sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ressaca

Começou hoje a Liga de Futebol.
Na ressaca dos JO concluo uma vez mais ( acontece sempre em cada quatro anos) que o futebol é dos desportos mais desinteressantes que se praticam à face da terra. Nunca consigo explicar é a razão de fomentar tantos ódios e  paixões e movimentar tanto dinheiro.

Vida de cão!


Desde miúdo  me habituei a conviver com cães. Havia muitos em minha casa, de vários tamanhos e raças, mas com um denominador comum: eram todos meigos.
Poderia aqui desfilar uma série de histórias sobre cães. Desde o pastor alemão que anunciava aos meus pais que eu ia passar o fim de semana ao Porto, porque assim que eu chegava à Praça de Velasquez  começava a ladrar e a correr como louco à volta do jardim, ao São Bernardo que se afeiçoou a um tio meu de tal maneira, que depois da sua morte passava os dias na sua campa, junto da qual foi encontrado morto, no dia em que estranhámos não ter regressado a casa à hora habitual.
Poderia falar-vos de um irritante chihuahua, favorito da minha mãe, que passava os dias a acirrar os cães mais corpulentos, beneficiando da sua complacência, mas que um dia encontrou o pastor alemão mal disposto e levou uma patada que o deixou a ganir meia hora.
Poderia ainda evocar o Labrador que um dia "prendeu" no jardim, junto à garagem, a empregada que ainda não conhecia, impedindo-a de sair até à chegada de alguém da casa. Quando o meu irmão chegou, deparou-se com um espectáculo digno de cena de filme. O cão tinha-a encostado com as patas à porta da garagem. Depois- versão da própria- libertou-a, mas sempre que ela fazia menção de se afastar do local onde ele a fizera refém, rosnava, voltava a assentar-lhe  as patas sobre o peito durante uns segundos, voltava a libertá-la, mas mantinha-a sob vigilância apertada, sentado sobre as patas traseiras.
Poderia contar-vos muitas outras histórias, mas o propósito deste post não é esse. O que quero declarar é que, apesar de terem passado por minha casa e dos meus avós, dezenas de cães,nunca nenhum cão  lá de casa mordeu ninguém. Impunham respeito com umas rosnadelas. Eram treinados para agir canilizadamente, que é a forma civilizada do comportamento canino.
Ultimamente tornaram-se frequentes os casos de cães que matam. Umas vezes porque são treinados para isso, outras porque não sou treinados para nada e reagem de forma instintiva quando se sentem ameaçados.
Muito casos saltam para as  primeiras páginas dos jornais; a maioria é silenciada, ou notícia de rodapé. 
Nos últimos dias, foi notícia a morte de uma criança de ano e meio às patas de um dogue argentino.Mais uma vez, deu direito a reportagem televisiva e à discussão sobre a razoabilidade de ter em casa cães potencialmente perigosos. Dentro de uma semana o assunto estará esquecido, até que outra criança seja vitimada por um outro ataque.
Como sempre acontece em Portugal, vai-se adiando a resolução do problema. Há quem diga que não há cães maus- o que é mentira- e  a culpa é dos donos- muitas vezes é verdade. É uma discussão estéril que não leva a lado nenhum. A legislação em vigor sobre a posse de cães incluídos no conceito de "raças perigosas" não só não é muitas vezes cumprida, como não é fiscalizada. 
Há cães treinados para matar. Há cães treinados para lutar entre si, em lutas clandestinas,para gáudio de alguma populaça e proveito financeiro dos seus proprietários e dos apostadores.As autoridades fingem ignorar. A legislação- ainda que tacanha- não é cumprida. Há cães destes a viver dentro de apartamentos e de nada adianta fazer queixa à polícia. As autoridades reagem com a mesma indiferença com que ouvem as queixas de uma mulher vítima de violência doméstica.
Sobre a morte da criança ocorrida há dias, alguns jornais deram notícia. Outros, optaram por destacar as lágrimas da filha do senhor primeiro-ministro, assustada com uns manifestantes que protestavam contra as portagens na A22. Nas caixas de comentários não faltou quem considerasse os manifestantes mais perigosos do que os cães- ideia aliás pressurosamente transmitida por uns tipos com carteira de jornalista- porque, imbecis, tinham assustado a pobre da menina.
Dentro de algum tempo, haverá mais uma notícia de uma morte. De adulto, ou de criança, pouco importa. O atavismo das autoridades continuará. Indiferente a  uma vida humana ceifada pela incúria dos homens. Será, obviamente, apenas mais um acidente. E se  a vítima for um reformado, tanto melhor...sempre se poupa na segurança social.
 Talvez por tudo isto, hoje em dia gosto mais de gatos do que de cães. E mais de ambos, do que de alguns seres humanos que se passeiam de carro preto com motorista fardado, ébrios com os vapores etílicos do poder, mas ignorando em absoluto a realidade que os cerca.

A sangue frio

Ontem, adormeci com a notícia da morte de 18 mineiros sul-africanos às mãos da polícia. Esta manhã, os números apontavam para mais de 30. Por azar, vi o video dos acontecimentos. 
Os mineiros avançavam para a polícia com  lanças e catanas e a reacção de quem comandava a força policial foi drástica: mandou disparar sobre os mineiros. Foram abatidos por um pelotão de fuzilamento. A sangue frio.
Enquanto as imagens bailam dentro de mim, provocando-me tremores e temores, recordo cenas idênticas passadas há muitos, muitos anos e que não acreditava se pudessem repetir. Estou profundamente chocado e sem palavras. O presidente sul-africano também, mas ainda não tomou a decisão que se exige. 
Regressámos aos tempos da barbárie?  Se tiverem coragem para ver o video, aqui fica o link. 

Biblioteca de Verão (12)

Os livros de Richard Zimmler são todos fascinantes mas este "Meia-Noite ou o Princípio do Mundo" ( ed.Gotica, 2005)  é de uma beleza ímpar.
Tudo começa com uma criança de sete anos que descobre uma carta de amor entre as páginas de um livro. Fica de tal modo fascinado com o que lê, que a sua vida se desenrola como uma caderneta onde colecciona afectos. Francisca, amiga de infância,  será o seu pilar afectivo e  Meia-Noite, um curandeiro africano, quem o ensina a amar o próximo, independentemente da cor ou raça. Magistral!