domingo, 7 de julho de 2013

No Tivoli, com Ismail Kadaré



O final da tarde de sábado trouxe-nos imagens avassaladoramente deprimentes do estado a que isto chegou.
Nos corredores do hotel Tivoli, as câmaras mostravam Pedro Passos Coelho à frente de um exército misto, onde pontuavam figuras politicamente tão brilhantes como Teresa Leal Coelho, ou Nilza Mouzinho de Sena, trajando a rigor para uma visita ao mercado de Durban.
Mas não era para o mercado que se dirigia aquele exército laranja, comandado por Pedro Passos Coelho. As câmaras mostraram a sua entrada numa sala e, logo de seguida, focaram um outro exército comandado por Paulo Portas. Numa demonstração de que em tempo de guerra ninguém se pode recusar a combater, vislumbrava-se entre os combatentes do  exército desafiador de Portas, uma grávida!
Minutos depois deste exército ter dado entrada  na  sala que serviria de palco ao combate, um terceiro exército irrompeu trazendo as armas. Câmaras de televisão, microfones e gravadores são agitadas com ferocidade pelo exército de jornalistas que vão registar o início do combate.
Foi nesse momento que, desviando o olhar por alguns segundos, para o mar do Guincho, me lembrei de um livro de Ismail Kadaré: “Os Tambores da Chuva”
As televisões não mostravam as muralhas ensanguentadas, mas era bem visível nos rostos dos membros dos exércitos  a ferocidade e a angústia dos que se preparavam para iniciar o combate.
Tal como no livro de Ismail Kadaré, a tarde também estava tórrida, mas não vislumbrei o cronista bêbado. Quanto aos bruxos que dão conselhos aos reis, sabia de antemão que não estariam presentes naquele momento. O bruxo  ao serviço de Sua Majestade iria comunicar ao país a sua visão sobre o comportamento do exército albanês uma horas mais tarde na SIC.
Já o bruxo conselheiro do exército turco apenas  fará as suas previsões em directo, esta noite, no palco da TVI.
Mas voltemos aoTivoli , onde por esta hora o exército de jornalistas já abandonou a sala onde se irá travar o combate. Não temos, por isso, relato, do que se terá passado lá dentro.
Sabemos apenas que uma hora mais tarde  ambos os exércitos abandonaram a sala e se reuniram numa sala contígua.
Estranhamente, apesar dos rostos fechados não há sinais de luta, nem  desgaste nos combatentes. Os exércitos acantonam-se, de pé,  a um lado da sala e parecem confraternizar em surdina, gozando os privilégios do ar condicionado,enquanto os seus chefes se dirigem para o centro da sala, onde está instalado um microfone. Suspense! Terão assinado o armistício?
O chefe do exército turco, Passos de Coelho, aproxima-se do microfone. Vai falar aos súbditos. Dois passos atrás está  Paulo Portas, o chefe do exército albanês. O rosto de ambos está fechado, mas as expressões denunciam que os albaneses terão sido derrotados e o chefe dos  turcos irá comunicar a vitória e as cláusulas da carta de rendição dos albaneses.
Ao fim de alguns minutos ficamos a saber que assinaram um acordo de paz. O chefe turco garante que foi uma grande vitória do seu exército mas, sendo ele magnânimo, decidiu – apesar da vitória- entregar o poder aos albaneses.
O chefe dos albaneses permanece em silêncio. Talvez tenha percebido que lhe foi oferecido um presente envenenado, mas o seu exército não lhe permitiu recuar. Terminada a comunicação, os dois exércitos abandonam a sala perante o olhar atento do exército de jornalistas, que nos mostram os rostos fechados dos combatentes, saindo em silêncio. A única excepção é o idiota, que vai fazendo números de circo e falando animadamente. Porém, ao contrário do que acontece no livro de Ismail Kadaré, o papel de idiota nesta cena do Tivoli foi entregue a uma mulher : Teresa Leal Coelho.
Ou talvez não… talvez o idiota não fosse ela e  estivesse a ver tudo pela televisão junto a uma piscina, na praia da Coelha.
Quanto aos súbditos, depois de invejarem os privilégios de um combate em ambiente de ar condicionado, encolheram os ombros,foram dar um mergulho no Atlântico e comer uma sandocha 

Adenda: Para quem não leu Os Tambores da Chuva, refiro que se trata de uma crónica de guerra entre os exércitos turco e albanês, no século XV. Os preparativos para a batalha desenrolam-se em dias de calor impiedoso e merecem especial destaque os diálogos travados por um cronista com o bruxo e o conselheiro militar do rei.
 Há quem  assevere que o livro remete para a situação da Albânia dos anos 60, sujeita a um bloqueio pelos países socialistas.
Meio século depois, talvez não seja descabido dizer que “Tambores da Chuva”  se  aplicam como uma luva a Portugal, bloqueado pelos exércitos calvinistas que nos querem condenar à miséria.

2 comentários:

  1. Bem, essa tal de Teresa Leal Coelho é do mais decadente que há neste "governo"... E depois é tudo Coelhos e Coelhas e não saímos disto!...

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  2. O que eu estou afastado de Portugal, Carlos.
    Desses exércitos só conheço verdadeiramente os generais.
    Os restantes são uma figurinhas que me passam totalmente ao lado.

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