terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Crónica do Rei Gaspar (3)



Nem a extraordinária beleza da mulher de Mateus convenceu Gaspar

Pelo caminho encontraste uma mulher formosa, mas faminta, que já abandonara o estábulo e queria regressar a casa. Era a mulher de Mateus. Pediu-te comida que tu recusaste e ela, em desespero, disse-te que te oferecia o corpo em troca de mantimentos que lhe permitissem chegar a casa sem problemas.
Foi então que tu lhe disseste.
- Não quero o teu corpo. Eu sou gay! Mas leva lá um bezerro para o caminho, porque és uma mulher generosa e pertences ao melhor povo do mundo.
A mulher de Mateus arrojou-se aos teus pés em vénias agradecidas e seguiu o seu caminho.
Quando chegou a casa, contou ao marido:
- Mateus, Mateus, encontrei no caminho o Rei Gaspar  que foi levar incenso a Jesus e me ofereceu um bezerro para o caminho. Foi ele que me salvou a vida.
Foi assim, por uma má interpretação, que Mateus anos mais tarde escreveu que eras Rei e não Gay ( o erro  só viria a ser detectado, séculos mais tarde, por  quatro Gatos Fedorentos mas, em vez de o divulgarem ao mundo, resolveram fazer um humorístico anúncio publicitário para a TMN. Assim ficaram na posse do segredo e de umas boas massas).
Como não tens emenda, demoraste muito tempo a cá chegar. Não os dois mil anos que a História do Tempo conta, porque isso é muito relativo, mas umas décadas. Até chegares à Europa vieste sempre muito  descontraído mas, uma vez ultrapassados os Urales e já com a Ibéria à vista, pensaste que era melhor começares a fazer amigos. Na altura, por culpa de Mateus, mas também de um tal Braga de Macedo, bobo da corte de Herodes, já todos por cá pensavam que tu eras Rei e assim te tratavam. Convidaram-te a ficar uns anos em Bruxelas para aprenderes os costumes europeus e poderes ser um bom governante das terras que te iriam ser oferecidas por Herodes, entretanto já instalado no palácio de Belém. 
Por essa altura foste informado que a Ibéria já não era aquela amálgama de países que Herodes te dera a conhecer e estava reduzida a dois. Perguntaram se preferias Belém ou a Moncloa e tu, olhando para o mapa, foste rápido a decidir. Este aqui tem uma bela vista para o mar é para lá que eu vou. Além disso é lá que está Herodes e eu preciso de ter  uma conversinha  com ele. 
Ainda estavas tu a planear a data de partida, quando te chega a Bruxelas a  notícia de que Herodes tinha oferecido o governo de Tugalândia a um coelho que trazia sempre atado ao pelo um tufo de relva. De imediato percebeste de quem se tratava e ficaste furioso, mas logo um porco em cadeira de rodas, acompanhado de uma vaca te acalmou.
- Não desesperes,Gaspar! Irás reinar a Tugalândia, desde que sigas escrupulosamente as nossas orientações. Não te amofines com o coelho que está no poder e cuja história nós já conhecemos. O animal viveu uns tempos com a Alice do País das Maravilhas, está um bocado alucinado e só lhe interessa o título. Quem vai mandar na Tugalândia és tu, embora seja ele a ter o título. Mais tarde, se te portares bem, a gente dá um pontapé no cú daquele coelho que anda sempre enrolado num monte de relva e tu ostentarás também o título de primeiro ministro da Tugalândia.
E o Herodes, aceita?
O Herodes aceita tudo. Só precisamos de um bocado do pó com que adormeceste aquela malta do presépio para lhe dar à noite com um chazinho e o gajo fica ali a dormir durante cinco anos até nós fazermos o trabalhinho. Os tugas até vão pensar que aquele é o palácio da Bela Adormecida.
( Continua)

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