segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O beijo


Ela falou dos portugueses navegadores, dos descobrimentos do orgulho do povo português e recebeu como resposta o discurso mais subserviente, sabujo e cobarde que alguma vez ouvi a um primeiro ministro do meu país. Miguel de Vasconcelos deve estar a rir a bandeiras despregadas e a pensar: mas que raio de azar tive eu em viver no século XVII! Vivesse eu agora e, em vez de ser atirado da janela, seria idolatrado e passearia em ombros pelas ruas de Lisboa como herói nacional.

Adivinha quem vem jantar!

Merkel e o caniche

 -Anda cá à dona,  meu canichezinho!
- Vou já  senhora dona. Au, au!. Leva-me para o pé do Zé Manel? Au, au!
- Tás tolinho, Pedrro! Até chegarres a Brruxelas tens de comerr muita  brrrôa!
-D'Avintes?
- Dou Vintes? Então venho fazerr-te um favorrr e ainda me pedes Vinte Eurrôs?
- Não é isso, senhora minha. Estava a falas da Broa d'Avintes. Au, au!
- Quem é essa Boa d!Avintes?
- Broa é uma espécie de pão, senhora dona. Au, auau!|
- Nau gosto nada de te ouvirre a falarrre em calau, Pedrrito! Tens de acabarre com essa converrrsa de chulo da Porrrcalhota, semprre a aborrecerre as cadelas!
- Mas eu moro em Massamá, senhora minha!
- Prronto, prronto, já chega! Já perrcebi que a Boa é d'Avintes e a tua é Massa má! .  Vá, senta, senta, que não gosto de caniches abusadorres
- Au, au! Dá o ossinho ao teu caniche, não sejas má!
- Olha, Perdrrito, vai comerre os ossinhos do cabrrito que sobrrrarram do almoço e deixa-me em paz.

Esfolar o cabrito*

Até a ementa do almoço foi sugestiva quanto aos propósitos da vinda de Merkel a Portugal. Veio esfolar o cabrito
Uma sobremesa  chamada "papão de ovos" e a presença no repasto  de uma adjunta do PM , com o nome de Pucarinho, foram o complemento perfeito para uma refeição em que a Merkel deve ter suspirado pelo Hax'n ou por um Wienner Schnitzel.

* Utilizo a expressão com o significado que as boas gentes do Norte lhe conferem

Verstehen Sie, Frau Merkel?


Daqui a poucos minutos a senhora irá aterrar em Lisboa, para mais uma jornada de campanha eleitoral. Vem visitar um país em dificuldades financeiras a quem pede austeridade, mas não se preocupa que a sua visita de apenas seis horas vá custar algumas centenas de milhares de euros que muita falta nos fazem.
O propósito da sua visita fica bem explícito no programa. Encontra-se com o governo e o PR, mas esquece a oposição. Encontra-se com empresários, mas ignora os sindicatos. Vem saudar os seus súbditos, mas prudentemente ignora quem lhe podia mostrar a realidade do país. Vem para ouvir e dar elogios, não vem para conhecer a realidade, ou saber a verdade. Um programa típico de líder de uma potência colonizadora.
Quero que saiba, no entanto, que não é essa  a razão para não lhe dar as boas vindas. Já estou conformado com o facto de ter um governo de parolos subservientes dispostos a tudo para lhe agradar. O que me incomoda na sua presença em Portugal é o facto de a considerar responsável pelo fim do sonho europeu, mas não sou tão ingénuo que a considere ( única) responsável pela destruição do meu país.
Essa responsabilidade cabe, antes de mais ao pastel de Belém, a um governo de ex-colonialistas movido pelo ódio e pela vingança, a uma esquerda irresponsável e, também, ao comportamento ingénuo de um  povo que acreditou ter enriquecido de um dia para o outro, só porque entrou para o clube dos ricos onde circula moeda falsa. 
Ninguém disse aos portugueses que o crédito barato era um presente envenenado, ma também não era à senhora que competia lançar o aviso. O que lhe era exigido era a defesa da Europa, apostando no crescimento dos países em dificuldades e não na austeridade. Optou pela segunda via para defender o coiro e tramou a Europa. Um dia destes perceberá o erro, mas será tarde. Como qualquer néscio, tentará defender o seu país pelas vias a que a Alemanha já nos habituou. É essa sua incapacidade para saber ler o mundo que me assusta e preocupa. Os problemas da Europa não se resolvem com austeridade e empobrecimento, mas sim com redobrados esforços para a manter líder no panorama mundial.E, já agora, uma União Europeia só faz sentido se houver solidariedade entre os povos. Como nos EUA, por exemplo, não como na sua Alemanha egoísta e paternalista.
Ou arrepia caminho, ou ficará na História como a coveira da Europa. Não acredito que isso lhe dê alguma satisfação portanto, peço-lhe enquanto ainda é tempo, que deixe de ser casmurra.
Para nos dizer que vivemos acima das possibilidades e agora merecemos ser castigados, não precisava de fazer a viagem. Já temos por cá uma tia de Cascais que gosta de ajudar os pobrezinhos, mas antes puxa-lhes as orelhas, para que melhor percebam a dimensão da generosidade de lhes oferecer uma sopa.