quarta-feira, 26 de setembro de 2012

E que tal um açaime?


O anúncio do restaurador Olex levantou grande brado, mas hoje em dia já ninguém se espanta quando vê um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira.
Por isso, também não nos devemos espantar se um dia destes alguém puser um açaime num coelho. Será a única forma de evitar que o animal abra a boca para anunciar mais austeridade

E se o feitiço se volta contra o feiticeiro?


(Na sequência deste post)
O caso do filme sobre Maomé, que está a incendiar o mundo muçulmano, merece uma abordagem diferente. É um filme rasca produzido por um débil mental que só teve protagonismo, porque foi parar ao You tube. As reacções são manifestamente desproporcionadas em relação ao facto que as despoletou. O que lamento é que o INC Hebdo tenha aproveitado a celeuma para atirar mais lenha para a fogueira. As caricaturas não só não têm qualquer interesse noticioso como, no contexto temporal em que foram publicadas, se tornaram provocadoras.  
Não creio que seja uma boa ideia atiçar os ânimos dos muçulmanos, tentando mostrar-lhes que nós, europeus sem bactérias, não abdicamos dessa conquista democrática que é a liberdade de expressão. Até porque essa é mesmo a única que nos resta, pelo que era bom não ser desbaratada com actos irreflectidos de propaganda.
O jornalismo deve ser responsável e cumprir o dever de informar, não pode servir de pretexto para lutas esquizofrénicas.Principalmente quando isso provoca a morte de inocentes, como tem acontecido nos últimos dias, um pouco por todo o mundo islâmico, mas também em França - onde o governo teve de encerrar as escolas- ou na Grécia.
 Um dia destes tudo isto pode ter um efeito de boomerang e, depois, lá se vai a liberdade de expressão para o galheiro. Sabem mesmo do que é que eu gostava? Era de ver jornalistas a cumprirem a sua missão de informar. De forma isenta, sem provocações e muito distanciados do poder a quem, cada um, procura servir à sua maneira. Isso, sim, era um bom exemplo de democracia!

De Espanha nem bom vento, nem bom casamento?


No dia 11 de setembro, cerca de dois milhões de pessoas desceram à rua em Barcelona, para pedir a independência da Catalunha. Foi a maior manifestação de sempre naquela cidade e demonstra de forma inequívoca a determinação dos catalães em romper com a solidariedade tributária imposta por Madrid.
A manif decorreu de forma ordeira   mas assustou Madrid, pelo significado que lhe esteve subjacente.
A Catalunha é uma espécie de Alemanha da Península Ibérica. Gente civilizada, bom nível de vida, acima da média ibérica. Obrigado a pedir um resgate a Madrid,  o governo catalão terá de impor aos catalães pesados sacrifícios mas, sendo a região mais rica da Ibéria, recusa-se a ser solidária com as restantes regiões espanholas. 
Estive em Julho na Catalunha e testemunhei o descontentamento que grassa naquela região e a força que os move. A situação é bem mais escaldante do que a nossa par(v)ca comunicação social vai deixando transparecer. Seria talvez o momento adequado para reflectir sobre os efeitos catastróficos para a Península Ibérica de uma desagregação em Espanha. Como na altura escrevi, a independência da Catalunha faria desabar como um castelo de cartas não só Espanha, como a própria Europa. 
Mariano Rajoy percebeu o perigo da contestação diária em Espanha, nomeadamente na Catalunha. Por isso se apressou a acalmar os espanhóis, garantindo que nunca irá mexer nas pensões dos reformados, dos incapacitados e dos desempregados. Assegurou que, se pedir o resgate ( este se é apenas retórico, porque o pedido de resgate total já está a ser preparado) não sacrificará mais quem trabalha e irá buscar o dinheiro necessário ao grande capital e às grandes empresas.
Rajoy foi obrigado a dizer isto repetidas vezes, porque sabe o que poderá suceder se a contestação popular continuar a crescer. Mas não cumpriu, como o atestam as medidas de austeridade anunciadas nas últimas semanas
Não conseguiu, tampouco, demover os catalães a respeitarem o Pacto Fiscal. Isso implicará que os impostos pagos   na Catalunha fiquem em Barcelona. Em 25 de Novembro haverá eleições antecipadas na Catalunha e delas poderá resultar a "declaração de independência".
Não é só Rajoy que tem um problema bicudo para resolver, é a Europa! Para já, instigada por Madrid, a Comissão veio avisar os catalães: se quiserem a independência, digam adeus ao euro!
Não sei se esse aviso será suficiente para os demover. Não sei mesmo se muitos não verão nisso uma vantagem adicional.
Adivinha-se um período conturbado se a Catalunha confirmar a secessão.É bom começarmos a pensar que não nos livraremos de alguns estilhaços se aqui ao lado os regionalismos se exacerbarem e pegarem fogo à Ibéria. Nessa altura perceberemos ( tarde demais, como sempre…) que ser bom aluno e bem comportado não compensa, quando o nosso tratador nos trata como animais.
Em alguns debates televisivos, tenho visto os comentadores desvalorizar o que se está a passar em Espanha. 
Era altura de começarem todos a pensar mais como ibéricos ( como europeus é pedir demasiado) e não como provincianos com cultura e comportamento de bairro periférico. Uma precipitação dos acontecimentos na Catalunha deixará, no prazo de uma década, o mapa da Europa irreconhecível. Será a queda do muro de Berlim, mas do lado de cá. Era bom que os líderes europeus tivessem juízo, olhassem com atenção para o que se está a passar na Catalunha e nas implicações que poderá ter em países como Itália, França, Bélgica, Grã Bretanha ou mesmo na Alemanha, onde os nacionalismos se têm mantido mais ou menos adormecidos. Se querem manter a Europa unida, deixem de actuar como abutres sobre os países do sul em dificuldades. Dêem-lhes tempo para endireitar as contas, em boa parte debilitadas por culpa de Bruxelas. 

To whom it may concern

Se não tratarmos primeiro do telhado da nossa casa, não adianta fazer pinturas nos quartos por isso, nos próximos dias,  vou andar por aqui. Bastante ocupado a fazer entrevistas e a participar nos debates.
Não estranhem, por isso, se as visitas aos vossos blogs forem mais esparsas e o ritmo de postagens abrandar. 

Late night wander (100)


"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida".
Se ainda espera que os portugueses se reconciliem com ele, bem pode esperar sentado...