terça-feira, 8 de outubro de 2013

Passagem para o abismo II



Quando andava no 3º ano do liceu (actual 7º ano), o meu professor de Geografia falou, numa aula, das vantagens que adviriam para a navegação - e para o comércio - em encontrar uma passagem navegável e comercialmente rentável que permitisse passar da Ásia à Europa através do Árctico. Não foi, porém, esta informação que despertou a nossa curiosidade. Foi o que se seguiu.
O professor Portocarrero contou, nessa aula, algumas tentativas que já tinham sido feitas para atravessar o Árctico- a maioria delas mal sucedidas- e terminou dizendo mais ou menos isto:“Felizmente, a marinha mercante não poderá utilizar essa rota. No dia em que o conseguir, todos vocês se devem preocupar, porque isso significa que os gelos do Árctico estão a derreter e a Terra corre perigo”.
Numa manhã de Setembro de 2009, mais de 40 anos depois, uma notícia lida num matutino deixou-me  preocupado: “NAVIOS JÁ PASSAM O ÁRCTICO. As alterações climáticas permitiram a dois navios alemães ligar a Ásia à Europa através do Oceano Árctico, uma rota que poupa sete mil quilómetros à viagem tradicional com passagem pelo canal do Suez”.
A  travessia  só se tornou possível devido ao degelo provocado pelo aquecimento global e despertou de imediato o apetite de  vários armadores, que  anunciaram a intenção de adoptar este trajecto.
Ontem, chegou ao porto finlandês de Pori o primeiro cargueiro a conseguir fazer a ligação marítima  comercial entre o Pacífico e o Atlântico, através do Árctico, a norte do Canadá. Está inaugurada uma nova rota comercial que irá poupar tempo (4 dias) e muitos milhares de dólares aos armadores que arrisquem fazer a travessia durante o Verão. Por agora ainda serão poucos mas estima-se que, dentro de uma década, a aceleração do degelo permita que esta rota se torne normal, diminuindo drasticamente a circulação através do canal do Panamá. 
Muitos predadores  abriram garrafas de champagne e celebraram a proeza, fazendo contas ao que isso significa em termos de lucros. Néscios, ignoram que esta rota apenas significa mais perigos para a sustentabilidade do planeta. 
Se tivessem tido aulas com o professor Portocarrero, talvez continuassem satisfeitos mas, pelo menos, estariam apreensivos.

4 comentários:

  1. Carlosamigo

    Neste desgraçado Mundo cada vez é maior o peso do dinheiro. Poderia parecer incrível esta afirmação, mas infelizmente não é. Pelo contrário: é bem real.

    O degelo provocado pelos Homens é mais um atentado contra o nosso Planeta Azul e para a esmagadora dos humanos que o habitam. Dará o Árctico passagem para diversos navios; mas, a que preço? A camada do ozono anda a ser destruída paulatinamente há milénios. Mas, o que é mais e mais grave é que numa época em que a técnica e a tecnologia e a ciência e o desenvolvimento dispararam como nunca antes acontecera, simultaneamente continuemos a dar cabo desta nossa Terra. E o maior problema é que não temos outra.

    Gostei, como sempre, do teu texto e subscrevo-o - sem te pedir autorização... :-) :-) :-)

    Abç

    Henrique

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  2. E isso que lhes interessa?! A única coisa que interessa hoje em dia são os cifrões e MAIS NADA!

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  3. Uma tragédia que se anuncia há anos, Carlos.
    Basta o aumento de um grau.
    Que poderá acontecer até 2050.

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