sexta-feira, 6 de julho de 2012

Jukebox


No ano do domingo sangrento de S. Petersburgo e da apresentação por Einstein da Teoria da Relatividade (1905), os "blues" fazem a sua aparição com grande sucesso nas cidades americanas. Precisamente no ano em que é lançada,nos E.U.A., a "juke-box". Era o começo das discotecas.
Vocês nem imaginam o dinheiro que eu gastei nestas geringonças para ouvir a Françoise Hardy!

Bom Povo Português


"Hoje o povo está indolente, indiferente, adormecido. Nada o abala:deixa-se levar sem querer saber a cor da onda que o leva.Tem a inteligência esterilizada, tem o coração arrefecido, tem a consciência entorpecida,  tem as mãos afrouxadas. A tradição não o comove, as esperanças não o sobressaltam. Dúvida. A dúvida amolece, dissolve os poderes da alma. Ele não vê, não ouve e não sente.Tem para os movimentos do mundo oficial um olhar frio; para o som dos sistemas das questões, das ideias que se debatem,, ouvido ensurdecido: vai levado sem curiosidade, sem oposição.
Move-se lentamente no seu torrão fecundo debaixo do sol fortificado, entre uma bela Natureza, trabalhando um pouco, olhando às vezes, não pensando nunca. Vê fazer e desfazer governos com uma despreocupação soberba; quando morre alguém que o afaga, chora dolorosamente. Dedica-se raras vezes, mas tem a caridade do instinto e a bondade dos simples. As  feições deste tempo não as tem: não tem a indignação, o entusiasmo, a ira, a actividade, o desprezo; tem só a indiferença. Vê oscilar as instituições tão desprendidamente como se visse bulir as folhas das árvores. Poderá conhecer por tradição o zumbido das balas, mas não conhece decerto o murmúrio das ideias.Este povo, assim, é o deserto dos homens.Os seus direitos podem ser violados, as suas garantias cerceadas, a sua liberdade assassinada, eu não sei se levantará a cabeça do seu trabalho para suspirar sequer.
Não tem fé na sua própria acção. Inactivo, silencioso,passa a vida sem ter adorado o direito ou beijado a justiça.
Nos campos, nas fábricas, nas minas, nas cidades, nas vilas, sempre completa, amolecedora, a mesma terrível indiferença.
E é culpa dele? 
Não. Ele tem nobres instintos, alma delicada, inteligência clara,vontade robustas;mas está adormecido, no sono frio e lento da ignorância; não o ensinam, não o alumiam,não há quem levante a voz por ele, quem lhe deixe cair na alma as ideias do bem, da justiça, da igualdade. Não há quem lhe mostre a fenda da jangada que nos arrasta, e lhe diga: a onda que nos leva é negra, nós queremos que seja verde, cor da esperança.
É necessário dizer-lhe que a união é muito e a acção é tudo


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A felicidade do povo está na vontade do povo. Ora a desunião e a inação matam a vontade.Isto tanto nas grandes crises das nações, como nas pequenas questões dos municípios.
Ninguém virá trazer ao povo o seu bem-estar se ele não o for procurar pela ordem moral e social. O povo é o coração da Pátria: a indiferença do povo é a morte da Pátria.Se nós a abandonamos, quem vai velar por ela? Virá um dia uma nação estrangeira apanhá-la e cosê-la , como um farrapo, ao seu território. O povo tem grandes instintos, mas mas pode fortalecê-los pela união e pela acção. Só assim serão fecundos.O homem que se deixa adormecer numa estrada infestada poderá amanhã acordar roubado e nu. E a Europa, mais do que nunca, está numa floresta perigosa.
União e acção: a vitória nunca se aproxima dos que se desunem, a justiça nunca se aproxima dos que adormecem."

( Eça de Queiroz, jornal Districto de Évora, 13 de Janeiro de 1867 cit na colectânea  A Pátria dos Abusos, que reúne os seus artigos publicados naquele jornal entre 10 de Janeiro e 18 de Julho.)
Sublinhados meus