quarta-feira, 30 de maio de 2012

Com ou sem pi...?




( sendo que pi é aquela coisa que espantou  o Catroga por ser uma preocupação dos jornalistas)

Até há pouco tempo era usual  em qualquer restaurante, no momento de pagar a conta, o empregado perguntar: com ou sem factura? 
Agora quase todos os estabelecimentos já assumiram a obrigatoriedade de passar factura e a pergunta  passou a ser formulada de outra forma. Quer a factura  com ou sem nº de contribuinte?
A pergunta remete-me de imediato  para uma tasca na Baixa lisboeta  onde, nos idos de 60 e 70, se vendiam bebidas com nomes impublicáveis num blog respeitável como o CR. O proprietário da tasca- referenciada em alguns roteiros turísticos- costumava perguntar quando se pediam certas bebidas: Com ou sem pi…?
Sendo que, neste caso, o pi… era um pedaço de casca de limão.
Agora, pergunto eu: sabem porque vos fazem  a pergunta  nos estabelecimentos? E vocês, pedem facturas com ou sem pi…?

Insiste, insiste, flecte, flecte!



Era tempo de a CE, o BCE e o FMI deixarem de trautear o "Samba de uma nota só"
E que tal reduzirem o horário de trabalho, para criar mais emprego?

No Ponsul com Moussakas e Maranhos



Motivos profissionais  sentaram à minha mesa, no sábado à hora do almoço, quatro JEEP  ( Jovens Empreendedores de Elevado Potencial). Uma vez que a mim já vocês conhecem, passo a apresentar os comensais que comigo partilharam o repasto com vista para o rio Ponsul :
M- licenciado em gestão , com residência na margem sul do Tejo e passagem breve por Itália no âmbito do programa Erasmus. Teve uma experiência política chegando a desempenhar, por eleição, um cargo autárquico. Desiludiu-se  e “decidiu ir trabalhar”. É um jovem empresário de sucesso estabelecido em Lisboa.
R- licenciado pela universidade da vida, herdou o negócio do pai, modernizou-o e reconverteu-o. Trocou o Porto natal e as noites de boémia por um negócio industrial de pequenas dimensões na  Beira Interior. Está a lançar-se na exportação, tendo como mercado preferencial a América Latina.
P-  12º ano incompleto, subiu na vida a pulso, seguindo o exemplo dos alpinistas que diariamente compartilham com ele o gosto da escalada na Serra da Estrela.  A crise apanhou-o desprevenido e o negócio de import-export  com âncora na China e base operacional em Amsterdam está a atravessar um período difícil.
C- É a única mulher deste restrito grupo de comensais JEEP. Completado o 12º ano, inscreveu-se em engenharia na Universidade do Porto, mas abdicou da licenciatura para frequentar  um curso profissional onde pudesse dar asas à sua veia criativa na área do  design de jóias e moda. A crise não lhe coartou a arte, mas fez  definhar o negócio que prometia ser próspero. Compra e venda de ouro num estabelecimento nos arredores do Porto é o negócio alternativo.

Só conheci os perfis dos que comigo partilharam Maranhos e outras iguarias, durante o repasto cuja ordem de trabalhos era o empreendedorismo jovem. Dessa parte não vos vou dar aqui notícia pois estou obrigado, por dever  e ética profissional, a reservar esses detalhes para uma reportagem a publicar na revista que pagou o meu trabalho e custeou o almoço.
Atenho-me, por isso, à conversa  da  hora da sobremesa, onde pontificaram Nógados, Pantufas e  Papas de Carolo. E a conversa, meus amigos,  foi sobre a Grécia, matéria em que  três dos JEEP se tentaram notabilizar pelos conhecimentos da realidade do país.
Já estive na Grécia três ou quatro vezes, mas fiquei ciente da minha ignorância sobre o país ao ouvir as teses destes JEEP que revelaram um extraordinário conhecimento da realidade grega, apesar de nunca lá terem estado e só conhecerem o que lá se passa por relatos televisivos, polvilhados com crónicas jornaleiras. 
Por unanimidade e aclamação, estes JEEP decretaram que a Grécia devia sair da zona euro, porque os gregos são uns calaceiros e vigaristas, uma sub-espécie de ciganos romenos a quem não se deve comprar nem um relógio, mesmo que eles assumam ser de contrafacção e façam descer o preço para  patamares  consentâneos com a origem do produto.
Fiquei também a saber que a esquerda grega é um grupo de extremistas que nunca fez nada na vida e só quer  tacho , estando-se marimbando para a miséria dos gregos ( não consegui perceber qual é o problema que os JEEP vêem nisso, uma vez que advogam a saída da Grécia do euro, mas o problema é certamente meu).
A menina JEEP não se esqueceu de recordar que os gregos são uns corruptos e vigarizaram as contas para entrar no euro, mas ficou de monco caído quando lhe perguntei se me sabia explicar a razão de a Alemanha não ter levantado objecções   à entrada da Grécia, apesar de saber das falcatruas das contas gregas.
Hélas! O JEEP que andou a fazer tirocínio político no PSD, mas desistiu quando estava no patamar autárquico, para abraçar o empreendedorismo, respondeu:
- À Alemanha convinha que os gregos entrassem para o euro, porque isso lhes permitia ganhar muito dinheiro. Aliás, ainda hoje estão a ganhar! Só em material de guerra é um fartar vilanagem.
Por ser verdade e a tirada me ter impressionado favoravelmente, ainda pensei telefonar para a S. Caetano a propor o nome do rapaz para secretário de estado do Álvaro, alegando em sua defesa ser empresário de sucesso desiludido com a política no tempo em que Barroso trocou as sardinhas de Lisboa e, armado em cherne, navegou até Bruxelas para se empanturrar com mexilhões.
 Desisti quando o mesmo JEEP, na tentativa de mostrar a sua erudição em matéria de política económica europeia, acrescentou:
- Claro que isso só foi possível, porque quem governava a Alemanha na altura era o SPD!|

Boa tarde tio Pedro, venha o cafezinho antes que eu esqueça a minha obrigação de ser um ouvinte atento e neutral  e me ponha a rebater estas teorias, porque a conversa pode azedar e o Lince da Malcata não vem em minha defesa. 
O R pediu um uísque, a C uma caipirinha e eu fui para a varanda com vistas para Penha Garcia, fumar uma cigarrilha, enquanto desfrutava a aragem  batida, vinda das margens do Ponsul.
No final, fazendo jus à minha alma escorpiana, lancei o repto em jeito de professor a ditar os TPC para os seus alunos:
- Na próxima vez que nos encontrarmos, vamos falar das consequências para Portugal se a Grécia abandonar o euro?
A resposta veio em inequívoco uníssono:
- Pois, esse é que é o grande problema. Somos capazes de também ter de sair…
Pronto, estamos todos de acordo, encontramo-nos no funeral da Europa se ninguém estiver disposto a salvá-la.  Agora ala que se faz tarde, tenho de ir andando,  próxima paragem é  Vila de Rei para uma  conversa com imigrantes.