade através do voto em eleições. Os consumidores têm muito mais poder do que isso. Foram os consumidores que escolheram as cadeias de fastfood em detrimento dos cafés; os centros comerciais em vez do comércio tradicional; o home cinema  como substituto cómodo da sessão de cinema. E por aí adiante. Cada escolha que fazemos é um voto num determinado modelo e isso representa um poder enorme que os consumidores desconhecem e cuja importância, por vezes, até desdenham.  No entanto, se não fossem os votos persistentes dos consumidores do leste europeu na Internacional Consumista, ainda hoje haveria muro de Berlim e se falaria da Cortina de Ferro. 



1 comentário:

  1. A responsabilidade de tudo o que acontece passa sempre por nós. É ou não é?

    ResponderEliminar