segunda-feira, 9 de julho de 2012

A verdadeira, a legítima, a da Bayer



No princípio só havia uma: a verdadeira, a legítima, a da Bayer. Servia para combater as constipações, as dores de cabeça, baixar a febre e pouco mais. Agora, este medicamento comercializado em 1905, serve para tudo. Até para evitar enfartes. Dizem que misturada com Coca Cola, a Aspirina  tem efeitos mais psicadélicos, mas não vos aconselho a experimentar. Et pour cause, vos confesso que já experimentei... mas não voltarei a experimentar!

A depressão explicada aos jovens


Quando era miúdo, a depressão era “uma coisa” cuja localização, em relação aos Açores, determinava o estado do tempo. Depressão e anticiclone, tornaram-se desde então vocábulos familiares e era com profundo gozo que, por diversas vezes, anunciava aos amigos que a previsão do Anthímio de Azevedo, ou de um seu companheiro de profissão, estavam erradas, já que pelos meus conhecimentos de Meteorologia, adquiridos entre leituras do José Mattoso e sebentas do Soares Martinez, poderia adivinhar, sem receio de erro, que o estado do tempo, no dia seguinte, seria contrário aos que as previsões meteorológicas anunciavam.Acreditem ou não, ganhei assim muitas apostas que delapidei em noites de copos no Stones e AdLib ( as voluntaristas discotecas da moda nos anos 60) e fugazes surtidas ao “Caruncho”, para as bandas do Lumiar, apenas frequentada por alguns “experts” da noite lisboeta.
O mundo deu muitas voltas desde esses miríficos anos 60. Depois do 25 de Abril, a depressão passou a fazer parte do nosso léxico como uma doença dos tempos modernos, o anticiclone ( nos anos 60 de localização previsível, de acordo com as estações do ano) iniciou-se nas danças dos Alunos de Apolo e passou a vaguear pelas estações do ano, como qualquer meretriz passeia pelos bordéis da vida.E eu? 
Eu passeei-me pela vida, prevendo o futuro em “five o’clock teas” em Londres, “brunches” em Washington, “dulces de leche” ingeridos gulosamente aos sons do tango tocado nas ruas de San Martin, em Buenos Aires, ou na mira de encantar sereias nos “fiords” na Escandinávia... e ainda tive tempo para pressentir “in loco” o descalabro dos Balcãs, os efeitos da queda do muro de Berlim, ou prever o sucesso do “porco preto”, em terras lusas, depois de uma viagem à Papua Nova Guiné.
O meu erro, foi pensar que este meu sentido premonitório duraria a vida inteira. Assim fosse, e ainda hoje estaria no doce remanso de Macau, usufruindo os prazeres do Oriente, entre poemas de Pessanha e o doce convívio com uma chinesa, ex-concubina numerada, que me falava de Confúcio ( que à época alguns portugueses aí residentes confundiam com uma marca de preservativos). Mas errei e, recorrendo ao privilégio de que apenas os incautos podem usufruir, decidi regressar a Portugal, num fim de tarde em que o panorama que desfrutava da esplanada do Bela Vista se tornou demasiado curto para mim. 
Ao princípio, confesso, o prazer de reviver locais noutros tempos frequentados, foi atenuando a mágoa do regresso. Em breve, porém, descobri que Portugal já não era mais do que “O país reinventado” que fui construindo nos tempos em que me tornara emigrante. E, de um dia para outro, descobri outro significado da palavra “depressão”.Hoje em dia, significa um País onde impera a Lei do “salve-se quem puder” e , quando olho o Atlântico a partir das praias do Guincho, já não vislumbro caravelas em busca de novos mundos, mas um mar triste e sem segredos. Aquele meu “País Inventado”, copiado das leituras de Isabel Allende, já não existe porque nele se acotovelam, como num mar esqualídeo, a lixa e a lixinha -da –fundura, lado a lado com o galhudo e a sapata, num frenesim de auto destruição. Como acontece no fundo daquele mar, neste País que reinventei a partir das lonjuras do Oriente acotovelam-se oportunistas, carreiristas, dirigentes feitos à pressa com créditos bonificados para aquisição de habitação própria, e políticos de vão de escada, navegando em “limousines”, ou acumulando milhas para o Qualiflyer em viagens aéreas sem sentido, e uma massa imensa e disforme de pequenos irmãos Metralha apenas preocupados em enriquecer a qualquer custo e desprovidos de qualquer lisura, ou noção de cidadania. O consumismo atascou-os em contos de Aladino com lanternas mágicas por inventar, em Botas de Sete Léguas sem solas para caminhar, em “Casas de Chocolate” que se derretem no momento em que o dardejar dos primeiros raios solares da inveja atinge as suas janelas.
 Percebi, depois de várias voltas ao mundo, que quis regressar a um País de Contos do Fantástico, onde mais vale ser Tio Patinhas dos analistas económicos , Cinderella de revistas cor de rosa, ou Capitão Gancho nas primeiras páginas dos tablóides do que um dos honestos Três Porquinhos. Descobri isso ao acordar e percebi o verdadeiro significado da palavra “depressão”. Aguardo, ansiosamente, a chegada do anti-ciclone.