terça-feira, 18 de junho de 2013

A(s) lista(s) de Schindler

O ministro desmentiu, mas a realidade é lixada e confirmou que Gaspar se quer ver livre de pelo menos metade dos  funcionários públicos  com contratos a prazo, até final do ano.
Torci o nariz, porque me pareceu que  havia algo escondido naquela notícia. Fui investigar e deparei com uma situação ainda mais mal cheirosa. Acontece, quando se mexe  na m.....
E o que é que encontrei? Nada de palpável, apenas um testemunho de um director -geral, porque aqui não haverá papéis, apenas palavras.
Segundo aquele responsável, o governo terá dado ordens aos serviços públicos para indicarem, até final de Julho, 15% dos funcionários dos quadros dos serviços que dirigem, que devem ser despedidos requalificados.
Ou seja: até final do próximo mês, os directores gerais e equiparados terão de elaborar uma lista com nomes  de funcionários que irão alimentar os Oliveira e Costa,  Dias Loureiros, Ulrichs  e demais banqueiros,  instituições financeiras e administrações de empresas públicas que andam a roubar os contribuintes, com a aquiescência do governo.
 Competirá a esses funcionários abdicarem dos seus salários para que o dinheiro vá directamente dos seus bolsos para os de um grupo de gatunos encartados e licenciados com alvará, por Vitor Gaspar y sus muchachos.
Não queria ser director geral por estes dias. Por amor à minha consciência recusaria elaborar uma lista de Schindler de funcionários públicos e condená-los ao desemprego, para satisfazer os apetites vorazes do etíope escurinho e sua comandita de agiotas.Teria de me recusar a fazê-lo e, obviamente, ser-me ia apontada  a porta de saída por desobediência. 
Tenho a certeza que muitos directores gerais terão os mesmos problemas de consciência. Tentarão tornear a questão o melhor que puderem, mas acabarão por obedecer às ordens superiores. Muitos passarão muitas noites intranquilas, com a consciência a provocar-lhes insónias por serem responsáveis pelo aumento do número de famílias em dificuldades. Outros, rejubilarão. Com um brilhozinho nos olhos aproveitarão a oportunidade para se desfazerem de funcionários incómodos, ou de quem simplesmente não gostam, por não serem suficientemente bajuladores, ou simplesmente " porque não vão com a sua cara".
Uns e outros contribuirão à sua maneira para aquilo a que Pedro e Gaspar chamam eufemísticamente " Reforma do Estado".
O cristão novo Portas aparecerá compungido, diante das câmaras de televisão, a lamentar a ocorrência, mas a dizer que a apoia em nome dos superiores interesses do país. Ou, por outras palavras, o interesse em manter-se agarrado ao pote, à custa de um exército de desempregados.
Para que a declaração produza mais efeito, encomendou previamente a Pires de Lima e outras personalidade do partido (onde se incluem dois membros do governo) uma moção de estratégia cheia de frases misericordiosas, assentes numa compungente vacuidade
Hitler  enviou os judeus para as câmaras de gás, para defender a raça. Paulo Portas envia funcionários públicos para o desemprego, em nome da sua estratégia pessoal: manter-se à tona, custe o que custar. A diferença entre os dois é que Paulo Portas gosta de se fazer passar pelo homem bom que quer sempre o melhor para os portugueses e finge estar em desacordo com o governo. Uma Comédia de Enganos, onde só os parvos se deixam enganar.

Peixinhos de aquário


Quase todos os  meses há uma revista, uma agremiação desportiva, um canal de televisão, um site, ou uma  esconsa associação de moradores, que escolhe Portugal  como melhor destino turístico do mundo, melhor destino para viajar, melhor destino  de praia, ou qualquer coisa que o valha.
Não deixa de ser curioso que, à medida que os portugueses empobrecem, Portugal se torne um destino turístico cada vez mais apreciado, apetecido e distinguido.  De qualquer modo não me surpreende, pois a experiência  ensinou-me que  há  hordas imensas de turistas que adoram viajar para ver os pobrezinhos e deles se condoerem no regresso a casa. Adiante…
Voltando às distinções que nos últimos meses têm enchido os portugueses de orgulho, são variadíssimos os justificativos para a escolha. Desde as paisagens à hospitalidade,  passando pela qualidade das unidades hoteleiras  e razoabilidade dos preços, ou pelas praias e belezas naturais, abundam os encómios dos promotores  destas iniciativas para o nosso país.  
Merece no entanto  especial destaque, a deferência  com que  o portal internacional  de viagens Globe Spots   nos trata, ao  justificar a escolha de Portugal como melhor destino turístico 2013. Pois é, caros leitores.  A coscuvilhice, o mexerico , a bisbilhotice , a intriga  ( em inglês, uma única palavra resume tudo isto: gossip) são consideradas  características “very typical” dos portugueses.
Aliás, na perspectiva da maioria das organizações e publicações que nos atribuíram a distinção de melhor destino 2013, somos um povo porreiro para ser admirado como os peixinhos num aquário.
Há  apenas um “porém”.  Muita gente  gosta de peixinhos, mas não gostaria de viver num aquário, ou gosta  muito de animais mas prefere aqueles que se podem deixar ao vizinho quando vai de férias.
Talvez seja por isso que a maioria dos turistas que nos visita olha para nós com admiração. Somos porreiros para ser vistos do lado de lá do vidro, mas não muito aconselháveis para companhia. Tal como os peixinhos, a nossa manutenção é dispendiosa.
Qualquer dia, um turista da escola de Calvino chega aí, esvazia o aquário e leva consigo os peixinhos mais valiosos. Quer dizer... isso já está a acontecer, mas muitos pensam que se trata de emigração. Outros acreditam que vivem e respiram porque ainda têm água, mas esquecem que a água precisa de ser mudada com frequência, para que os peixinhos de aquário não morram envenenados...



Às vezes chegam cartas...

Já  me tinham falado desta carta mas, como nos últimos dias andei arredado da blogosfera  e das redes sociais, só hoje a pude ler, graças a uma leitora que teve a amabilidade de me enviar um link.
Há textos que nos reconciliam com a esperança, porque revelam que alguns jovens vêem o futuro para além do seu umbigo.