quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Porto Sentido (1)


( Na sequência deste post)
Imagino-me no cais de Gaia,  contemplando o casario que se debruça sobre o Douro,  bandos de gaivotas em piruetas, ouvindo o linguarejar de espanhóis, ingleses, franceses, asiáticos e sul americanos, descrever fascinados a paisagem de que desfrutam, enquanto disparam sofregamente as suas câmaras, na ânsia de registar para sempre as imagens inolvidáveis de umas férias, ou de um fim de semana. Deixo-me invadir pela nostalgia.
Gosto do Porto, como de nenhuma outra cidade deste país. Nessa cidade brejeira onde existem trolhas, picheleiros e bueiros; onde há chantras, garinas e aloquetes; onde os idosos ainda se chamam velhos, as prostitutas são putas ou um amigo que nos trai um filho da puta, há também muita poesia e amor. No Porto há a Rua dos Abraços, a Rua dos Beijoqueiros e "ilhas" onde as mães gritam para os filhos: "Anda cá meu filho da puta, quem te deu ordem p'ra comeres esse mulete?" Lá , durante os bailes, os namorados estão "no roço" e as mães admoestam os filhos mal comportados dizendo "vai fazer piruetas nos cornos do teu pai!
Nunca consegui ser feliz no Porto, essa cidade de mulheres lindas, banhada por um rio prenhe de poesia e com uma marginal esplendorosa da Ribeira até à Foz, considerada em 2012 "Destino Europeu do Ano". Hoje sei muito bem as razões que me levaram a sair de lá e nunca mais querer lá viver.
O Porto fechou-se no seu casulo, gerido por autarcas que nunca amaram a cidade, apenas a usaram como trampolim para fazer política em Lisboa. Assim germinaram mentalidades bairristas, por vezes aniquilosadas, que não deixaram a cidade crescer e evoluir.
É tempo de despertar. O Porto não pode ser uma cidade a morrer aos bocados!
( Continua)

6 comentários:

  1. Já andei por ali de bicicleta, de carro e a pé também, mas quando fui de bicicleta ficou-me gravado, passei por ali a caminho de Espinho, enquanto a multidão olhava para nós, incrédula.

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  2. Em Sintra, subi à Pena
    E tive igual cena

    O Seara é candidato... em Lisboa (será?)

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  3. Bela descrição, Carlos. E, se calhar, também tens razão no diagnóstico. Digo "se calhar", porque não tenho os dados de que tu dispões, nem uma tão grande familiaridade com o Porto.

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  4. Mulete é feminino. A clausura do Porto não se deve aos políticos (isso é dar demasiado importância à super-estrutura, para usar linguagem marxista), mas a um conjunto de factores entre os quais os poíticos.

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  5. Termino a leitura deste maravilhoso texto com um sorriso e lágrimas mos olhos...Vê se pode!
    No dia 22 de Dezembro almocei e andei a passear no Cais de Gaia, com a minha gente. Pensei em ti e na possibilidade de por alí te encontrar, já que tinhas vindo para cá no dia anterior e porque sei que gostas de apreciar o Rio Douro, naquela margem.

    O mulete, o roço, as ilhas, são expressões que só aqui se ouvem e entendem. Há quarenta anos atrás, eu senti-me uma estrangeira nesta cidade, principalmente quando ia fazer compras ao Mercado do Bom Sucesso, que era o que ficava mais perto da minha zona de residência, de então, e não percebia a maior parte daquilo que me diziam as vendedeiras. Aqui, nasceram os meus filhos...um na Ordem do Terço e outro no Hospital de Santa Maria...e aqui estão hoje as minhas raízes.
    Não quero ver o Porto morrer lentamente devido à ambição e ao desamor dos autarcas, que sonham com altos cargos políticos na capital ou em Bruxelas, mas infelizmente esse é um mal nacional, Carlos.

    Beijinhos.

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  6. Uma cidade que me encanta, Carlos.
    E com gentes que são do melhor que conheci.

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