quarta-feira, 20 de junho de 2012

Conselho para uma noite sem insónias

O senhor presidente do conselho comemora amanhã o primeiro aniversário à frente do (des)governo.
Embora passe o dia no Rio de Janeiro, o senhor presidente do conselho apreciará muito a vossa generosidade e paciência e agradecerá o facto de não serem piegas.
Como não poderia  deixar de ser, o CR assinalará a data devidamente e sugere a todos os leitores que visitem esta acolhedora salinha e escolham o presente que lhe pretendem oferecer. 
Como poderão constatar a variedade é muita e aceitam-se pedidos não constantes do catálogo. 
Eu próprio me comprometo a publicitar os vossos donativos, indicando o remetente. 

Para mais tarde recordar



Embora o conceito de fotografia remonte a tempos imemoriais,  a primeira fotografia conhecida, produzida com uma câmara, data de 1826. O seu autor foi o francês Joseph Niepce  que precisou de submeter à exposição solar  uma placa de estanho coberta com um derivado de petróleo, durante oito horas, para obter e fixar a imagem.
Outro francês, Daguerre, conseguiria reduzir o processo a alguns minutos, mas só a partir de 1888 a fotografia começou a ser acessível a todos.  A responsável pela popularidade da fotografia foi a Kodak, que lançou em 1888 a primeira câmara fotográfica com rolos, produzidos por George Eastman, fundador da companhia.
Em 1900, a Kodak lançou no mercado um modelo muito popular: a Brownie. Custava um dólar e tirava oito fotografias por rolo.
Acessível a quase todas as bolsas, era com ela que, nos primeiros anos do século XX, ao chegar a Nova Iorque, os emigrantes europeus  fotografavam  a estátua da Liberdade e registavam a mensagem “Vinde a mim, multidões cansadas e pobres com ânsia de respirar em Liberdade”.
Hoje, em plena era digital, as velhas câmaras são peças de museu e a Kodak, 130 anos depois de ter revolucionado  a fotografia, tornando-a popular e acessível a todos, entrou em processo de falência.

Por este Rio acima


Aterro do Flamengo
A Cimeira começa hoje mas, em rigor, a Rio+20 terminou ontem. Confusos? Então passo a explicar. O que se tem passado desde o dia 13 de Junho é um conjunto de eventos paralelos promovidos pela sociedade civil - nomeadamente ONG-  a exemplo do que aconteceu em 1992 e uma "negociação" entre ministros e alguns técnicos mandatados pelos governos para estabelecerem o texto final. O que se segue nos próximos três dias é um conjunto de discursos e encontros bi e multilaterais. O texto está fixado e negociado, é hora do show off. No entanto, é sempre bom lembrar, na Cimeira da Terra em 1992, ainda se conseguiram uns ligeiros avanços de última hora no concernente às Convenções sobre a Biodiversidade e as Alterações Climáticas. 
Nos eventos paralelos – onde não faltam vários desfiles e manifestações pelas ruas do Rio-  a sociedade civil tenta explicar aos governantes aquilo que  eles não percebem: os reais problemas com que se debate o planeta e as medidas que devem adoptar  para garantir um desenvolvimento sustentável que não ponha em risco a qualidade de vida das gerações futuras.
A exemplo do que aconteceu em 1992, com o Forum Global, o  Aterro do Flamengo  - agora rebaptizado de Parque dos Atletas- acolhe a Cúpula do Povos. Em 1992, Maurice Strong considerou o Forum Global como uma vertente fundamental para o sucesso da Cimeira e, este ano, a Cúpula dos Povos assume o mesmo grau de importância.
                                              Edifício Humanidade 2012 (aspecto exterior)

 Em 1992 por ali passou Maria de Lurdes Pintassilgo para fazer uma conferência sobre o papel das mulheres no diálogo Norte/Sul. Este ano Portugal estará representado por Boaventura Sousa Santos, um dos grandes impulsionadores e animadores do Forum Social de Porto Alegre.
Várias organizações portuguesas voltaram a marcar presença neste certame.
Nestes eventos paralelos não se discutem apenas as questões da sustentabilidade. Há também exposições, peças de teatro, exibição de filmes e  um programa de espectáculos diversificado, por onde passam alguns nomes sonantes da cultura, das artes e do show bizz. Há também uma estação de rádio – especialmente criada para o evento -que faz a cobertura de todo o programa. No entanto, a polémica já estalou, pois as autoridades cariocas encerraram a estação alegadamente por interferir com as comunicações aéreas. Depois de fortes protestos, a rádio voltou a emitir.
Humanidade 2012 ( sala de conferências)


O Sambódromo – desenhado por Oscar Niemeyer- está transformado num verdadeiro parque de campismo onde se alojam milhares de participantes na Cúpula dos Povos, provenientes de todos os cantos do Brasil e de vários países do mundo.
O acampamento está rodeado de fortes medidas de segurança. Aliás, a exemplo do que aconteceu em 1992, o Rio de Janeiro está em segurança máxima. Há milhares de polícias e militares patrulhando ruas e hotéis, mas de forma menos exuberante do que em 1992, ano em que eu próprio tinha um militar à porta do meu quarto 24 horas por dia.
Em Copacabana, a grande vedeta é o projecto Humanidade 2012. Trata-se de um andaime reciclável de vários andares com  painéis electrónicos onde passam mensagens alusivas à identidade do Brasil.
Humanidade 2012 ( A Capela)
Com  uma soberba vista desde Copacabana ao Pão de Açúcar, o Humanidade 2012 tem uma sala para 100 pessoas, baptizada  Capela, onde se destacam  milhares de figuras humanas iluminadas e milhares de livros escolhidos por uma centena de personalidades brasileiras. Por aqui têm passado ao longo destes dias figuras da política, da literatura e da música, como Caetano Veloso e Maria Bethânia, que deram um espectáculo.
Sobre a Cimeira da classe política, que está prestes a iniciar-se, já escrevi uns tópicos preliminares no post anterior, mas voltarei ao assunto num dos próximos dias. O sentimento geral  é de frustração, porque se ficou bastante aquém das metas previamente traçadas. Mas, perante as gravíssimas crises com que a maioria dos países se debate, alguém de bom senso esperava mais?  

Nota: todas as fotos da Internet

Há, mas não são verdes!



Já aqui escrevi diversas vezes sobre a Cimeira Rio+20 que está a decorrer no Brasil e das expectativas que alimento quanto aos resultados. 
Quando, em Setembro, entrevistei a ministra brasileira do Meio Ambiente ( Izabella Teixeira) fiquei com a certeza de que o Brasil não se iria deixar enrolar por uma já então previsível iniciativa da União Europeia e dos Estados Unidos que, a pretexto de garantir o desenvolvimento sustentável, visa entravar e amortecer o crescimento dos países emergentes.
Há dias, o ministro do desenvolvimento agrário, Pepe Vargas, veio clarificar as águas: o Brasil aceita discutir as questões da economia verde, desde que a proposta apresentada pelos países desenvolvidos não esconda medidas protecionistas ( barreiras comerciais, imposição de padrões tecnológicos, pré condições para apoio externo, etc).
Esta discussão –  alvo de acaloradas polémicas durante a Cimeira da Terra em 1992- promete reacender-se e, acredito, a oposição dos países emergentes que contam com o apoio da generalidade dos países asiáticos, será ainda mais veemente do que há 20 anos, quando a Malásia liderou um grupo contestatário de 40 países que ameaçou boicotar a Cimeira, caso os países desenvolvidos insistissem em travar o desenvolvimento dos países do sul.
É natural que uma Europa em crise profunda queira salvaguardar-se, mas não é admissível que países em desenvolvimento sejam obrigados a aceitar regras tecnológicas  para que ainda não estão preparados e só beneficiarão os países desenvolvidos. 
A posição dos países emergentes e dos países em desenvolvimento será mais forte do que em 1992. Para esses países, a economia verde passa pela protecção dos recursos naturais, pela redução das emissões de carbono,  mas também pela inclusão e reforço da coesão social, matérias em que o retrocesso na Europa se vem acentuando significativamente. 
Se querem uma discussão séria, os países europeus têm de negociar com base nos padrões tecnológicos ao alcance dos países em desenvolvimento e não partindo da premissa de imposição dos seus próprios  padrões. Os países emergentes e em desenvolvimento  estão-se  marimbando para a curvatura dos pepinos, o diâmetro dos tomates, ou o calibre das maçãs, enquanto não resolverem os problemas de coesão social a nível interno.  Ao contrário do que  acontece na Europa, os governos sul americanos estão mais interessados na defesa das pessoas do que nas finanças.