quarta-feira, 4 de julho de 2012

Bichos da seda

 Muito antes de nos impingirem a junk food e os transgénicos, já os americanos tinham substituído os bichos da seda pelo rayon. Foi em 1901 que a seda natural ganhou um glamour artificial. Mais ou menos como o sorriso de Christine Lagarde

Saudades de Portugal?



Não, não tenho. Duvido mesmo que algum dia venha a ter. Querem saber porquê? Então aqui vai...
Portugal não é apenas esse país exótico que inventou os PIN para viabilizar projectos turísticos, comerciais  ou industriais  em áreas protegidas, ou  altera um PDM num piscar de olhos, para proteger a actividade de um sucateiro cuja influência pode ser importante no resultado eleitoral de um concelho recôndito.
Portugal é o país do “jeitinho”, do “empenho”, ("ó sr doutor, se me arranjasse qualquer coisa ao miúdo que anda há dois anos ao alto sem  conseguir trabalhar… Obrigado stôr"), onde (quase) ninguém já acredita ser capaz de mostrar o seu valor se não tiver um encosto, um padrinho, uma “cunha”.
Mas Portugal é, também, um dos países europeus onde os cidadãos mais fogem ao cumprimento dos seus deveres fiscais, utilizando as mais imaginativas artimanhas para iludir o Fisco.
Em Portugal, não é só o merceeiro que rouba no peso do fiambre. Também o médico ou o advogado evitam passar recibo sobre os seus serviços e, quando lho exigem, vai de carregar sobre o preço da consulta. No final de uma refeição num restaurante, há sempre um  empregado solícito que pergunta: deseja factura?
Quando pedimos a um electricista, um canalizador, ou um carpinteiro algum serviço em nossas casas, a pergunta sacramental, antes de fazerem o orçamento, é: quer recibo?  Ou seja, quer que lhe ponha mais 20 por cento de IVA  na conta?
Claro que o português não quer, por isso responde logo: não, deixe lá isso!
Portugal é o país onde a  Segurança Social detectou, nos últimos meses, 80 mil infractores. Ou seja, 80 mil cidadãos que se locupletaram indevidamente com quantias que não lhe eram devidas, pagas por todos nós. Baixas fraudulentas, gente a receber subsídio de desemprego, enquanto trabalha noutro local, ou está a  gerir o seu boteco.
Portugal é o país onde pessoal ligado à saúde se reúne em organização mafiosa para perpetrar diversos crimes, lesando o SNS que, supostamente, está  a servir.
Portugal é o país onde o dono de um banco oferece ao PR a oportunidade de ganhar dinheiro como nenhum outro cidadão, leva o banco à falência e, enquanto os portugueses pagam os prejuízos, continua a viver como um nababo à espera que os crimes prescrevam.
Portugal é o país do Dias Loureiros, do Oliveira e Costa e do Duarte Lima, amigos de um PR que comete perjúrio violando a Constituição da República.
Portugal, meu Deus, é o país onde o Relvas é ministro e um Coelho ocupa o cargo pago por todos os cidadãos, com o único objectivo de rasgar a Constituição.
Portugal é o país onde a alta finança se move tranquilamente em off shores, a banca está sempre sob suspeita e as gasolineiras aumentam o preço dos combustíveis quando desce o preço do petróleo.
Resumindo: somos um país de vigaristas!
Perante este panorama, espanto-me quando vejo  os portugueses obcecados e deprimidos  com a ideia de um Conselheiro de Estado ser um troca-tintas ou de um PM ter metido a mão na massa de um “outlet”.
Mas afinal não são os nossos governantes portugueses? Não pertencem eles ao povo e à oligarquia de interesses de um Centrão que governa o pais há mais de 30 anos, retribuindo-se favores e prebendas, partilhando salomonicamente os cargos decisórios?
O Centrão lembra-me, com inusitada frequência, o comportamento de duas famílias  que lutam pelo poder de uma região. Convivem alegremente nas festas de casamento entre membros dos clãs, fazem discursos elogiando o significado daquela união, mas vão ao funeral dos membros da família adversária com aquela doce sensação de que ganharam mais poder com o seu  enfraquecimento.
Perdem a compostura e sacam de naifas ou revólveres, para eliminar o adversário, no momento em que a conquista de uma posição favorável no tabuleiro de xadrez depende de uma ida às urnas. Encarniçam-se, fazem jogo sujo, mas unem-se para alertar os seus súbditos que a luta se limita aos dois clãs.
Sinceramente, não tenho pachorra para tanta mesquinhez. Estou fora deste filme, porque quando se trata de lutas de “famiglia”, prefiro o recurso ao DVD, para  ver os requentados episódios de “La Piovra”
Parafraseando um  “graffitti” na cidade do México, onde se pode ler  “Basta de realismo, queremos promessas!”, apetece-me dizer:
Basta de telenovelas noticiosas, queremos saber o fim da história!