segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Balanço (quase) final

Apesar de ainda faltar conhecer o escrutínio final em três  freguesias, os resultados  já apurados permitem fazer uma leitura sobre  alguns factos relevantes.
 Mais do que a abstenção de 47,4% - é bom não esquecer que cerca de 10% dos nomes constantes nos cadernos eleitorais são de mortos que, por muito que o desejassem, não poderão ir votar e de emigrantes cuja percentagem não é contabilizável, mas totalizará largas dezenas de milhares de eleitores -  impressiona olhar para o número de votos em branco ( 193 mil)  e nulos (147 mil).  
Em termos percentuais, a soma dos votos brancos ( 3,87%) e nulos (2,95%) representa  mais do dobro do número de eleitores que votaram no CDS (3,05%)-  quando não coligado - e quase o triplo dos eleitores do BE (2,42%).
Estes eleitores que se deslocaram às assembleias de voto  e votaram branco ou nulo  também fizeram questão de expressar  uma opinião: não se revêem em nenhum dos candidatos.
 Ao contrário dos abstencionistas, que poderão não ter ido votar pelas mais diversas razões, os que votaram branco ou nulo  têm uma opinião sobre a democracia em que vivemos.  Ninguém- a começar pelos partidos- pode desprezar o significado destes números – poderiam ser ainda mais expressivos se não houvesse candidaturas independentes. 
Os independentes- sublinhe-se- obtiveram 6,9% dos votos  e garantiram a presidência de 13 câmaras, 8 das quais com maioria absoluta. 
Os partidos terão, obrigatoriamente, de olhar para estes resultados com alguma apreensão e muita responsabilidade. Espero que comecem já amanhã...
Pode consultar os resultados  aqui

Passos renovou a apólice... E agora?

 Pedro Passos Coelho não me pareceu nada abatido quando ontem analisou os resultados. Reconheceu a derrota esmagadora, deu os parabéns ao PS, fez um número de circo dizendo que o resultado era o preço a pagar por não ter apresentado candidatos populistas ( LFM e Seara eram apoiados por quem?) e saiu de mansinho, garantindo que o governo irá continuar a seguir o caminho da austeridade que ( com gosto e uma ponta de sadismo, presumo eu…) tem seguido até aqui.
Quando se retirou deve ter ido celebrar a vitória de Seguro com os colaboradores mais próximos. O líder do PS tem sido o seguro de vida e o abono de família de Passos Coelho. Uma vitória à tangente e uma vitória clamorosa de Costa ( como se verificou) teria  feito caducar a apólice.
Sobre a Madeira, PPC não disse nem uma palavra. Já devia ter ouvido das boas de Jardim pelo telefone e achou melhor ficar calado.
Está confirmado o pior resultado de sempre  ( ver aqui)
Mas atenção! Sabem quando foi o anterior pior resultado? Foi em 1989. E sabem o que aconteceu nas legislativas seguintes em 1991? Cavaco reforçou a maioria! Ah, pois é...


O arquitecto do Penta

Paulinho das Feiras apareceu sorridente diante das câmaras, a reclamar estrondosa vitória.  O CDS agora também tem um Penta e PP assume-se como o grande arquitecto deste feito histórico para o CDS. Esqueceu-se de falar na estrondosa derrota da coligação a que pertence, mas aproveitou para  lembrar que tinha um forte quinhão de mérito na eleição de Rui Moreira, mas é notório que PP tem pouca ambição.
A propósito… será que o congresso do CDS-PP sempre se realiza em Outubro? Depois desta fantástica vitória, Paulo Portas será aclamado. Aquilo da aliança governativa com o PSD não interessa nada. São só uns tachos  para ministros e ajudantes.

Há misturas explosivas...

Espero que outros aprendam com a derrota do LFM e percebam que misturar política com desporto e figuras mediáticas, nem sempre dá bom resultado. Principalmente quando se escolhem sportinguistas e benfiquistas famosos, numa cidade como o Porto...

O vidente e a Nossa Senhora de Fátima

Cavaco Silva- o mentor da actual coligação e seu principal obreiro -  foi um dos grandes derrotados da noite eleitoral. Sem ter nada de substancial para dizer, de que se lembrou?
Nada mais, nada menos, do que dizer “  Portugal já saiu da recessão!
Extraordinário como este país evoluiu de forma tão satisfatória em apenas uma semana. Foi o tempo entre a ameaça de segundo resgate feita por PPC com grande alarmismo e esta declaração de confiança do vidente de Belém a um jornal sueco.
Terá havido intervenção de Nossa Senhora de Fátima, frequentadora habitual de Belém, como há tempos revelou a D. Maria?

Quem não tem dinheiro não tem vícios

É o que se pode concluir da estrondosa derrota do PSD na Madeira.  Alberto João Jardim apenas conseguiu manter 4 das 11 câmaras madeirenses.  Nem o Funchal se safou! Perante a derrota, culpou o Contenente, tendo reforçado aquilo que já todos sabíamos: sem dinheiro dos contribuintes do Contenente e o apoio explícito de Cavaco e os sucessivos líderes do PSD,  Jardim  nunca se teria aguentado (quase) 40 anos à frente  da Madeira. Sem poder brincar com o dinheiro dos outros, Jardim fica reduzido à expressão mais simples.
Meu caro Alberto João: Nunca ouviu dizer que quem não tem dinheiro não tem vícios?

As mulheres de Oeiras e as peixeiras de Matosinhos

Isaltino já estava preso quando uma revista  publicou uma reportagem sobre Oeiras. Sem surpresa, percebi que Isaltino continuava a ser visto como um herói e algumas oeirenses não se coibiam de afirmar que “o problema de Isaltino era gostar de mulheres”.
Não percebi o que as licenciadas oeirenses queriam claramente dizer com isso, mas foi com um sorriso de ironia que recebi a notícia da vitória do independente  Paulo Vistas e a derrota humilhante  ( terceiro lugar) de Moita Flores- o candidato do regime.
Na cidade com mais licenciados por metro quadrado e com um dos mais elevados poder de compra do país, um tipo corrupto  é aclamado herói e alguns dos seus apoiantes vão altas horas da noite para a porta da prisão da Carregueira  festejar.  Confirmo, com tristeza, que as Universidades – e o ensino  em geral-  não formam as pessoas nem lhes  incutem valores como a honestidade e a ética. Mas isso já eu tinha percebido na Guarda…
Quem parece conhecer melhor esses valores são as peixeiras de Matosinhos. Inconformadas com o facto de o PS ter retirado a confiança a Guilherme Pinto – um homem muito acarinhado no concelho-  e apoiado o inenarrável Parada, deram uma vitória clara ao ex-candidato do PS que em 2013 liderou uma lista independente. Há coisas que não se aprendem na escola, não é?

Ser campeão e despedir o treinador?

O PS teve o melhor resultado autárquico de sempre. Nunca conquistara tantas câmaras municipais e recuperou, com larga maioria, a presidência da Associação Nacional de Municípios. Conquistou capitais de distrito importantes como Vila Real ( desde sempre PSD) e Leiria . Reconquistou Coimbra e várias câmaras ao PSD.
No entanto, a vitória do PS é ensombrada pela realidade e é fundamental que no Largo do Rato a saibam interpretar  e não caiam na sobranceria.
Na verdade, apesar de significativa, na vitória do PS não vejo razões para grandes euforias . Logo à partida, porque perdeu câmaras como Évora, Beja e Loures ( por mérito da CDU)  ou Matosinhos, Braga e Guarda por culpa própria. Depois, perdeu expressão em câmaras como Portalegre, onde já foi maioritário. Finalmente, porque António Costa teve uma vitória estrondosa em Lisboa. Podem dizer-me que é mais importante a vitória (modesta) do PS a nível nacional do que a vitória esmagadora de Costa. Compreendo que os socialistas reajam assim, mas a minha interpretação é outra.
Fico com a sensação  de que, com Costa, o PS arrasaria. Não resistindo a uma comparação futebolística, diria que muitos portugueses se sentirão, hoje, como os adeptos de futebol que vêem o seu clube vencer o campeonato, mas não gostam das exibições e, por isso, pedem a mudança de treinador. 

O Alentejo vermelho, mas não só...

A CDU foi, sem sombra de dúvida, a grande vencedora da noite. Não se limitou a aumentar substancialmente o número de presidências de câmara ( 36 até ao momento, contra 28 em 2009), mandatos e votos expressos. A CDU arrasou o PS no Alentejo e reduziu o BE à expressão mais ínfima no país.
Significativa a vitória em Loures onde Bernardino Soares- o lider parlamentar da CDU- vai ganhar asas para mais altos voos. Esperemos é que, até lá, perceba que a Coreia do Norte não é uma democracia, (mas isso é apenas um pormenor...)
No Largo do Rato devem interpretar bem o significado destes resultados e perceber que , no Alentejo, mas também um pouco por todo o país ( Loures e Silves, pex.) a CDU foi capaz de captar o descontentamento dos eleitores que habitualmente votam no Centrão. 

O Porto é uma naçom!

Os independentes conquistaram mais de uma dezena de autarquias mas, como já aqui escrevi, a maioria deles eram independentes falsos que concorriam contra os seus próprios partidos. Dentro de dias, alguns dos que saíram vencedores voltarão ao redil.
Rui Moreira era- penso eu- o único independente genuíno. Teve uma vitória retumbante que foi, também, uma vitória do Porto. Os eleitores da minha cidade deram uma lição ao país. Como o próprio RM disse,   não foi uma vitória contra os partidos, mas um aviso para que se regenerem e ouçam a voz das populações.
Acredito que RM faça um bom mandato.
Os portuenses rejeitaram o populismo e as promessas megalómanas de LFM  - passou de vencedor antecipado a terceiro classificado-  e os que nele votaram devem ter ficado arrependidos quando o ouviram dizer que antes de decidir se ocuparia o lugar de vereador irá ponderar, primeiro, " qual é o interesse do partido".
Também não aderiram com grande entusiasmo a Manuel Pizarro. O candidato do PS é uma pessoa estimável, mas não tem carisma e a sua imagem- muito associada à de Seguro- também não o  beneficiou. Mesmo assim, conseguiu ficar à frente de LFM - o candidato que afinal Pedro Passos Coelho não apoiava.
Pelo menos foi o que o PM deixou entender no discurso de derrota, ao assumir que o PSD foi penalizado porque não apoiou candidatos populistas. PPC não tem mesmo um pingo de vergonha na cara!

Nem tudo o que brilha é ouro

Apreciação telegráfica da noite eleitoral.
Os maiores vencedores: CDU, António Costa e Rui Moreira.
O PS , apesar de ter tido um dos melhores resultados de sempre em eleições autárquicas,teve uma vitoriazinha. Amanhã explico porquê.
Os grandes derrotados: Alberto João Jardim, a coligação Cavaco/PSD e Meneses
O BE desapareceu. Pagou o preço da sua aliança a direita, para derrubar Sócrates.
Hoje fico por aqui.Amanhã faço análises detalhadas mas, por agora, apenas um aviso:nem tudo o que parece é, como eu já tinha avisado aqui na sexta-feira.