sexta-feira, 26 de abril de 2013

Esta noite sonhei com Abril e falei com a Liberdade




Esta noite sonhei com o 25 de Abril.
Sonhei que estava  nas galerias da AR com um cravo na mão, pronto para celebrar o 25 de Abril, quando vejo levantar-se para discursar Américo Thomaz, o cabeça de abóbora.
Surpreendido, perguntei em voz alta:
- Mas que está este filho da puta  aqui a fazer?
Uma mulher com sorriso condescendente, que se apresentou como sendo Liberdade, respondeu-me:
- Sei que leste o Murakami, portanto vais perceber o que te vou dizer. Durante a noite transpuseste a porta do Tempo e entraste, inadvertidamente, no ano de 2Q13. Neste ano onde estás não existe democracia. O mundo é governado pelos ex-ditadores que levaram o mundo a uma Guerra Mundial, desprezaram os direitos dos povos  e cometeram crimes contra a Humanidade.  São esses líderes que hoje aqui vão discursar. Prepara-te, porque não vais acreditar no que vais ouvir.
Concentrei-me então no discurso de Thomaz. Ouvi-o fazer o louvor da União Nacional, escarnecer da democracia e falar da inutilidade das eleições e dos partidos da oposição. Nas bancadas, um grupo de deputados aplaudia histericamente. Entre eles sobressaía uma mulher de canário vestida.
- Estes são os deputados da União Nacional?- perguntei à  Liberdade.
Ela riu-se e repondeu:
- Não sejas ingénuo. Na União Nacional os deputados tinham profissão, tinham vida para além da Assembleia Nacional. Estes que aqui vês a aplaudir são uns tipos que não têm onde cair mortos. São sem abrigo que o Salazar recrutou para o aplaudir. E paga-lhes bem, com o dinheiro dos contribuintes…
- Salazar? Não o vejo aqui, Liberdade…
- Estás muito distraído! Não vês aquele tipo de óculos, com penteado de dandy da Porcalhota? É o Salazar quando ainda era jovem. O tipo sempre foi um galã e recusou-se a envelhecer, é por isso que o vês ainda jovem, num tempo em que não o conheceste
- Ah, é esse! Está tão caladinho, o cabrão!…
- Não está não! Está a rir-se às gargalhadas, mas tu não o consegues ouvir. 
- Diz-me só mais uma coisa, Liberdade. Estes gajos vão continuar a governar durante muito tempo?
- Depende de ti. Se continuares a viver no tempo errado e não fizeres como Aomane e Tengo, eles governarão eternamente. Se queres sair deste mundo de 2Q13 e livrar-te dos ditadores,tens  de agir. Mas tens de ser rápido, porque amanhã pode ser tarde...
Olhei para o meu cravo murcho e vi-o a transformar-se numa granada. Peguei nele com cuidado. Levantei-me e disse para o Thomaz:
- Cala-te, meu grande sacana!
Arremessei a granada na sua direcção, mas não a vi explodir, porque o despertador me acordou.
Estava na hora de me levantar e ir para o aeroporto. Era hora de fugir deste ano de 2Q13!
Até breve, caros leitores. Agora, é tempo de partir, mas volto em breve com forças renovadas, para viver no tempo certo. Pelo menos assim o espero...


9 comentários:

  1. Bolas! Ainda bem que eu não li esse livro de Murakami!

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  2. Carlos
    Esqueceu-se de tirar a espoleta...Porra!
    Abraço
    Rodrigo

    Garanto-lhe que tirando a angustia de ter que ir para a tropa e sabendo das consequências. Vivo um momento da minha vida com muitas e muitas, mais incertezas. Mas não tenho uma unica exitação em dizer que Abril valeu a pena. Saibamos fazer um Abril novo.

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  3. Oh que pena que o despertador tocou antes de a granada explodir na tromba, digo, na cara do Cav..., digo do Thomaz!!!

    Mas... "o dandy da Porcalhota" ainda é melhor do que o "meu" "escuteirinho de Massamá...

    Pleasant dreams...

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  4. (este homem está sempre a partir... vai e deixa-nos com os pesadelos a que chama sonhos. Há tipos estranhos...)

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  5. Bom texto. Demonstra que o seu pensamento, talvez vontade, têm eco nos sonhos.

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  6. Adorei o texto, muito criativo e combinando a trilogia de Murakami com a nossa realidade! :)

    Boa viagem e divirta-se!

    Beijocas!

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  7. Gostei da duplicidade temporal deste texto.

    Vais partir, Carlos? Então diverte-te e descansa e regista para nos poderes contar!

    Beijo

    Laura

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  8. E era boazona, a Liberdade? Já que estavas a sonhar tinhas aproveitado, pá!

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  9. Excelente, como é hábito nos teus textos.

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